Voto pela anulação da raspadinha expõe novo capítulo de histórico de controvérsias da Lottopar
Apostou avançou sobre diferentes modalidades da loteria estadual enquanto contratos estruturantes da autarquia acumulavam questionamentos; primeira grande licitação já havia colocado Lottopar no centro de relações políticas e familiares
Por Gazeta do Paraná
Créditos: Cauê Diniz/B3
A raspadinha que o relator Fabio Camargo quer ver anulada pelo Tribunal de Contas do Paraná é apenas uma parte dos negócios da Apostou com a Lottopar. Desde que entrou no mercado estadual, em 2023, a empresa avançou sobre diferentes modalidades: apostas de quota fixa, loteria instantânea, prognósticos e videoloterias. Hoje, é a única operadora que aparece na modalidade instantânea, justamente aquela cujo contrato o conselheiro considera comprometido desde a origem.
A informação ganha peso depois da reportagem publicada nesta sexta-feira (25) pela Gazeta do Paraná. Como revelou o jornal, a raspadinha nasceu de uma modelagem que previa cinco operadores e aproximadamente R$ 75 milhões em outorgas. Duas empresas chegaram a ser credenciadas, mas apenas uma permaneceu: a BetPR, responsável pela marca Apostou, com outorga fixa de R$ 15 milhões.
A Gazeta voltou agora aos contratos, registros da Lottopar, fiscalizações do TCE e investigações publicadas desde a criação da autarquia. O que emerge é uma história mais ampla. Antes mesmo da raspadinha, outra contratação estruturante da loteria estadual já havia sido questionada por técnicos do Tribunal por problemas relacionados à competitividade. E foi em torno daquele negócio que apareceram personagens como um ex-cunhado do governador Ratinho Junior, doadores de sua campanha, um ex-servidor estadual e o genro do então presidente do próprio TCE.
São contratos diferentes, empresas diferentes e irregularidades que não podem ser misturadas. Mas há uma coincidência incômoda: a competição prometida pelos modelos da Lottopar volta a aparecer como problema.
Uma empresa, várias apostas
A BetPR entrou cedo no mercado criado pelo Estado. Em setembro de 2023, tornou-se a primeira empresa autorizada pela Lottopar a operar apostas de quota fixa no Paraná, com pagamento de R$ 5 milhões de outorga.
Depois veio a raspadinha. Em março de 2024, a Lottopar levou à B3 a assinatura da concessão da loteria instantânea. A Apostou pagou R$ 15 milhões e recebeu um contrato de dez anos. Era apresentado como um marco da regulamentação lotérica paranaense.
A empresa avançou ainda para outras modalidades. Registros oficiais da Lottopar também a relacionam às loterias de prognóstico esportivo, específico e numérico e à loteria passiva. Paralelamente, sua marca passou a aparecer nos Terminais de Videoloteria, os VLTs.
A dimensão dessa presença ficou evidente em dezembro de 2025, quando a Gazeta do Paraná revelou a expansão dos chamados “minicassinos”. A apuração encontrou mais de 2,5 mil máquinas licenciadas no Estado e levantou questões sobre fiscalização, movimentação financeira e os impactos sociais da proliferação dos equipamentos.

Em janeiro, os VLTs chegaram ao noticiário nacional quando máquinas administradas pela BetPR/Apostou foram identificadas no resort Tayayá, em Ribeirão Claro, frequentado pelo ministro Dias Toffoli. A Lottopar afirmou que os equipamentos eram legalmente autorizados, certificados e monitorados e rejeitou a comparação com caça-níqueis clandestinos.
Nada disso integra o processo da raspadinha. Mas ajuda a responder a uma pergunta que ficou depois da reportagem de ontem: quem é a única empresa que permaneceu numa concessão desenhada para ter cinco operadores?
Não é uma empresa restrita à venda de raspadinhas. É uma concessionária que, em três anos, passou a ocupar diferentes espaços do mercado lotérico regulamentado pelo Paraná.
Antes dela, outro contrato já preocupava o TCE
É quando se volta a 2023 que a história ganha outra camada.
Antes de a Apostou receber a concessão da raspadinha, a Lottopar precisava contratar a plataforma tecnológica que faria a gestão e o controle financeiro das operações. Era um negócio estruturante para colocar a loteria estadual de pé e que poderia alcançar aproximadamente R$ 167 milhões ao longo de sua duração.
