Flávio supera pesquisas, termina à frente de Lula e leva disputa presidencial ao segundo turno
Senador chegou a ultrapassar 50% durante a apuração e contrariou levantamentos que apontavam Lula na liderança; segundo turno será disputado em 25 de outubro
A eleição presidencial de 2026 terminou o primeiro turno com uma inversão em relação ao cenário desenhado pelas principais pesquisas da reta final. Flávio Bolsonaro (PL) avançou ao segundo turno numericamente à frente do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e chegou, durante a apuração, a flertar com uma vitória ainda no primeiro turno.
Com 98,69% dos votos totalizados, Flávio aparecia com 47,26% dos votos válidos, contra 44,89% de Lula. A diferença era de 2,37 pontos percentuais. Nenhum dos dois, portanto, alcançou a maioria absoluta necessária para encerrar a eleição neste domingo. O segundo turno será disputado em 25 de outubro.
Mais do que definir os dois finalistas, as urnas deixaram sinais importantes sobre o comportamento do eleitorado brasileiro e sobre o cenário que as duas campanhas encontrarão nas próximas três semanas.
Urnas inverteram as pesquisas
A primeira surpresa está na ordem de chegada. As pesquisas publicadas imediatamente antes da eleição apontavam Lula numericamente à frente.
O Datafolha divulgado na véspera da votação mostrava o presidente com 45% dos votos válidos e Flávio Bolsonaro com 42%. Os dois estavam tecnicamente empatados dentro da margem de erro, mas Lula mantinha vantagem numérica. Outros levantamentos da reta final também mostravam uma disputa apertada, porém com o petista na primeira colocação.
As urnas produziram o movimento contrário. Flávio não apenas ultrapassou Lula como terminou a noite à frente por mais de dois pontos percentuais.
O resultado remete ao ocorrido em 2022, quando pesquisas da véspera também subestimaram o desempenho de Jair Bolsonaro no primeiro turno. Desta vez, porém, a diferença foi suficiente para inverter a ordem dos dois primeiros colocados.
Flávio chegou a passar dos 51%
A própria trajetória da apuração produziu outra história dentro da eleição. Desde os primeiros boletins totalizados, Flávio Bolsonaro apareceu na liderança. Com apenas 1,51% das urnas contabilizadas, tinha 49,17%, enquanto Lula registrava 42,18%.
Às 18h, quando a totalização alcançou 12,54%, Flávio chegou a 51,09%. Quinze minutos depois, estava com 51,22%, contra 40,66% de Lula. Por algumas horas, portanto, a questão deixou de ser apenas quem terminaria na primeira colocação e passou a ser se haveria segundo turno.
O cenário começou a mudar conforme avançou a totalização. Quando 64,81% das urnas estavam computadas, Flávio caiu para 49,58%. A entrada de novos votos reduziu gradativamente o percentual do candidato e afastou a possibilidade de encerramento da disputa neste domingo.
Polarização ficou ainda mais concentrada
Se havia expectativa de que uma candidatura alternativa pudesse quebrar a polarização que marcou as eleições presidenciais anteriores, as urnas apontaram na direção oposta.
Somados, Flávio Bolsonaro e Lula concentraram mais de 92% dos votos válidos. Todos os demais candidatos dividiram menos de 8%. Augusto Cury (Avante), Ronaldo Caiado (PSD) e Renan Santos (Missão), principais nomes do segundo pelotão, ficaram muito distantes dos dois líderes.
Na prática, a eleição presidencial brasileira voltou a se organizar em torno de dois grandes campos políticos. Mudou um dos protagonistas: Jair Bolsonaro, que enfrentou Lula em 2022, deu lugar ao filho Flávio. A estrutura da disputa, porém, permaneceu fortemente concentrada nos dois polos.
O desempenho reduz também o tamanho do eleitorado diretamente disponível entre os candidatos derrotados. Diferentemente de eleições em que um terceiro colocado reúne uma parcela expressiva dos votos e se torna peça central das negociações do segundo turno, desta vez o contingente precisa ser buscado em diferentes candidaturas, além dos eleitores que votaram em branco, anularam ou não compareceram.
Lula chega atrás ao segundo turno
O resultado muda o ponto de partida da próxima etapa da campanha. Lula chegou ao primeiro turno liderando numericamente a maior parte das pesquisas da reta final, mas inicia a nova disputa atrás de Flávio Bolsonaro no resultado das urnas.
O presidente terá três semanas para ampliar sua votação principalmente entre os eleitores que escolheram candidatos eliminados e entre aqueles que não compareceram. Flávio, por sua vez, entra no segundo turno carregando a condição de candidato mais votado da primeira etapa, mas sem ter conseguido transformar o forte desempenho observado no início da apuração em maioria absoluta.
Há ainda um universo importante de eleitores que não participou da votação deste domingo. O comparecimento no segundo turno independe da participação no primeiro, o que significa que quem se absteve agora poderá votar normalmente em 25 de outubro.
Também começa uma nova disputa por apoios. Partidos e candidatos eliminados terão de decidir se aderem formalmente a Lula ou Flávio, liberam suas bases ou permanecem neutros. Com mais de 92% dos votos já concentrados nos dois finalistas, porém, a eleição poderá depender menos de grandes transferências partidárias e mais da capacidade de cada campanha de conquistar pequenas parcelas espalhadas pelo eleitorado.
Uma disputa diferente daquela prevista
A eleição chega, portanto, ao segundo turno em condições diferentes das imaginadas até poucas horas antes da abertura das urnas.
Na véspera, a discussão estava concentrada na vantagem numérica de Lula nas pesquisas e no tamanho da aproximação de Flávio Bolsonaro. Ao fim da votação, as posições se inverteram: é Flávio quem entra na segunda etapa depois de receber mais votos no primeiro turno.
A distância, porém, permanece pequena. Menos de três pontos percentuais separavam os candidatos com praticamente toda a votação contabilizada, abrindo uma nova campanha em que cada movimento em busca dos eleitores que ficaram fora dos dois grandes campos poderá ganhar peso.
O primeiro turno resolveu quem continua na disputa. Não resolveu a divisão política que voltou a dominar a eleição brasileira. Em 25 de outubro, Lula e Flávio Bolsonaro voltarão às urnas, desta vez sem outros candidatos entre eles.
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