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A dois meses da temporada, Verão Maior de R$ 150 milhões enfrenta incertezas sobre recursos e realização dos shows

Com 30 apresentações nacionais e expectativa de milhões de visitantes, programação anunciada por Ratinho Junior entra em novembro sob questionamentos após decreto que suspende repasses, cancelamentos de eventos e cobrança de garantias financeiras pelo setor turístico

Gazeta do Paraná · · 11 min de leitura
Show do Verão Maior Paraná; cancelamentos de outros eventos levam entidades a cobrar planejamento para a próxima temporada.
Show do Verão Maior Paraná; cancelamentos de outros eventos levam entidades a cobrar planejamento para a próxima temporada. — Crédito: Divulgação

A menos de dois meses do início da temporada de verão, o Verão Maior Paraná 2026/2027 chega a novembro cercado de expectativas, mas também de questionamentos sobre as condições financeiras para a realização da programação anunciada pelo governo Ratinho Junior (PSD). O evento, que deve reunir milhões de visitantes no Litoral e movimentar hotéis, restaurantes, bares e o comércio regional, passou a ser alvo de preocupações depois da publicação de um decreto estadual que determina a revisão de convênios e a suspensão preventiva de determinados repasses. A medida ocorre em meio a uma sequência de cancelamentos e adiamentos de eventos no Paraná e reacende dúvidas sobre a garantia dos recursos destinados à próxima temporada.

O Decreto nº 15.581, assinado pelo governador Carlos Massa Ratinho Junior em 30 de outubro, delegou ao Comitê de Governança Fiscal (CGF) a competência para reavaliar convênios e determinadas parcerias financiadas com recursos estaduais. Dependendo das condições de cada instrumento, o comitê poderá decidir pela manutenção, alteração, suspensão ou encerramento dos ajustes. Enquanto não houver deliberação, ficam impedidos novos empenhos, liberações de parcelas e autorizações para início da execução dos objetos abrangidos.

A norma não determina o cancelamento do Verão Maior nem estabelece uma suspensão generalizada dos contratos de shows. Seu alcance está condicionado às características dos convênios e parcerias previstos no texto. Entretanto, a publicação ocorreu em um momento sensível para o planejamento da temporada, quando empresários, fornecedores e trabalhadores começam a organizar suas atividades para dezembro e janeiro.

Até este domingo (1º), não havia anúncio oficial de cancelamento da programação. O calendário divulgado pelo Governo do Estado permanece publicado, mas ainda não foram apresentados, nas informações examinadas pela reportagem, dados consolidados capazes de demonstrar quanto do orçamento da próxima edição já está empenhado, contratado ou efetivamente assegurado.

Uma programação de grandes proporções

O Verão Maior 2026/2027 foi apresentado oficialmente em 16 de setembro, durante evento no Palácio Iguaçu. Na ocasião, o governo anunciou 30 shows nacionais, com 29 artistas diferentes, além de 58 apresentações de artistas locais no Palco Sunset.

Entre os nomes divulgados estão Jorge & Mateus, Maiara & Maraisa, Chitãozinho & Xororó, Thiaguinho, Alexandre Pires, Menos é Mais, Jota Quest, Paula Toller, Gustavo Mioto, Simaria e Vitor Kley. Duas atrações especiais ainda seriam anunciadas posteriormente.

As atividades esportivas e recreativas estão previstas para começar em 28 de dezembro, enquanto os grandes shows devem ocorrer entre 8 e 31 de janeiro, em Matinhos e Pontal do Paraná. A programação geral se estende até 1º de fevereiro e inclui atividades em balneários do Litoral e nas praias de água doce da região Noroeste.

O calendário prevê 16 apresentações nacionais em Pontal do Paraná. Matinhos concentrará as demais 14 apresentações. O governo também anunciou seis postos fixos de atividades no Litoral, além de estruturas itinerantes e arenas em Porto Rico e São Pedro do Paraná.

A dimensão da programação ajuda a explicar a preocupação com eventuais mudanças de última hora. Diferentemente de uma festa municipal isolada, o Verão Maior envolve uma operação que reúne diversas secretarias, forças de segurança, equipes de saúde, estruturas de atendimento, fornecedores e trabalhadores temporários.

Além da contratação de atrações, a realização dos eventos exige palcos, equipamentos de som e iluminação, sistemas de segurança, transporte, limpeza, serviços de apoio e infraestrutura para receber grandes concentrações de público.

A conta apresentada na Assembleia

A discussão sobre os recursos destinados ao Verão Maior já havia chegado à Assembleia Legislativa do Paraná em outubro, antes mesmo da publicação do decreto.

Durante audiência realizada em 13 de outubro, Luiz Paulo Budal, representante da Secretaria de Estado da Fazenda, apresentou informações sobre a situação financeira do governo e respondeu a questionamentos de deputados sobre os gastos previstos para a temporada.