Esse contrato não era da Apostou. O vencedor foi um consórcio liderado pela Pay Brokers.
A licitação, porém, chamou a atenção da 4ª Inspetoria de Controle Externo do TCE. Técnicos questionaram especificações técnicas, prazos, formação de preços e restrições à competitividade. Ao final, apenas um interessado participou da disputa.
O episódio ganhou dimensão nacional porque, além dos problemas técnicos, uma rede de relações em torno do negócio começou a aparecer.
Ex-cunhado, doadores e o genro do presidente do TCE
Em agosto de 2023, a Agência Pública revelou que a Lottopar era comandada por Daniel Romanowski, ex-cunhado de Ratinho Junior. A investigação mostrou também que pessoas relacionadas à Pay Brokers haviam realizado aproximadamente R$ 400 mil em doações ligadas à campanha de reeleição do governador em 2022.
Havia ainda Henrique de Oliveira Moreira. Antes de atuar no grupo empresarial relacionado ao consórcio vencedor, ele havia ocupado cargo comissionado no Governo do Paraná.
E havia mais uma conexão: Moreira era genro de Fernando Guimarães, então presidente do TCE-PR, justamente o órgão responsável por fiscalizar a contratação.
Guimarães confirmou publicamente o parentesco e a participação do genro em empresa do grupo, mas negou qualquer interferência. O Governo do Paraná também rejeitou suspeitas de favorecimento, afirmou que Moreira não participou da estruturação da loteria ou da elaboração do edital e destacou que as doações eleitorais eram legais e declaradas.
Essas relações não provam direcionamento. Mas ajudaram a transformar uma licitação que já estava tecnicamente sob questionamento em uma das primeiras grandes controvérsias da recém-criada Lottopar.
Três anos depois, a concorrência volta ao centro
É aqui que as duas histórias se encontram. Na contratação tecnológica de 2023, técnicos do TCE questionaram a competitividade de uma licitação que terminou com apenas um participante. Na raspadinha, três anos depois, o desenho jurídico é diferente, mas novamente surge uma enorme distância entre a competição imaginada e aquela que efetivamente ocorreu.
A modelagem previa cinco operadores. Só dois foram inicialmente credenciados. Um saiu. Restou a Apostou.
Fabio Camargo foi cuidadoso ao tratar do assunto: os R$ 75 milhões projetados para cinco operadores e os aproximadamente R$ 15 milhões correspondentes ao único remanescente não significam R$ 60 milhões de prejuízo. Para ele, mostram que uma premissa importante da modelagem simplesmente não se realizou.
Mas o problema que levou seu voto à anulação é ainda anterior. Camargo considera inadequado o uso do credenciamento para entregar a exploração de um serviço público. A área técnica do TCE e o Ministério Público de Contas chegaram à mesma conclusão essencial.
É uma diferença importante em relação às controvérsias que acompanharam a Lottopar desde 2023. Desta vez, não estamos apenas diante de relações reveladas por jornalistas ou questionamentos produzidos durante uma fiscalização.
Há um contrato funcionando, uma empresa explorando a raspadinha e um relator do Tribunal de Contas propondo formalmente que tudo seja desfeito.
De vitrine a contrato sob risco
Há menos de dois anos, a assinatura da concessão da raspadinha na B3 foi apresentada pela Lottopar como um marco do mercado regulamentado. Em janeiro deste ano, quando a Apostou recebeu três certificações ISO, a autarquia disse que o resultado reforçava a “solidez do modelo regulatório adotado no Paraná”.
Agora, uma das principais concessões desse modelo está sob ameaça de anulação.
O julgamento não terminou. Ivan Bonilha pediu vista e o contrato permanece válido. Também não há no voto de Fabio Camargo acusação de favorecimento à Apostou, ligação da empresa com as relações políticas do caso Pay Brokers ou conclusão de dano aos cofres públicos.
O que há é uma sucessão de fatos que coloca novamente sob escrutínio a estrutura criada pelo Governo do Paraná para explorar suas loterias. A reportagem de ontem mostrou o problema de um contrato. O histórico mostra que a discussão é maior: desde que a Lottopar começou a contratar, a maneira como seus principais negócios foram desenhados e disputados volta, repetidamente, à mesa do Tribunal de Contas.
Créditos: Redação
