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Dívida pública cresce, mas economistas divergem sobre solução para o Brasil

Endividamento passou de 71,7% para 82,9% do PIB desde 2022; especialistas divergem entre corte de gastos e redução dos juros

Gabriel Porta · · 4 min de leitura
Economistas criticam usar corte de gastos para conter dívida pública
Economistas criticam usar corte de gastos para conter dívida pública — Crédito: Antonio Cruz/Agência Brasil

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A dívida pública brasileira chegou a 82,9% do Produto Interno Bruto (PIB) em agosto de 2026, ante 71,7% em 2022, e voltou ao centro do debate econômico sobre os próximos anos. Para economistas ligados a diferentes correntes, porém, o diagnóstico e o caminho para conter o avanço do endividamento estão longe de ser consenso.

Enquanto representantes do mercado financeiro e economistas classificados como liberais ou ortodoxos defendem a redução dos gastos públicos como principal medida para equilibrar as contas, especialistas de linha heterodoxa ou desenvolvimentista apontam os juros elevados como o principal fator de pressão sobre a dívida.

A discussão ganhou força durante a campanha presidencial e voltou ao debate após a eleição. A revista Forbes publicou um artigo defendendo um corte de até R$ 450 bilhões para estabilizar a dívida brasileira, com base em estudos do Instituto Fiscal Independente (IFI), ligado ao Senado.

Durante a campanha, uma proposta de redução de gastos de R$ 250 bilhões foi atribuída ao candidato Flávio Bolsonaro (PL). O então candidato Luiz Inácio Lula da Silva (PT) criticou a medida e afirmou que ela representaria um “tesouraço” sobre os benefícios sociais.

Consultados pela Agência Brasil, economistas rejeitaram a ideia de que a redução dos gastos primários, aqueles destinados à manutenção dos serviços públicos, seja necessariamente o principal caminho para enfrentar o endividamento.

Dívida preocupa ou ainda está em nível aceitável?

A professora do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Simone Deos afirma que o crescimento da dívida não representa, por si só, risco de calote ou de disparada da inflação.

Segundo ela, uma diferença importante está na moeda em que a dívida é emitida. Como a dívida pública brasileira é majoritariamente denominada em reais, a economista considera diferente a situação de países que possuem obrigações em moeda estrangeira.

“A história não mostra nenhum país que não tenha conseguido pagar a sua dívida interna, em moeda nacional, por falta de recursos. Haveria risco se a dívida fosse em dólares”, afirmou.

O professor de economia da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) Fernando Henrique Lemos Rodrigues também considera que o nível atual do endividamento ainda não deve ser tratado como a principal preocupação econômica do país.

“A dívida enquanto proporção do PIB não é uma preocupação prioritária. A dívida está dentro dos parâmetros internacionais considerando a complexidade do Brasil e o peso da dívida interna”, disse.

O professor também contesta a comparação entre as contas de um país e as de uma família, usada com frequência no debate sobre responsabilidade fiscal.

“Nós não estamos falando de uma dona de casa, nem de uma dona de padaria. Estamos falando de um país com capacidade de arrecadação, de alongar o seu endividamento e de conseguir receitas das suas estatais”, afirmou.

Brasil tem dívida menor que a de outras grandes economias

Simone Deos também chama atenção para a comparação internacional. Dados do Fundo Monetário Internacional (FMI) de 2024 mostram países com níveis de dívida pública superiores ou próximos ao brasileiro.

O Japão tinha dívida equivalente a 236% do PIB, a Itália 135%, os Estados Unidos 120%, o Canadá 110%, o Reino Unido 101% e a Índia 81,2%.

Na avaliação da pesquisadora, o problema brasileiro está relacionado principalmente ao peso dos juros sobre as contas públicas.

“O que está causando essa trajetória de aumento é o pagamento de juros. E o problema dela é que uma parcela cada vez maior do PIB está sendo transferida para rentistas”, afirmou.

Juros consumiram R$ 1,1 trilhão em 12 meses

A taxa de juros aparece como um dos principais pontos de divergência entre as correntes econômicas.

Segundo dados do Banco Central, os juros nominais responderam pela maior parte do aumento de 4,2 pontos percentuais da relação dívida/PIB em 2026. Nos 12 meses anteriores, o país gastou R$ 1,1 trilhão com juros, valor equivalente a 8,86% do PIB.

A taxa de juros real brasileira estava em 8,45%, segundo levantamento da consultoria MoneYou citado pela Agência Brasil.

Para Fernando Henrique

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