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Após reeleição de Lula, Tesouro cancela leilões de títulos públicos e recompra R$ 7,1 bilhões para conter turbulência

Decisão ocorre em meio à disparada dos juros, à forte queda da Bolsa e à valorização do dólar; governo suspendeu ofertas de títulos prefixados e corrigidos pela inflação, mas manteve operação vinculada à Selic

Ana Zimermann · · 7 min de leitura
Fachada do Ministério da Fazenda, em Brasília. Tesouro Nacional cancelou leilões de títulos públicos em meio à volatilidade do mercado financeiro após o segundo turno das eleições presidenciais.
Fachada do Ministério da Fazenda, em Brasília. Tesouro Nacional cancelou leilões de títulos públicos em meio à volatilidade do mercado financeiro após o segundo turno das eleições presidenciais. — Crédito: Marcelo Camargo/Agência Brasil

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O Tesouro Nacional anunciou, nesta segunda-feira (26), o cancelamento de dois leilões de títulos públicos previstos para esta semana, em uma tentativa de evitar novas pressões sobre o mercado da dívida brasileira. A decisão ocorreu no primeiro dia útil após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), em meio à forte reação negativa dos investidores ao resultado das eleições presidenciais. Além de suspender as operações programadas, o órgão realizou uma recompra extraordinária de aproximadamente R$ 7,1 bilhões em títulos prefixados que estavam nas mãos de investidores, buscando reduzir a volatilidade e amenizar a escalada das taxas de juros. A sequência de medidas revela a preocupação das autoridades com o funcionamento do mercado de títulos públicos, utilizado pelo governo federal para financiar suas necessidades de caixa, refinanciar dívidas e administrar o custo do endividamento da União. 

O cancelamento atinge o leilão de Notas do Tesouro Nacional série B (NTN-B), títulos corrigidos pela inflação oficial, prevista para terça-feira (27), e as ofertas de Letras do Tesouro Nacional (LTN) e Notas do Tesouro Nacional série F (NTN-F), papéis prefixados, inicialmente marcadas para quinta-feira (29). O Tesouro manteve, entretanto, o leilão de Letras Financeiras do Tesouro (LFT), títulos cuja remuneração acompanha a taxa básica de juros, a Selic, programado para terça-feira. Em comunicado reproduzido pela imprensa, o órgão informou que continuará acompanhando as condições do mercado e tomando medidas para preservar o funcionamento das negociações de títulos públicos e ativos relacionados.

Por que o Tesouro decidiu cancelar os leilões?

A suspensão ocorre porque os investidores passaram a exigir taxas de juros mais elevadas para comprar títulos da dívida brasileira. Esse movimento foi intensificado pela incerteza sobre os rumos da política fiscal e econômica após o resultado eleitoral de domingo (25). Quando o Tesouro vende títulos prefixados ou indexados à inflação, assume compromissos de remuneração associados às taxas aceitas nos leilões. Se essas taxas aumentam significativamente, a emissão de novos papéis pode se tornar mais cara para o governo. Ao cancelar temporariamente as ofertas, o Tesouro evita contratar novas operações dessas modalidades durante um período de instabilidade acentuada. A medida, porém, não elimina as necessidades de financiamento do governo e tampouco representa uma redução automática da dívida pública.

O movimento também ocorre depois de semanas de valorização dos títulos públicos, quando parte do mercado financeiro passou a apostar na vitória do senador Flávio Bolsonaro (PL). Para ilustrar essa mudança, o título Tesouro Prefixado com vencimento em 2032 apresentava remuneração de 14,15% ao ano na abertura de 2 de outubro, último pregão antes do primeiro turno. Na sexta-feira (23), a taxa havia recuado para 12,89%. No mesmo intervalo, a remuneração do Tesouro IPCA+ 2050 passou de inflação mais 7,06% ao ano para inflação mais 6,42%. A queda das taxas refletia a valorização desses papéis no mercado. Com o resultado do segundo turno, a tendência sofreu uma reversão.

Governo recompra R$ 7,1 bilhões em títulos

Em uma segunda frente de atuação, o Tesouro realizou nesta segunda-feira uma operação extraordinária de recompra de Notas do Tesouro Nacional série F (NTN-F), títulos com remuneração prefixada. Segundo informações divulgadas pela Reuters, foram recomprados 5 milhões de títulos com vencimento em cinco anos, 2,4 milhões com prazo de sete anos e mais 1 milhão com vencimento em dez anos. O volume financeiro da operação ficou próximo de R$ 7,1 bilhões. A recompra funciona de maneira inversa aos leilões tradicionais. Em vez de vender títulos ao mercado para captar recursos, o Tesouro utiliza disponibilidades financeiras para retirar determinados papéis de circulação. A iniciativa pode aliviar a pressão de venda, oferecer liquidez aos investidores e reduzir movimentos desordenados nos preços dos títulos. Não significa, entretanto, que o governo tenha encerrado a instabilidade financeira.

