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Governo Trump adia reconhecimento da vitória de Lula após articulação de aliados de Flávio Bolsonaro nos EUA

Comunicado do Departamento de Estado foi suspenso após contestação do resultado eleitoral; aliados dizem ter alertado Washington, enquanto Eduardo Bolsonaro busca apoio internacional para questionar a eleição

Gazeta do Paraná · · 6 min de leitura
Trump em encontro com Flávio Bolsonaro
Trump em encontro com Flávio Bolsonaro — Crédito: Divulgaçao Casa Branca

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A contestação da vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas eleições presidenciais brasileiras ultrapassou as fronteiras do país e chegou ao governo dos Estados Unidos. Nesta segunda-feira (26), a administração do presidente Donald Trump decidiu adiar a divulgação de um comunicado que reconheceria o resultado do segundo turno, após Flávio Bolsonaro (PL) anunciar que pretende pedir a anulação da eleição. Ao mesmo tempo, aliados do senador derrotado afirmaram ter alertado previamente integrantes do governo americano sobre a possibilidade de contestação, enquanto Eduardo Bolsonaro intensificou a pressão internacional contra o resultado das urnas.

Segundo reportagem da Folha de S.Paulo, o Departamento de Estado americano já havia preparado uma manifestação oficial para cumprimentar o Brasil pela realização das eleições, procedimento habitual nas relações diplomáticas entre os dois países. Entretanto, a divulgação foi suspensa depois que Flávio Bolsonaro questionou a legitimidade do pleito, vencido por Lula com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% do candidato do PL.

A orientação dentro do governo americano foi aguardar uma avaliação da situação antes de tornar pública qualquer manifestação. Procurada pela imprensa, a Embaixada dos Estados Unidos no Brasil não informou quando o comunicado poderá ser divulgado. Até a tarde desta segunda-feira, Trump também não havia reconhecido publicamente a reeleição do presidente brasileiro.

O episódio ganha dimensão política porque ocorre em meio a uma articulação de integrantes do bolsonarismo junto a representantes da administração republicana. Conforme outra reportagem da Folha, aliados de Flávio afirmam que o governo americano havia sido informado de que o candidato poderia contestar o resultado eleitoral. A declaração indica que a reação ao segundo turno já era discutida entre interlocutores políticos antes da manifestação pública do senador, embora não comprove que Washington tenha participado da elaboração da estratégia.

Eduardo Bolsonaro busca apoio internacional

Um dos principais articuladores da aproximação entre a família Bolsonaro e setores da direita americana, Eduardo Bolsonaro também passou a defender uma reação internacional ao resultado brasileiro. Em manifestação publicada em inglês, o ex-deputado pediu que a comunidade internacional não reconhecesse a vitória de Lula, reproduzindo suspeitas de irregularidades no processo eleitoral sem apresentar provas que demonstrassem fraude.

A ofensiva ocorre depois de Flávio Bolsonaro anunciar que pretende questionar judicialmente o resultado, alegando problemas relacionados à prorrogação do horário de votação no segundo turno. A medida foi determinada pelo ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal, diante de dificuldades de transporte que poderiam comprometer o comparecimento de eleitores às urnas.

A decisão judicial tornou-se o principal argumento utilizado por integrantes do bolsonarismo para contestar a eleição. A ampliação do horário, entretanto, não constitui, por si só, demonstração de fraude, e as acusações divulgadas até o momento não foram acompanhadas de evidências capazes de invalidar o resultado proclamado pela Justiça Eleitoral.

A atuação de Eduardo nos Estados Unidos não começou depois da derrota do irmão. Durante a campanha, ele manteve contatos com lideranças conservadoras e participou de articulações internacionais em apoio à candidatura de Flávio. Em outubro, encontrou-se em Washington com o presidente argentino Javier Milei, aliado de Trump, durante um evento voltado à comunidade hispânica.

Entorno de Trump amplia questionamentos

As manifestações de integrantes da família Bolsonaro encontraram repercussão entre pessoas próximas ao presidente americano. Donald Trump Jr., filho do republicano, compartilhou críticas à decisão que ampliou o horário de votação no Brasil e questionou a cobertura da imprensa americana sobre o episódio.

