“O Sul é o Meu País” esbarra em risco de rombo bilionário e custos da independência
Levantamentos sobre arrecadação federal e Previdência Social colocam em dúvida a promessa de prosperidade econômica com a separação de Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul; apenas o déficit previdenciário gaúcho é estimado em pelo menos R$ 25 bilhões
A proposta de transformar Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul em um país independente, defendida pelo movimento separatista O Sul é o Meu País, enfrenta um obstáculo que vai além da proibição constitucional: a possibilidade de um desequilíbrio bilionário nas contas públicas. Embora os três estados reúnam uma das regiões economicamente mais desenvolvidas do Brasil, levantamentos sobre arrecadação federal, despesas previdenciárias e financiamento de serviços públicos colocam em dúvida a principal promessa dos separatistas, segundo a qual a independência permitiria manter na região os recursos atualmente enviados a Brasília.
A discussão voltou a ganhar espaço após as eleições presidenciais de outubro de 2026, quando o resultado das urnas nos três estados foi diferente daquele registrado nacionalmente. O movimento, fundado em 1992, sustenta que a região possui condições econômicas, culturais e administrativas para constituir uma nação independente. Entretanto, estudos recentes mostram que a relação financeira entre o Sul e a União é mais complexa do que a comparação entre impostos arrecadados e transferências recebidas.
O principal problema está nas despesas que atualmente são financiadas pelo governo federal e que precisariam continuar sendo pagas por um eventual novo país. Aposentadorias, pensões, benefícios assistenciais, universidades federais, hospitais, infraestrutura e manutenção de instituições nacionais representam compromissos que não desapareceriam com a independência.
Somente no Rio Grande do Sul, um levantamento do economista Eric Gil Dantas, do Instituto Brasileiro de Estudos Políticos e Sociais (Ibeps), aponta um déficit previdenciário federal de aproximadamente R$ 25 bilhões em 2025. Outro estudo, elaborado por Pietro Vicari, estima uma diferença ainda maior, próxima de R$ 37 bilhões. Os valores utilizam critérios distintos de contabilização das contribuições, mas ambos indicam que a arrecadação previdenciária considerada é insuficiente para cobrir os benefícios pagos aos moradores gaúchos.
Os números não significam que esse déficit seria automaticamente transferido a um país independente. A responsabilidade por aposentadorias concedidas antes de uma eventual separação dependeria de negociações e acordos de sucessão entre os governos. Ainda assim, demonstram a dimensão das obrigações que precisariam ser resolvidas.
A conta que os separatistas não fazem
Um estudo publicado em maio de 2026 pelo Observatório de Política Fiscal da Fundação Getulio Vargas (FGV), elaborado pelos pesquisadores Priscila Kaiser Monteiro e Sérgio Wulff Gobetti, questiona a metodologia frequentemente utilizada para sustentar a ideia de que os estados mais ricos financiam desproporcionalmente o restante do Brasil.
A pesquisa analisou R$ 2,4 trilhões em receitas tributárias federais e R$ 2,6 trilhões em despesas federais regionalizadas de 2024. O levantamento considera não apenas as transferências constitucionais e voluntárias feitas pela União, mas também despesas executadas diretamente pelo governo federal nos estados.
Essa distinção modifica substancialmente a interpretação dos dados.
Quando um trabalhador aposentado do Paraná recebe um benefício do INSS, por exemplo, o dinheiro não aparece necessariamente nas estatísticas de transferências federais ao governo estadual. O mesmo ocorre com salários de professores de universidades federais, benefícios assistenciais e outras despesas realizadas diretamente pela União.
Segundo a FGV, as transferências a estados e municípios representam pouco mais de 30% das despesas federais passíveis de distribuição territorial consideradas no estudo. Isso significa que uma comparação limitada aos repasses deixa de fora a maior parte dos gastos federais regionalizáveis.
A pesquisa também utiliza critérios de incidência econômica da tributação, buscando identificar onde o peso dos impostos efetivamente recai, em vez de considerar exclusivamente o local de recolhimento.
O resultado coloca em perspectiva um dos argumentos mais utilizados pelo movimento O Sul é o Meu País: o de que a separação permitiria recuperar grandes volumes de recursos destinados a outras regiões.