Bolsa despenca, dólar dispara e juros futuros sobem

A decisão do Tesouro ocorreu em uma sessão marcada por intensa volatilidade no mercado brasileiro. O Ibovespa chegou a registrar queda intradiária superior a 17%, levando a B3 a acionar o mecanismo conhecido como circuit breaker, que interrompe temporariamente as negociações em situações de movimentos extremos. O dólar também apresentou forte valorização, chegando a superar R$ 5,60 durante o pregão, enquanto os contratos de juros futuros registraram aumentos expressivos. A reação dos investidores esteve associada às expectativas sobre a condução econômica do quarto mandato de Lula, especialmente quanto à trajetória dos gastos públicos, ao equilíbrio fiscal e à sustentabilidade da dívida federal. O comportamento do mercado também depende de fatores como inflação, política monetária, cenário internacional e expectativas sobre os juros. Por isso, embora o resultado eleitoral tenha sido o principal acontecimento associado às oscilações desta segunda-feira, não é possível atribuir todos os movimentos financeiros exclusivamente à eleição.

Tesouro Direto também teve negociações suspensas

A instabilidade não ficou restrita às operações com grandes instituições financeiras. Às 10h desta segunda-feira, o Tesouro Direto divulgou um aviso informando que as negociações estavam temporariamente fechadas em razão da elevada volatilidade das taxas de juros dos títulos públicos. O comunicado oficial indicava expectativa de normalização ao longo do dia, enquanto o Tesouro Reserva permanecia funcionando normalmente. Informações do mercado também apontavam a manutenção das operações com o Tesouro Selic, enquanto os títulos prefixados e indexados à inflação enfrentavam restrições. É importante distinguir as duas medidas: o cancelamento dos leilões institucionais não significa, necessariamente, a paralisação do Tesouro Direto. São operações diferentes, embora ambas tenham sido afetadas pela volatilidade desta segunda-feira.

Para quem já possui títulos públicos, a alta das taxas de juros pode provocar desvalorização dos papéis na chamada marcação a mercado. Isso significa que o investidor poderá receber menos do que esperava caso decida vender antecipadamente determinados títulos. Por outro lado, quem mantém um título prefixado ou indexado à inflação até o vencimento, respeitadas as condições contratadas, conserva a remuneração originalmente estabelecida.

Tesouro anuncia nova intervenção com títulos atrelados à inflação

Ainda nesta segunda-feira, o Tesouro anunciou uma segunda operação extraordinária, desta vez envolvendo a recompra de Notas do Tesouro Nacional série B (NTN-B), vinculadas à inflação. A oferta contempla títulos com vencimentos em 2030, 2035 e 2050, com limite de 1 milhão de papéis para cada vencimento. O recebimento das propostas foi programado para ocorrer entre 15h30 e 16h, com divulgação dos resultados a partir das 16h15. A operação representa uma ampliação da atuação do Tesouro para tentar estabilizar o mercado. No momento desta apuração, o resultado financeiro dessa segunda recompra ainda não estava disponível.

O que a decisão significa para as contas públicas?

O episódio chama a atenção para um dos principais desafios econômicos que o próximo mandato presidencial deverá enfrentar: o custo de financiamento da dívida brasileira. Quando os investidores passam a exigir taxas mais altas para emprestar dinheiro ao governo, a tendência é de encarecimento das novas emissões de títulos públicos. Se esse cenário persistir, pode aumentar a despesa com juros e dificultar a estabilização da dívida em relação ao Produto Interno Bruto (PIB). Esses efeitos, contudo, não são imediatos nem uniformes. Dependem do volume de títulos emitidos, dos prazos de vencimento, das condições contratadas e da evolução das taxas de juros.

A suspensão dos leilões anunciada nesta segunda-feira não significa que o governo deixou de pagar suas obrigações, tampouco representa um calote da dívida pública. Trata-se de uma decisão de administração da dívida diante de condições desfavoráveis de negociação. O principal risco é que a instabilidade se prolongue, exigindo remunerações cada vez maiores para os títulos federais e pressionando o custo de captação de recursos na economia. O desempenho dos mercados nos próximos dias e as sinalizações do governo sobre o compromisso com o equilíbrio fiscal serão determinantes para avaliar se as intervenções do Tesouro conseguirão reduzir a volatilidade. Por enquanto, a decisão de cancelar os leilões, recomprar títulos e manter apenas a oferta regular de papéis vinculados à Selic demonstra que o governo passou a atuar diretamente para administrar a turbulência provocada no mercado da dívida pública após o segundo turno presidencial.

 

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