Segundo incêndio em seis meses expõe crise indígena e pressiona Prefeitura em Londrina
Destruição de moradias no Centro Cultural Kaingang Vãre reacende debate na Câmara; vereadores cobram ação do Executivo e denunciam abandono
Por Julia Maraschi
Créditos: Celso Felizardo
A crise envolvendo o Centro Cultural Kaingang Vãre em Londrina, foi tema de fortes cobranças na sessão da última quinta-feira (23) na Câmara Municipal. O debate ocorreu poucos dias após o incêndio do dia 18, que destruiu sete moradias da comunidade indígena instalada às margens da Avenida Dez de Dezembro, e agrava um cenário já marcado por vulnerabilidade e indefinição.
Este é o segundo incêndio registrado em cerca de seis meses, e agrava ainda mais a vulnerabilidade das famílias que habitam o local. No momento do incidente, a maioria dos moradores estavam fora, participando de atividades relacionadas ao Dia dos Povos Indígenas. Ninguém ficou ferido, mas os danos materiais foram totais.
Sem estrutura adequada, as famílias agora pedem ajuda para reconstrução, solicitando doações de madeira, tábuas, caibros e outros materiais, além de apoio com maquinário para limpeza da área. Já moradores das proximidades do local criticam essas instalações e mostram preocupação com a segurança no bairro.
“Não tem como viver tranquilo aqui, a gente não se sente seguro. Estamos ao lado do Ministério Público. Ao lado da Prefeitura Municipal. E ninguém faz nada.” indignou-se um dos moradores, que não quis se identificar.
Crise sem solução
A situação do Centro Cultural Kaingang Vãre não é recente. O impasse envolve uma área pública, considerada de preservação, onde há um processo de reintegração de posse em andamento. Apesar disso, o caso se arrasta há anos sem uma solução definitiva para o reassentamento das famílias.
A falta de encaminhamento efetivo tem gerado tensão crescente, tanto entre os moradores quanto no debate político local.
“Isso aqui é cheio de gato [furto de energia]. É tudo errado. Uma ocupação em área de preservação ambiental. Vai a gente fazer uma coisa dessas ", expressou um morador da Rua Pedro Antonio da Silva em entrevista à Folha de Londrina. Os moradores reivindicam a transferência dos indígenas para áreas mais adequadas.
Foco na Câmara de Londrina
Foi durante o grande expediente que o vereador Roberto Fu se pronunciou sobre a situação, e classificou o caso como um problema histórico e sem solução. O parlamentar informou que a crise envolvendo os indígenas se arrasta há décadas, mesmo após diversas tentativas de diálogo com órgãos públicos; e ainda destacou que o impasse atual envolve uma disputa de responsabilidades entre o município e a Funai.
A fala também trouxe críticas ao poder Executivo. Roberto, que tentou abrir diálogo com a prefeitura, não obteve nenhum retorno referente a pauta
“Eu pedi reunião com o prefeito e não tive resposta. É uma falta de respeito com essas famílias.”, expressou o vereador.
Ainda durante a sessão, foi reconhecido que a área ocupada apresenta limitações legais, incluindo características de preservação, o que inviabilizaria a permanência definitiva das famílias. No entanto, os vereadores reforçaram que qualquer remoção precisa ser acompanhada de uma alternativa digna, com garantia de moradia e assistência adequada, projeto que, até o momento, não foi efetivamente apresentado.
O risco de agravamento da crise social também foi alertado durante a sessão. Foi mencionada a possibilidade de novos conflitos caso não haja intervenção rápida e coordenada do poder público. A ausência de respostas concretas, somada à vulnerabilidade das famílias, pode levar a situações de tensão semelhantes a episódios já registrados no passado. As condições precárias das moradias e a falta de infraestrutura adequada já eram conhecidas, e o incêndio do dia 18 apenas evidencia a fragilidade em que a comunidade vive.
Disputas de responsabilidades
O principal ponto de conflito gira em torno de quem deve conduzir a solução. Enquanto parte do poder público aponta a Funai como responsável, vereadores defendem que o município precisa liderar o processo, já que a área é municipal e foi o próprio Executivo que ingressou com a ação de reintegração.
A Funai, por sua vez, costuma atuar como órgão de apoio, especialmente na articulação de políticas públicas e busca por recursos, mas não tem poder direto sobre decisões de ocupação urbana municipal.
Comunidade pede ajuda
Enquanto as definições institucionais não avançam, a realidade no local é de urgência. Lideranças indígenas relatam a necessidade imediata de materiais para reconstrução das moradias, como madeira e insumos básicos, como madeira e materiais de construção, apoio financeiro, além de ajuda para limpeza da área atingida. A mobilização por doações tem sido uma das principais respostas no curto prazo.
A discussão na Câmara evidenciou que, apesar da gravidade da situação, ainda não há uma solução estruturada em andamento. Até o momento, não há posicionamento oficial detalhado da Prefeitura de Londrina sobre o incêndio mais recente e sobre medidas emergenciais para atendimento das famílias afetadas.
Créditos: Redação
