Democratas conquistam controle do Congresso dos EUA e impõem derrota a Trump nas eleições de meio de mandato
Partido recupera a Câmara e o Senado, vence em redutos históricos dos republicanos e passa a ter poder para barrar projetos, investigar o governo e dificultar nomeações presidenciais a partir de 2027
O Partido Democrata conquistou o controle das duas casas do Congresso dos Estados Unidos nas eleições de meio de mandato realizadas nesta terça-feira (3), impondo uma derrota ao presidente Donald Trump e ao Partido Republicano. Com vitórias em estados tradicionalmente conservadores e a recuperação da maioria na Câmara dos Representantes e no Senado, os democratas terão condições de limitar a agenda legislativa da Casa Branca durante os dois últimos anos do atual mandato presidencial. O resultado foi confirmado por projeções da Associated Press e da Reuters na madrugada desta quarta-feira (4).
A dimensão da vitória ultrapassou os estados considerados competitivos. Os democratas conquistaram pelo menos sete cadeiras do Senado anteriormente ocupadas por republicanos e avançaram em mais de duas dezenas de distritos da Câmara. A mudança ocorreu inclusive em estados que haviam dado ampla vantagem a Trump nas eleições presidenciais de 2024, como Texas, Kansas e Carolina do Sul. O desempenho representa uma alteração significativa na composição do Congresso, que vinha sendo controlado pelos republicanos desde o início do segundo mandato do presidente.
Vitórias históricas
Uma das disputas mais emblemáticas ocorreu no Texas, onde o democrata James Talarico derrotou o republicano Ken Paxton e encerrou um período de 38 anos sem que o estado elegesse um senador do Partido Democrata. O resultado ganhou importância nacional porque o Texas é um dos principais redutos eleitorais dos republicanos e concentra uma das maiores delegações no Congresso americano.
No Kansas, Adam Hamilton derrotou o senador republicano Roger Marshall e se tornou o primeiro democrata eleito para o Senado pelo estado desde 1932. Na Carolina do Sul, Annie Andrews também venceu uma disputa considerada historicamente desfavorável ao partido. Em Ohio, o ex-senador Sherrod Brown conquistou uma cadeira republicana, enquanto os democratas também avançaram em Iowa, Maine e Carolina do Norte.
As vitórias demonstram que o crescimento eleitoral democrata não ficou restrito aos grandes centros urbanos ou aos estados tradicionalmente alinhados ao partido. Segundo levantamento da Reuters, os candidatos da oposição ampliaram seu desempenho em regiões rurais, localidades de diferentes faixas de renda e condados com forte presença de eleitores latinos, incluindo áreas que haviam registrado crescimento do apoio a Trump dois anos antes.
Economia pesou
O custo de vida apareceu como um dos principais fatores de insatisfação dos eleitores. Pesquisas de boca de urna realizadas pela SSRS para um consórcio de veículos de comunicação americanos indicaram que quase nove em cada dez entrevistados consideraram os preços um fator importante ou decisivo para o voto.
A guerra com o Irã, as preocupações com corrupção e a condução econômica do governo também estiveram entre os temas que marcaram a campanha. Aproximadamente três quartos dos entrevistados disseram estar insatisfeitos ou irritados com os rumos do país, enquanto 70% defenderam que o Congresso exerça maior fiscalização sobre o presidente.
Trump havia participado ativamente da campanha, apoiando candidatos republicanos e procurando associar as disputas legislativas à continuidade de seu governo. Entretanto, nomes respaldados pelo presidente foram derrotados em estados como Texas e Carolina do Norte, ampliando o debate dentro do Partido Republicano sobre os resultados eleitorais.
Congresso muda de mãos
O resultado altera a relação de forças entre o Executivo e o Legislativo americano. Durante os dois primeiros anos do segundo mandato de Trump, os republicanos controlaram tanto a Câmara quanto o Senado, permitindo ao governo avançar em parte de suas prioridades legislativas sem depender de acordos permanentes com a oposição.
A partir de janeiro de 2027, quando os novos parlamentares assumirem seus mandatos, os democratas passarão a controlar a tramitação de projetos e a presidência das comissões nas duas casas. Isso permitirá convocar autoridades, solicitar documentos, realizar audiências e instaurar investigações sobre a administração federal.
No Senado, a nova maioria também poderá dificultar ou impedir a confirmação de indicados pelo presidente para cargos importantes do governo e do Judiciário. A prerrogativa inclui eventuais nomeações para a Suprema Corte, caso surjam vagas durante os dois últimos anos do mandato presidencial.
O controle da Câmara também fortalece a oposição nas negociações sobre orçamento, financiamento de programas federais e endividamento público. Sem uma maioria legislativa, Trump terá de negociar com os democratas para aprovar medidas que dependam do Congresso.
Trump mantém poder de veto
Apesar da mudança, a vitória democrata não significa que o presidente perderá sua capacidade de governar. A Constituição americana assegura ao chefe do Executivo o poder de vetar projetos aprovados pelo Congresso, e a derrubada desse veto exige o apoio de dois terços dos parlamentares em cada casa.
Trump também poderá continuar utilizando competências administrativas e instrumentos executivos que não dependam diretamente de novas leis. Isso inclui decisões em áreas como política externa e imigração, embora determinadas medidas possam enfrentar questionamentos judiciais ou restrições orçamentárias.
Após a divulgação dos resultados, o presidente afirmou que aceitaria o resultado eleitoral e indicou disposição para trabalhar com os democratas, mas rejeitou a interpretação de que a votação representasse uma derrota pessoal. Lideranças democratas, por sua vez, defenderam que o resultado expressa a cobrança dos eleitores por mudanças na condução do país.
Eleições de 2028
A nova configuração do Congresso também terá repercussões sobre a sucessão presidencial de 2028. Impedido constitucionalmente de disputar um terceiro mandato, Trump deverá enfrentar um ambiente político no qual a oposição terá maior capacidade de fiscalização e influência sobre o debate nacional.
O resultado poderá alterar ainda as disputas internas do Partido Republicano, especialmente entre dirigentes e possíveis candidatos interessados em suceder Trump. Para os democratas, a vitória amplia a responsabilidade sobre decisões legislativas e sobre a resposta às preocupações econômicas manifestadas pelos eleitores.
Embora a apuração de algumas disputas ainda estivesse em andamento na manhã desta quarta-feira, a conquista das maiorias nas duas casas já havia sido estabelecida. O resultado encerra o controle republicano do Congresso e inaugura um novo período de governo dividido em Washington, com consequências para a política interna americana e para as negociações internacionais conduzidas pelos Estados Unidos.
Matérias relacionadas
Obama defende política de união e cobra líderes com soluções para os americanos
Brasileiro nascido em Duque de Caxias é eleito deputado estadual na Flórida
Trump diz que aceitará resultado das eleições, mas sinaliza oposição a democratas com postagem sobre veto
Eleições nos EUA: democratas conquistam cadeira republicana no Senado e disputam controle do Congresso
Comentários (0)
- Seja o primeiro a comentar.