A publicação reproduzida por Trump Jr. havia sido feita por Martin De Luca, advogado que representa a Trump Media & Technology Group e a plataforma Rumble em processos no Supremo Tribunal Federal. De Luca levantou suspeitas sobre a legitimidade do resultado e comparou a situação brasileira à da Venezuela, em declarações críticas ao governo Lula.

Outro aliado de Trump, o estrategista político Steve Bannon, também adotou uma posição de confronto. Segundo a Folha, Bannon defendeu que Washington rompesse relações diplomáticas com o Brasil, ampliando a pressão de setores da direita americana contra o resultado eleitoral.

As manifestações, contudo, precisam ser diferenciadas da posição institucional dos Estados Unidos. Declarações de familiares, advogados e aliados políticos de Trump não representam necessariamente decisões oficiais da Casa Branca. Até esta segunda-feira, o fato concreto era o adiamento do comunicado diplomático, sem anúncio de rompimento de relações ou de medidas formais contra o governo brasileiro.

Silêncio contrasta com reconhecimento internacional

A postura americana contrasta com a reação de outros governos, inclusive administrações conservadoras próximas de Trump. Presidentes de países latino-americanos, entre eles José Antonio Kast, do Chile, e Abelardo de la Espriella, da Colômbia, já haviam cumprimentado Lula pelo resultado da eleição.

O silêncio também rompe um padrão observado nas últimas disputas presidenciais brasileiras. Em 2022, o então presidente americano Joe Biden reconheceu rapidamente a vitória de Lula sobre Jair Bolsonaro, em um momento no qual o candidato derrotado também questionava a confiabilidade das urnas eletrônicas.

Naquele ano, a manifestação de Washington foi interpretada como um sinal de apoio ao funcionamento das instituições democráticas brasileiras. Em 2026, a demora ocorre em um cenário diferente, marcado pela proximidade política entre Trump e a família Bolsonaro e pelo aprofundamento das divergências diplomáticas entre os governos brasileiro e americano.

Especialistas em relações internacionais ouvidos pela BBC News Brasil avaliam que a ausência de uma manifestação pode refletir frustração política de Trump com a derrota de um aliado. Também apontam que um reconhecimento formal da vitória de Lula pela Casa Branca poderia enfraquecer a tentativa de contestação conduzida por Flávio Bolsonaro.

Relação diplomática entra em nova fase

A movimentação ocorre às vésperas de compromissos diplomáticos envolvendo os dois países. O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, tem uma viagem prevista aos Estados Unidos para participar de uma reunião do G20, ocasião em que deverá manter contato com o secretário de Estado americano, Marco Rubio.

O encontro poderá oferecer os primeiros sinais sobre a disposição de Washington de manter uma relação institucional com o governo brasileiro após a eleição. Apesar das diferenças políticas entre Lula e Trump, Brasil e Estados Unidos possuem vínculos comerciais, econômicos e estratégicos que ultrapassam os interesses eleitorais de seus governantes.

O adiamento do comunicado americano, portanto, representa mais do que uma demora protocolar. A decisão ocorre justamente quando a oposição brasileira procura ampliar internacionalmente seus questionamentos sobre a votação, colocando a posição da Casa Branca no centro de uma disputa que, até então, estava concentrada nas instituições nacionais.

Ainda não há confirmação de que o governo Trump pretenda endossar formalmente as acusações de Flávio Bolsonaro. Também não foram apresentadas provas de fraude que sustentem o pedido de anulação da eleição. O resultado foi proclamado pelo Tribunal Superior Eleitoral, e qualquer contestação deverá seguir os procedimentos previstos na legislação brasileira.

Enquanto isso, a reação americana permanece sob observação. O próximo movimento de Trump poderá indicar se a Casa Branca pretende encerrar a controvérsia por meio do reconhecimento diplomático ou prolongar a indefinição em torno de uma eleição cujo resultado já foi anunciado oficialmente pela Justiça Eleitoral.

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