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Candidato do próprio PL cobra Filipe Barros por repasses do Fundo Eleitoral; acusação sobre R$ 50 milhões não foi comprovada

Ex-prefeito de Assaí e candidato a deputado estadual, Luiz Mestiço afirma que recursos prometidos a candidaturas do PL não foram integralmente repassados e cobra explicações da direção estadual; registros confirmam diferenças nos valores recebidos, mas até agora não há documento público que comprove desvio ou desaparecimento dos R$ 50 milhões citados por ele.

Ana Zimermann · · 6 min de leitura
Candidato do próprio PL cobra Filipe Barros por repasses do Fundo Eleitoral; acusação sobre R$ 50 milhões não foi comprovada
— Crédito: redes sociais

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A reta final da campanha eleitoral abriu uma crise interna no PL do Paraná. Luiz Alberto Vicente, o Luiz Mestiço, ex-prefeito de Assaí e candidato a deputado estadual pela legenda, tornou públicas acusações contra o deputado federal, presidente estadual do partido e candidato ao Senado, Filipe Barros. No centro da disputa estão os recursos públicos destinados ao financiamento das campanhas. Em vídeo divulgado nas redes sociais e em entrevista concedida na sexta-feira (2), Mestiço questionou a distribuição do Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC) entre candidatos do PL no Paraná. Ele afirma que valores acertados anteriormente não teriam sido integralmente repassados e sustenta que aproximadamente R$ 50 milhões teriam sido destinados pela direção nacional ao Paraná.

A acusação exige cautela. Até a manhã deste sábado (3), a Gazeta do Paraná não localizou documento público que demonstre que R$ 50 milhões tenham desaparecido, sido desviados ou utilizados irregularmente por Filipe Barros. Também não foi localizado, nas fontes consultadas, documento que permita estabelecer que esse montante tenha sido colocado diretamente sob controle pessoal do candidato ao Senado. O próprio Mestiço, ao ser questionado sobre provas durante entrevista ao O Diário de Maringá, disse que a prestação de contas deveria ser apurada e afirmou que poderia se retratar caso fosse demonstrada a regularidade da aplicação dos recursos.

O que Mestiço acusa

Segundo o ex-prefeito, candidatos do PL teriam ingressado na eleição contando com valores previamente acertados para financiar suas campanhas. Os repasses, de acordo com a versão apresentada por ele, ocorreriam em parcelas. Mestiço afirma ter recebido inicialmente R$ 180 mil e, posteriormente, mais R$ 20 mil. Para candidatos a deputado estadual que já possuem mandato, segundo ele, o acordo teria sido de R$ 1 milhão até 30 de setembro. Esses candidatos teriam recebido R$ 200 mil inicialmente e outros R$ 200 mil, permanecendo uma diferença de R$ 600 mil em relação ao que Mestiço diz ter sido prometido.

O candidato estimou que cerca de 11 postulantes à Assembleia Legislativa estariam enfrentando problemas semelhantes, mas não apresentou uma relação completa dos nomes nem documentos dos supostos acordos. Em sua manifestação pública, Mestiço foi além e afirmou que aproximadamente R$ 50 milhões teriam sido encaminhados pelo PL nacional ao Paraná. Também acusou Filipe Barros de utilizar em sua própria campanha recursos que, segundo ele, deveriam financiar outras candidaturas. Até agora, porém, não foi apresentada movimentação bancária, documento partidário ou registro da Justiça Eleitoral que comprove essa acusação específica.

O que os registros confirmam

Parte das declarações sobre os valores recebidos por Mestiço encontra respaldo nos dados eleitorais. Registros derivados das informações encaminhadas à Justiça Eleitoral mostram que sua campanha recebeu R$ 180 mil da Direção Nacional do PL, provenientes do Fundo Eleitoral. Dados atualizados posteriormente indicam que a receita total da candidatura passou de R$ 187,7 mil para R$ 211,7 mil em 1º de outubro. Isso demonstra que houve novos recursos registrados, mas não comprova as acusações de Mestiço sobre a destinação dos valores que, segundo ele, deveriam ter sido distribuídos aos demais candidatos. Há ainda uma distinção importante: recursos enviados diretamente pela direção nacional às candidaturas não são necessariamente equivalentes a dinheiro transferido primeiro ao diretório estadual para posterior distribuição.