O estudo não apresenta uma simulação do orçamento de um país independente. Seus resultados, portanto, não comprovam que a separação produziria falência fiscal. Demonstram, entretanto, que o cálculo necessário para avaliar a viabilidade econômica precisa considerar despesas e receitas que não aparecem nas comparações simplificadas.
Previdência gaúcha seria um dos maiores desafios
O Rio Grande do Sul apresenta um exemplo concreto da dificuldade.
Segundo o levantamento de Eric Gil Dantas, os benefícios pagos pelo INSS aos moradores gaúchos alcançaram aproximadamente R$ 68,1 bilhões em 2025. As contribuições previdenciárias consideradas na pesquisa corresponderam a cerca de R$ 43,1 bilhões, produzindo uma diferença negativa próxima de R$ 25 bilhões.
Em outro levantamento, Pietro Vicari considerou aproximadamente R$ 31 bilhões em contribuições diante de R$ 68 bilhões em benefícios, chegando a um déficit de cerca de R$ 37 bilhões.
A divergência está relacionada aos critérios utilizados para identificar e contabilizar as receitas. Por isso, os valores não podem ser tratados como estimativas equivalentes ou somados.
Em ambos os casos, porém, a conclusão é semelhante: o pagamento de aposentadorias e pensões representa uma despesa expressiva que não poderia ser ignorada na elaboração do orçamento de uma eventual nação sulista.
O envelhecimento da população gaúcha amplia esse desafio. Segundo o Censo de 2022, o Rio Grande do Sul possui uma das populações mais envelhecidas do país, condição que pressiona os sistemas previdenciário e de saúde.
Além do INSS, o estado enfrenta dificuldades no regime próprio de aposentadorias dos servidores públicos. Na proposta orçamentária de 2026, o governo gaúcho informou que o déficit previdenciário estadual havia alcançado R$ 9,758 bilhões em 2024.
Trata-se de um sistema diferente do regime federal. Portanto, o valor não pode ser simplesmente acrescentado ao déficit do INSS para produzir uma estimativa única do rombo de um país independente. Os números, entretanto, revelam pressões fiscais que já existem antes de qualquer hipótese de separação.
Estudos divergem sobre retorno de recursos
A complexidade das contas fica evidente quando diferentes levantamentos procuram calcular quanto o Rio Grande do Sul arrecada para a União e quanto recebe em despesas federais.
Pela metodologia de Eric Gil Dantas, o estado recebeu aproximadamente R$ 92,10 em gastos federais para cada R$ 100 arrecadados em 2025.
O estudo estima arrecadação de R$ 135,8 bilhões e retorno de R$ 125,1 bilhões, indicando contribuição líquida próxima de R$ 10,7 bilhões.
Já o levantamento de Pietro Vicari apresenta resultado oposto: aproximadamente R$ 118 em despesas federais para cada R$ 100 arrecadados. Nessa análise, o estado teria recebido cerca de R$ 128 bilhões diante de uma arrecadação de R$ 108 bilhões.
A diferença de resultados mostra que a conclusão depende das bases de dados e dos critérios utilizados para distribuir receitas e despesas entre os estados.
Não seria correto afirmar que o Rio Grande do Sul necessariamente sustenta outras regiões ou que depende financeiramente da União sem explicar qual metodologia fundamenta cada conclusão.
Também não é possível extrapolar os resultados gaúchos para Paraná e Santa Catarina. A situação fiscal de cada estado possui características próprias, especialmente em relação à composição da economia, à estrutura etária da população e às despesas federais executadas em seu território.
Economia de R$ 1,8 trilhão não garante equilíbrio fiscal
Os três estados possuem capacidade produtiva expressiva.
Segundo dados do IBGE referentes a 2023, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul registraram conjuntamente um Produto Interno Bruto de aproximadamente R$ 1,83 trilhão.
O Paraná respondeu por R$ 670,9 bilhões, o Rio Grande do Sul por R$ 650,1 bilhões e Santa Catarina por R$ 513,4 bilhões.
