Ventania acima de 100 km/h foi causada por combinação de fenômenos atmosféricos, explicam especialistas
Inmet e Cemaden apontam que rajadas registradas no Rio de Janeiro e em São Paulo foram provocadas por uma linha de tempestades associada a uma área de baixa pressão; relação com o El Niño ainda não pode ser confirmada
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Os fortes ventos que atingiram os estados do Rio de Janeiro e São Paulo na quarta-feira (30), provocando mortes, queda de árvores e diversos danos, foram resultado da combinação de diferentes fenômenos atmosféricos. A avaliação é de especialistas do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) e do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden).
Na capital fluminense, uma estação meteorológica registrou rajadas de até 105 km/h, uma das maiores velocidades observadas durante o episódio.
Área de baixa pressão favoreceu a formação das rajadas
Segundo a meteorologista Suellen Araujo, do Inmet, o evento foi provocado pela formação de uma área de baixa pressão atmosférica, combinada com o deslocamento de ar nas camadas superiores da atmosfera, conhecido como escoamento.
De acordo com a especialista, essa combinação criou condições favoráveis para o desenvolvimento de instabilidades capazes de produzir ventos extremamente intensos.
Ela destacou que tanto no Rio de Janeiro quanto em São Paulo foram registradas rajadas próximas de 100 km/h.
Linha de tempestades originou a ventania
O coordenador-geral de Operações e Modelagem do Cemaden, Marcelo Seluchi, explicou que a ventania teve origem em uma linha de tempestades formada sobre uma frente fria que atuava na Região Sul do país.
Segundo ele, esse sistema gerou uma chamada frente de rajada, responsável pelos ventos fortes que avançaram rapidamente em direção ao Sudeste.
Seluchi explicou que a frente de rajada costuma se deslocar mais rapidamente do que a própria área de chuva, o que fez com que muitas localidades registrassem ventania intensa antes mesmo da chegada das precipitações.
De acordo com o especialista, as tempestades começaram entre Paraná e Santa Catarina e perderam força à medida que avançaram para o norte do país.
Especialistas evitam relacionar episódio diretamente ao El Niño
Apesar da intensidade dos ventos, os meteorologistas afirmam que ainda não há elementos suficientes para associar diretamente o fenômeno ao El Niño, que provoca o aquecimento das águas do Oceano Pacífico e altera os padrões climáticos em diversas regiões do planeta.
Segundo Suellen Araujo, são necessários estudos mais detalhados para verificar se existe relação entre o episódio e o fenômeno climático.
Marcelo Seluchi também considera difícil estabelecer uma ligação direta. No entanto, ele observa que o El Niño favorece a ocorrência mais frequente de frentes estacionárias sobre a Região Sul, condição que pode contribuir, de forma indireta, para a formação de linhas de instabilidade como a registrada nesta semana.
Ele ressalta, porém, que esse tipo de sistema atmosférico pode ocorrer em qualquer época do ano, inclusive em períodos sem atuação do El Niño.
Fenômeno ainda será analisado
O meteorologista Thiago Sousa, doutorando da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), também avalia que ainda é cedo para estabelecer uma relação entre a ventania e o atual episódio de El Niño.
Segundo ele, são necessários estudos mais aprofundados para confirmar ou descartar uma eventual influência do fenômeno climático sobre os ventos registrados no Sudeste.
Neste ano, a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (Noaa) projeta um episódio de El Niño de forte intensidade, com possibilidade de ser o mais intenso dos últimos 76 anos. Ainda assim, especialistas destacam que a influência do fenômeno sobre eventos específicos depende de análises técnicas detalhadas e não pode ser determinada apenas com base em um único episódio meteorológico.