Na ocasião, foi mencionada uma estimativa global de aproximadamente R$ 150 milhões para o Verão Maior. Também foram discutidas previsões de R$ 40 milhões a R$ 50 milhões em diárias e uma reserva de aproximadamente R$ 20 milhões para shows e atrações.

Esses valores, apresentados em categorias distintas durante a discussão, não devem ser somados automaticamente, pois não está demonstrado que correspondam a despesas independentes entre si.

A audiência expôs uma questão que ganhou importância diante das medidas anunciadas posteriormente: qual parcela dos recursos previstos já estava efetivamente comprometida e quanto ainda dependia de procedimentos administrativos, contratos e autorizações de pagamento?

A distinção é fundamental. Uma previsão orçamentária não equivale a um contrato assinado. Da mesma forma, um contrato não significa necessariamente que o dinheiro tenha sido empenhado, e o empenho não comprova que o serviço tenha sido executado ou pago.

Para verificar a segurança financeira da temporada, seria necessário identificar os valores autorizados no orçamento, os contratos formalizados, os empenhos emitidos e o cronograma de desembolsos de cada órgão envolvido.

O peso econômico da temporada

Os números da edição anterior ajudam a dimensionar o que está em jogo.

Segundo balanço divulgado pelo Governo do Estado, os shows do Verão Maior 2025/2026 reuniram aproximadamente 2,56 milhões de espectadores no Litoral, distribuídos em 38 apresentações gratuitas. Matinhos concentrou 2,26 milhões de espectadores, enquanto Pontal do Paraná registrou cerca de 304 mil.

O governo informou ainda que 15 dos 20 shows realizados em Matinhos tiveram público superior a 100 mil pessoas e que três apresentações ultrapassaram 200 mil espectadores.

A operação completa registrou aproximadamente 2,3 milhões de atendimentos em postos fixos e serviços vinculados à temporada.

Em fevereiro, o Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social (Ipardes) apresentou um estudo segundo o qual a edição anterior envolveu aplicações públicas de R$ 92,7 milhões e produziu incremento estimado de R$ 110 milhões no Produto Interno Bruto do Litoral.

Pela metodologia divulgada, cada R$ 1 investido no programa correspondeu a R$ 1,19 de incremento econômico estimado. O indicador não significa, entretanto, que o governo tenha recuperado diretamente esse valor em arrecadação tributária.

A comparação entre os R$ 92,7 milhões contabilizados na edição anterior e a estimativa de R$ 150 milhões mencionada para a próxima temporada aponta uma diferença nominal de R$ 57,3 milhões, equivalente a aproximadamente 61,8%.

É necessário observar, porém, que os números possuem origens e critérios distintos. O primeiro corresponde às aplicações consideradas no estudo do Ipardes; o segundo, a uma estimativa global discutida na Assembleia. Portanto, a diferença não pode ser apresentada como aumento efetivo de despesas sem a confirmação de que os dois valores abrangem os mesmos itens.

Ainda assim, a distância entre os montantes reforça a necessidade de divulgação detalhada do orçamento da nova edição.

Decreto amplia incertezas

O Decreto nº 15.581 estabelece critérios específicos para a revisão de convênios que ainda não tenham avançado em determinadas etapas de homologação e execução.

A norma também determina prioridade para a análise de ajustes formalizados no último semestre cujos procedimentos licitatórios ainda não tenham sido concluídos. Entre os fatores a serem considerados estão a programação financeira do Estado, os cronogramas de desembolso, as contrapartidas e as obrigações já assumidas perante terceiros.

O texto exclui expressamente de sua aplicação os convênios formalizados pelas secretarias estaduais da Saúde e da Educação, inclusive aqueles vinculados aos fundos por elas administrados.

Isso significa que o decreto não atinge automaticamente toda despesa estadual, tampouco autoriza concluir que os cachês dos artistas anunciados estejam suspensos.

A dúvida está na existência de eventuais convênios e parcerias vinculados à estrutura do Verão Maior que preencham as condições estabelecidas pela norma.

Sem a identificação desses instrumentos, não é possível afirmar que algum repasse destinado especificamente à temporada tenha sido bloqueado. A mesma ausência de informações impede descartar, de maneira definitiva, possíveis efeitos sobre atividades financiadas por transferências estaduais.

Cancelamentos acendem alerta

A preocupação do setor de turismo e entretenimento começou antes da publicação do decreto.

Em reportagem publicada em 27 de outubro, a Gazeta do Paraná mostrou que seis eventos haviam sido cancelados ou adiados em diferentes municípios, levando entidades representativas a cobrar maior previsibilidade na liberação de recursos e na formalização de contratos.

Entre os casos estavam a FESCAETÊ, em Curiúva; a ExpoFazenda, em Fazenda Rio Grande; a Festa do Morango, em Almirante Tamandaré; a FCCA; a Münchenfest, em Ponta Grossa; e o Ecoturismo 2026, em Marechal Cândido Rondon.

Os motivos não foram uniformes. Houve problemas financeiros, dificuldades administrativas e preocupações com condições meteorológicas.