A região reúne importantes polos agroindustriais, indústrias de transformação, empresas de tecnologia, universidades, portos e infraestrutura logística. Também possui participação relevante nas exportações brasileiras de alimentos, máquinas e produtos industrializados.
Essa estrutura representa uma vantagem econômica para qualquer projeto de organização nacional, mas não garante, por si só, equilíbrio nas contas públicas.
O PIB representa o valor dos bens e serviços produzidos em determinado período. Não corresponde ao dinheiro disponível nos cofres do governo.
Para avaliar a capacidade de financiamento de um país independente, seria necessário calcular quanto o novo Estado arrecadaria com impostos, contribuições e outras receitas, além de identificar todas as despesas que passariam à sua responsabilidade.
Também seria necessário considerar eventuais mudanças na atividade econômica provocadas pela separação, especialmente nas relações comerciais com o restante do Brasil.
Uma economia produtiva pode conviver com déficits públicos elevados. Da mesma forma, países com PIB menor podem apresentar contas equilibradas, dependendo de suas receitas, despesas e instituições.
Independência exigiria criar estruturas nacionais
Outro custo frequentemente ausente das discussões separatistas está relacionado à organização do novo Estado.
Atualmente, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul integram uma federação que mantém estruturas nacionais responsáveis por emissão de moeda, política monetária, relações diplomáticas, defesa, fiscalização tributária, regulação financeira e controle de fronteiras.
A independência exigiria decidir quais instituições seriam criadas, quais estruturas existentes poderiam ser aproveitadas e quais serviços dependeriam de acordos com o Brasil.
Uma eventual autoridade monetária precisaria definir as regras de funcionamento da moeda, do sistema bancário e da política cambial. A criação de uma moeda própria não seria obrigatória em todos os cenários, mas qualquer alternativa exigiria decisões financeiras e jurídicas.
Na área diplomática, o novo país precisaria estabelecer representações internacionais e negociar seu reconhecimento por outros governos.
Também haveria custos relacionados à administração de fronteiras, fiscalização aduaneira, segurança nacional e organização de um sistema próprio de defesa.
O tamanho dessas despesas dependeria do modelo institucional escolhido. Não existe atualmente uma estimativa consolidada que permita calcular quanto custaria criar e manter todas essas estruturas.
Comércio com o Brasil poderia ser afetado
A separação também transformaria relações comerciais atualmente domésticas em transações internacionais.
Empresas paranaenses que vendem produtos para São Paulo, indústrias catarinenses que abastecem outros estados e produtores gaúchos que comercializam alimentos no mercado brasileiro passariam a depender das regras estabelecidas entre os dois países.
Isso não significa que necessariamente seriam cobradas tarifas de importação ou estabelecidas barreiras comerciais. A manutenção de livre circulação de mercadorias poderia ser negociada.
Entretanto, a continuidade das condições atuais não seria automática.
Seria necessário definir regras aduaneiras, tributárias, sanitárias e de transporte, além de estabelecer como funcionariam os contratos comerciais e as operações financeiras entre empresas dos dois territórios.
O eventual ingresso do novo país em acordos internacionais também dependeria de negociações e reconhecimento diplomático.
A existência de cadeias produtivas integradas ao restante do Brasil significa que qualquer alteração nessas relações poderia produzir efeitos sobre custos, preços, empregos e investimentos.
Dívida pública entraria na negociação
A divisão das obrigações financeiras também representaria um dos maiores desafios de uma eventual independência.
O Rio Grande do Sul já enfrenta dificuldades históricas relacionadas ao endividamento estadual, ao pagamento de precatórios e ao financiamento da Previdência dos servidores.
Paraná e Santa Catarina possuem situações fiscais diferentes, mas também mantêm obrigações financeiras e compromissos de longo prazo.
Além das dívidas estaduais, seria necessário negociar o tratamento da dívida pública federal e de outros passivos associados ao Estado brasileiro.
Não existe uma regra previamente estabelecida que determine qual parcela dessas obrigações seria atribuída a um país formado pelos três estados.
Uma eventual negociação poderia envolver a divisão de patrimônios, empresas públicas, reservas, contratos e dívidas. Os resultados dependeriam das condições políticas e jurídicas da separação.