Quanto Filipe Barros recebeu

Os dados eleitorais disponíveis também permitem verificar quanto entrou oficialmente na campanha de Filipe Barros ao Senado. Até a atualização de 2 de outubro, a candidatura havia declarado aproximadamente R$ 4 milhões em receitas. Desse total, R$ 3,8 milhões foram transferidos pela Direção Nacional do PL em 25 de agosto, provenientes do Fundo Eleitoral. Outros R$ 150 mil do FEFC foram transferidos pela Direção Estadual do PL no Paraná em 28 de setembro. Com isso, a campanha de Barros registra R$ 3,95 milhões provenientes do Fundo Eleitoral. Os números públicos, portanto, não mostram R$ 50 milhões transferidos para a campanha de Filipe Barros. Também não permitem concluir, apenas pela prestação de contas atualmente disponível, que os recursos recebidos pelo candidato ao Senado tenham origem em valores anteriormente reservados a candidatos a deputado.

De onde vêm os R$ 50 milhões?

Esse é o ponto central que permanece sem resposta documental. Mestiço afirma que a direção nacional teria destinado cerca de R$ 50 milhões ao Paraná. Nas fontes públicas consultadas pela reportagem, porém, não foi localizado até agora um documento que demonstre que esse valor exato tenha sido entregue ao diretório estadual ou diretamente a Filipe Barros para distribuição. O que está comprovado é que o PL recebeu a maior parcela nacional do Fundo Eleitoral de 2026. Segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), foram destinados à legenda R$ 881.657.477,34, dentro de um fundo de aproximadamente R$ 4,9 bilhões distribuído entre 30 partidos. A existência desse montante nacional, entretanto, não confirma a cifra de R$ 50 milhões mencionada por Mestiço para o Paraná.

Para esclarecer definitivamente a questão, seria necessário identificar, separadamente, os valores enviados pela direção nacional diretamente aos candidatos paranaenses, os recursos efetivamente transferidos ao diretório estadual e os valores eventualmente comprometidos internamente pelo partido.

Notificação e eventual denúncia

Mestiço também afirma ter encaminhado uma notificação extrajudicial cobrando explicações de Filipe Barros. Segundo ele, não teria recebido resposta até a gravação do vídeo. O candidato anunciou ainda a intenção de levar o caso ao Ministério Público Eleitoral. Até a publicação desta reportagem, porém, não foi possível confirmar por registro público que essa representação tenha sido efetivamente protocolada ou que exista investigação formal instaurada a partir das acusações feitas por Mestiço. A íntegra da notificação extrajudicial mencionada pelo candidato também não acompanha as publicações consultadas.

Acusação não significa irregularidade comprovada

As diferenças entre os valores destinados às candidaturas, por si mesmas, não comprovam ilegalidade. Partidos possuem margem para estabelecer critérios de distribuição do Fundo Eleitoral, dentro das normas estabelecidas pela legislação e pela Justiça Eleitoral. Também é necessário diferenciar promessas ou acordos políticos internos de financiamento de recursos efetivamente registrados e distribuídos pelo partido.

Por isso, com as informações disponíveis até este sábado, é possível confirmar que Mestiço recebeu recursos do Fundo Eleitoral e que questiona publicamente a distribuição feita pelo partido. Também é possível verificar os valores oficialmente recebidos pela campanha de Filipe Barros. Não é possível, entretanto, afirmar que R$ 50 milhões desapareceram, que houve desvio de recursos públicos ou que Filipe Barros se apropriou de dinheiro destinado a outros candidatos. Essas são acusações que, até agora, não vieram acompanhadas de documentação suficiente para sustentá-las.

A reportagem também não localizou, nas buscas realizadas, uma resposta pública de Filipe Barros especificamente às novas acusações feitas por Mestiço nos dias 2 e 3 de outubro. Em uma controvérsia anterior envolvendo a distribuição do Fundo Eleitoral, Barros afirmou que os repasses recebidos estavam dentro da legalidade e apontou os registros do DivulgaCandContas como fonte para verificar a distribuição por candidato.

 

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