Em Curiúva, por exemplo, a prefeitura atribuiu o cancelamento da FESCAETÊ à ausência de formalização, dentro do prazo necessário, de um convênio estadual de R$ 500 mil.

Em Ponta Grossa, a 35ª Münchenfest, inicialmente programada para novembro, foi adiada após os organizadores mencionarem dificuldades econômicas e condições climáticas desfavoráveis.

Já em Marechal Cândido Rondon, o cancelamento do Ecoturismo 2026 considerou as previsões de chuva e a segurança das estruturas instaladas próximas ao Lago de Itaipu.

Embora não comprovem dificuldades financeiras específicas do Verão Maior, os episódios mostram como a ausência de garantias contratuais, problemas de financiamento e riscos operacionais podem afetar eventos que exigem planejamento antecipado.

Setor turístico propõe consulta popular

No sábado (31), a Federação das Empresas de Hospedagem, Gastronomia, Entretenimento, Lazer e Turismo do Paraná (Feturismo) ampliou o debate ao propor uma consulta popular sobre a manutenção dos grandes shows do Verão Maior.

Segundo reportagem da Tribuna do Litoral, a entidade defende que a população seja ouvida sobre a destinação dos recursos públicos, considerando a necessidade de investimentos em saúde, segurança, infraestrutura e prevenção de desastres.

A proposta acrescenta uma nova dimensão à discussão. Até então, as manifestações das entidades estavam concentradas principalmente na cobrança de planejamento e segurança jurídica para fornecedores e trabalhadores. Agora, a própria prioridade do financiamento dos grandes espetáculos passou a ser questionada.

A preocupação também envolve os riscos climáticos da temporada. A possibilidade de episódios de chuvas intensas e outras ocorrências meteorológicas exige planejamento para atendimento emergencial, proteção da população e funcionamento dos serviços públicos.

Isso não significa que haja previsão confirmada de um desastre durante o Verão Maior. O argumento apresentado pela entidade está relacionado à necessidade de preparar estruturas e recursos para enfrentar eventuais emergências.

A proposta de consulta popular também não representa uma decisão oficial sobre o calendário. A realização dos shows permanece sob responsabilidade do Governo do Estado.

Transição de governo acrescenta outro componente

A temporada 2026/2027 também será marcada pela mudança no comando do Executivo estadual.

O programa começa em dezembro, ainda durante o governo Ratinho Junior, mas terá suas principais apresentações em janeiro, já sob a administração do governador eleito Sergio Moro.

Em entrevista concedida à Band Paraná em 19 de outubro, Moro manifestou a intenção de manter o Verão Maior, destacando a importância da iniciativa para o turismo.

A manifestação indica disposição política para preservar a programação, mas não substitui a necessidade de verificar a situação dos contratos e das obrigações financeiras que atravessarão a mudança de governo.

A transição coloca em evidência a responsabilidade pela execução dos compromissos assumidos pela administração que deixa o Palácio Iguaçu. Contratos regularmente formalizados continuam sujeitos às regras legais de execução e pagamento, independentemente da substituição do governador.

Por isso, a principal questão não é apenas saber se a futura administração deseja manter o programa, mas identificar quais despesas estarão efetivamente contratadas, empenhadas ou pendentes quando ocorrer a posse.

O que esperar do Verão Maior?

Para os visitantes que já começam a planejar viagens, reservar hospedagens e organizar as férias, o cenário exige distinguir a programação oficialmente anunciada das incertezas financeiras que passaram a cercá-la.

Até 1º de novembro, o Governo do Paraná mantém divulgado o calendário de atividades, com início previsto para 28 de dezembro e apresentações nacionais a partir de 8 de janeiro.

Não há confirmação oficial de cancelamento dos shows, redução do número de atrações ou suspensão geral do programa.

Também não foi demonstrado que o Decreto nº 15.581 tenha atingido diretamente contratos ou repasses específicos do Verão Maior.

O que existe é uma combinação de fatores que demanda esclarecimentos: uma estimativa de gastos de R$ 150 milhões discutida na Assembleia, um decreto que permite rever determinados compromissos financeiros, cancelamentos recentes de eventos em municípios paranaenses e manifestações de entidades do turismo sobre a necessidade de garantir recursos e segurança para a temporada.

A proximidade de dezembro torna essas respostas especialmente relevantes. Para empresários e trabalhadores do Litoral, o planejamento envolve estoques, contratações temporárias, investimentos e reservas. Para os visitantes, envolve transporte, hospedagem e organização das férias.

O Verão Maior permanece oficialmente programado. A principal questão, neste início de novembro, é saber se todas as condições financeiras e operacionais necessárias à realização da temporada estão asseguradas.

Com a chegada do verão, a divulgação dos contratos, dos empenhos e do cronograma de pagamentos será decisiva para transformar a programação anunciada em garantias concretas para quem depende economicamente dela e para os milhões de visitantes esperados nas praias do Paraná.

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