Por isso, não é possível afirmar que o novo país começaria suas atividades sem dívidas ou que assumiria automaticamente determinada proporção do endividamento brasileiro.
Saúde e educação também entrariam na conta
A manutenção dos serviços públicos representaria outra parcela relevante do orçamento.
Atualmente, hospitais, universidades e instituições federais existentes nos três estados recebem recursos diretamente da União.
No caso da saúde, o financiamento do Sistema Único de Saúde envolve responsabilidades compartilhadas entre governo federal, estados e municípios.
Uma eventual independência exigiria estabelecer como seriam financiados hospitais, campanhas de vacinação, aquisição de medicamentos, atendimento especializado e demais serviços atualmente integrados ao sistema nacional.
Na educação, universidades federais e institutos federais precisariam ter sua situação jurídica e financeira definida.
A Universidade Federal do Paraná, a Universidade Tecnológica Federal do Paraná, a Universidade Federal de Santa Catarina e as universidades federais do Rio Grande do Sul, por exemplo, integram estruturas mantidas com recursos do orçamento federal.
O novo país precisaria negociar o destino dessas instituições e garantir recursos para sua continuidade, caso decidisse preservá-las.
O mesmo raciocínio se aplica aos benefícios assistenciais e a outros programas públicos financiados nacionalmente.
A independência não eliminaria essas despesas. Apenas exigiria definir quem passaria a financiá-las.
Separação é proibida pela Constituição
Além dos riscos econômicos, a proposta enfrenta um impedimento jurídico.
O artigo 1º da Constituição Federal estabelece que a República Federativa do Brasil é formada pela união indissolúvel dos estados, municípios e Distrito Federal.
O artigo 60, parágrafo 4º, protege a forma federativa de Estado contra propostas de emenda constitucional tendentes a aboli-la.
A legislação permite reorganizações territoriais dentro do Brasil, mediante procedimentos específicos, mas não prevê que estados possam decidir unilateralmente deixar a federação.
O movimento O Sul é o Meu País já realizou consultas populares informais, conhecidas como Plebisul, nas quais a maioria dos participantes manifestou apoio à separação. As votações, entretanto, não tiveram caráter oficial nem produziram efeitos jurídicos.
Mesmo uma eventual maioria favorável à independência em consulta popular não seria suficiente para criar um novo país sob a Constituição atualmente vigente.
Prosperidade ou rombo?
Os dados disponíveis não permitem afirmar que uma nação formada por Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul estaria inevitavelmente falida.
Também não sustentam a promessa de que a separação produziria automaticamente um país mais rico, com maior disponibilidade de recursos para investimentos e serviços públicos.
A diferença está entre capacidade econômica e sustentabilidade fiscal.
Os três estados possuem uma base produtiva diversificada e relevante. Entretanto, a independência exigiria assumir ou negociar obrigações previdenciárias, manter serviços públicos, reorganizar instituições, estabelecer relações comerciais e definir responsabilidades sobre dívidas e patrimônios.
Os déficits previdenciários identificados no Rio Grande do Sul mostram que parte desses desafios já pode ser quantificada em dezenas de bilhões de reais.
O levantamento da FGV, por sua vez, demonstra que a relação financeira entre os estados e a União não pode ser reduzida à diferença entre impostos arrecadados e transferências recebidas.
Para comprovar a viabilidade fiscal da independência, seria necessário apresentar um orçamento projetado com receitas e despesas consolidadas, critérios de financiamento da Previdência, estimativas de custos institucionais e hipóteses explícitas sobre a divisão das obrigações federais.
Sem essas informações, a principal promessa econômica do movimento separatista permanece sem demonstração suficiente.
Mais de três décadas depois de sua fundação, O Sul é o Meu País continua defendendo a emancipação política dos três estados. Mas os levantamentos fiscais indicam que a criação de uma nova nação envolveria muito mais do que deixar de transferir recursos para Brasília: significaria assumir responsabilidades que hoje são financiadas e administradas por uma estrutura nacional.
A pergunta central, portanto, não é apenas quanto dinheiro permaneceria no Sul com a independência, mas quanto custaria manter o país que os separatistas pretendem criar.
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