Papa Leão XIV recebe alta após cirurgia de câncer no pulmão, mas diagnóstico gera incertezas sobre futuro do pontificado
Pontífice de 71 anos retornou ao Vaticano neste sábado (17), quatro dias depois de retirar parte do pulmão direito. Médicos confirmam recuperação satisfatória, mas ainda não divulgaram o estágio da doença
O papa Leão XIV, de 71 anos, retornou ao Vaticano neste sábado (17), quatro dias após ser submetido a uma cirurgia para retirada de um tumor cancerígeno no pulmão direito. A alta hospitalar ocorreu antes do prazo inicialmente previsto e foi autorizada depois que exames clínicos, laboratoriais e radiológicos confirmaram uma recuperação satisfatória. Apesar do resultado positivo da operação, o diagnóstico de câncer trouxe incertezas sobre a saúde do pontífice e sua capacidade de manter a intensa agenda de compromissos internacionais.
Leão XIV deixou o Hospital Agostino Gemelli, em Roma, caminhando sem auxílio e acenando para fiéis e profissionais de saúde que aguardavam sua saída. Sorridente, o líder da Igreja Católica cumprimentou integrantes da equipe médica e conversou com pacientes, entre eles uma adolescente ucraniana de 13 anos que está na Itália para tratamento contra o câncer. Pouco depois, seguiu de carro para o Vaticano, onde continuará sua recuperação.
A cirurgia foi realizada na terça-feira (13), após a identificação de um nódulo pulmonar durante exames de rotina. O procedimento, conduzido pelo cirurgião torácico Stefano Margaritora, consistiu na retirada do lobo inferior do pulmão direito, uma intervenção conhecida como lobectomia. A análise do tecido confirmou a presença de adenocarcinoma pulmonar, o tipo mais comum de câncer de pulmão.
Segundo os médicos responsáveis, a operação transcorreu sem complicações e teve como objetivo remover integralmente a lesão cancerígena. O pontífice apresentou evolução favorável desde as primeiras horas do pós-operatório, retomando gradualmente a alimentação, a caminhada e os exercícios de fisioterapia respiratória.
Embora a cirurgia tenha sido considerada bem-sucedida, informações essenciais para avaliar a gravidade da doença ainda não foram divulgadas. O Vaticano não informou o tamanho do tumor nem esclareceu se houve comprometimento dos gânglios linfáticos próximos ao pulmão, elementos fundamentais para determinar o estágio do câncer e a eventual necessidade de tratamentos complementares.
Diagnóstico exige acompanhamento
O adenocarcinoma é uma forma de câncer que se desenvolve nas células glandulares do pulmão e pode ocorrer inclusive em pessoas que nunca fumaram. A doença frequentemente é identificada por exames de imagem e, quando descoberta em estágios iniciais, pode ser tratada cirurgicamente com intenção curativa.
No caso de Leão XIV, a retirada da região pulmonar afetada representa uma etapa importante do tratamento, mas não permite, isoladamente, afirmar que o câncer foi definitivamente eliminado. A avaliação depende dos resultados anatomopatológicos completos e da investigação de possível disseminação da doença.
O diagnóstico surpreendeu observadores do Vaticano porque Leão XIV era considerado um pontífice relativamente jovem e fisicamente ativo. Eleito em maio de 2025, o religioso norte-americano mantém hábitos esportivos, incluindo a prática de tênis, e não apresentava histórico público recente de problemas graves de saúde.
Retorno às atividades e viagem à América do Sul
A recuperação acelerada permitirá que Leão XIV retome parte de sua agenda já neste domingo (18). O Vaticano confirmou que o pontífice deverá conduzir a tradicional oração do Angelus da janela de seu apartamento, diante dos fiéis reunidos na Praça de São Pedro. Será sua primeira aparição pública oficial desde a cirurgia.
Mesmo durante a internação, o papa continuou acompanhando assuntos relacionados à administração da Igreja e à diplomacia internacional. Na sexta-feira (16), conversou por telefone com o presidente da Rússia, Vladimir Putin, e defendeu um cessar-fogo humanitário que permita a chegada de suprimentos essenciais à cidade ucraniana de Oleshky, sob controle russo.
A principal dúvida sobre sua agenda envolve uma viagem de 11 dias à América do Sul, programada entre 6 e 17 de novembro, com visitas ao Uruguai, à Argentina e ao Peru. A Santa Sé informou que os preparativos continuam em andamento, inclusive com o credenciamento de jornalistas que acompanharão a comitiva papal.
O roteiro representa um compromisso particularmente significativo para Leão XIV, que passou décadas atuando como missionário e bispo no Peru antes de assumir o comando da Igreja Católica. A viagem também será um teste importante para sua recuperação, considerando os deslocamentos internacionais, cerimônias religiosas e encontros com autoridades previstos.
O secretário de Estado do Vaticano, cardeal Pietro Parolin, reconheceu na sexta-feira que o papa poderá precisar adaptar o ritmo de trabalho às condições de saúde. A manifestação chamou atenção por representar um reconhecimento público, por parte de uma das principais autoridades da Santa Sé, de que a doença poderá exigir mudanças na rotina do pontífice.
Saúde do papa reacende debate sobre continuidade do pontificado
O diagnóstico ocorre apenas 17 meses depois da eleição de Leão XIV, que sucedeu o papa Francisco, morto em abril de 2025, aos 88 anos. Nos últimos anos de seu pontificado, Francisco enfrentou sucessivas internações e limitações físicas que frequentemente exigiram adaptações na agenda oficial.
Diferentemente de outras instituições, a Igreja Católica não possui um mecanismo automático de substituição temporária do papa durante períodos de enfermidade. Quando o pontífice está impossibilitado de exercer determinadas funções, a estrutura administrativa da Santa Sé continua operando, mas decisões que dependem exclusivamente de sua autoridade podem ser adiadas.
A situação de Leão XIV, entretanto, é distinta da enfrentada por seu antecessor nos últimos anos de vida. Até o momento, os médicos não apontaram incapacidade para o exercício das funções papais, e o Vaticano tem demonstrado confiança na recuperação do religioso.
A expectativa agora se concentra na divulgação de informações mais completas sobre o câncer e na evolução clínica durante os próximos dias. A manutenção da viagem à América do Sul e o retorno gradual aos compromissos públicos deverão oferecer os primeiros indicativos concretos sobre os impactos da doença na condução do pontificado.
A alta hospitalar representa um avanço importante, mas a extensão do tratamento e suas consequências para a rotina do líder de aproximadamente 1,4 bilhão de católicos ainda dependem de avaliações médicas.
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