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Saúde vira embate na Alep após pressão sobre hospitais e superlotação no Paraná

Debate em plenário expõe disputa entre oposição e governo sobre fechamento de hospitais, aumento de “leito zero” e modelo da rede pública estadual

Por Gazeta do Paraná

Saúde vira embate na Alep após pressão sobre hospitais e superlotação no Paraná Créditos: Antonio More/Alep

A pressão sobre a rede hospitalar do Paraná dominou parte da sessão desta segunda-feira na Assembleia Legislativa do Paraná, transformando em embate político um tema que já vinha sendo discutido fora do plenário: o aumento da sobrecarga nos hospitais públicos e o fechamento de unidades ao longo da última década.

O debate começou após o deputado Requião Filho afirmar que o Paraná enfrenta crescimento dos chamados atendimentos em “leito zero”, modalidade utilizada quando pacientes precisam ser recebidos mesmo sem vagas formais disponíveis na estrutura hospitalar.

Durante o discurso, o parlamentar associou o aumento da pressão sobre hospitais ao fechamento de unidades de saúde, à terceirização da gestão e ao avanço das filas por cirurgias, especialmente na saúde da mulher. “O aumento de leito zero em Foz do Iguaçu, em Cascavel, em Curitiba, denuncia este caos”, afirmou da tribuna.

A fala ocorre dias após a publicação da reportagem da Gazeta do Paraná que apontou a redução da estrutura hospitalar no estado e o impacto crescente sobre hospitais de referência, especialmente no interior.

A reação do governo veio imediatamente. O líder governista na Alep, Hussein Bakri, contestou a narrativa de colapso e apresentou números de investimentos estaduais em hospitais, ambulatórios, leitos de UTI e unidades regionais.

Segundo Bakri, somente em 2026 o governo estadual prevê entregas ou avanços em hospitais de cidades como Matinhos, Guaíra, Bituruna, Foz do Iguaçu, Assis Chateaubriand, Guaratuba e Cascavel. O parlamentar também afirmou que o Paraná está entre os três estados com melhor distribuição de UTIs do país.  “O Paraná está entre os três primeiros na distribuição de leitos SUS de UTI”, declarou.

O deputado Luiz Cláudio Romanelli também saiu em defesa da gestão estadual e classificou como “inverídica” a informação sobre o fechamento de aproximadamente 150 hospitais no estado.

Segundo Romanelli, houve descentralização e fortalecimento de hospitais municipais e regionais nos últimos anos.

O embate, porém, revelou um ponto ainda sem consenso: o que efetivamente está sendo considerado como “fechamento de hospital” na rede paranaense.

Entidades hospitalares e reportagens publicadas nos últimos meses apontam que cerca de 150 hospitais deixaram de operar ou perderam capacidade de atendimento na última década, especialmente em cidades menores. O governo, por outro lado, sustenta que o modelo atual prioriza estruturas regionais maiores e mais especializadas.

Na prática, a discussão escancara uma transformação silenciosa da rede pública estadual. Enquanto hospitais menores perderam espaço ou encerraram atividades, hospitais universitários e regionais passaram a concentrar cada vez mais demanda. Esse processo ajuda a explicar o crescimento de atendimentos emergenciais e do uso de “leito zero” em cidades-polo.

Em Cascavel, por exemplo, a pressão sobre o Hospital Universitário do Oeste do Paraná (HUOP) já virou tema de reuniões envolvendo Ministério Público, Consamu, Regional de Saúde, vereadores e gestores hospitalares. Documentos e relatos apresentados em debate recente apontam que a superlotação não decorre apenas da falta de leitos, mas também do modelo de regulação adotado na região.  

Segundo os participantes da reunião, casos que poderiam ser resolvidos na média complexidade acabam sendo direcionados ao HUOP, referência regional em alta complexidade. Isso gera um fluxo acima da capacidade planejada da unidade e provoca gargalos constantes no atendimento.  

Outro problema identificado foi a concentração de pacientes no período noturno. Conforme os relatos apresentados durante a discussão, muitos pacientes permanecem regulados ao longo do dia e acabam sendo encaminhados simultaneamente à noite, provocando picos de entrada que pressionam equipes, desorganizam fluxos internos e dificultam a rotatividade dos leitos.  

A situação expõe um efeito direto da concentração regional da demanda hospitalar: unidades de referência acabam absorvendo casos de diferentes níveis de complexidade, acumulando funções que antes eram distribuídas entre hospitais menores espalhados pelo interior.

O próprio diretor administrativo do HUOP, Rodrigo Barcella, reconheceu durante a reunião que, apesar de reorganizações internas e tentativas de ampliação da capacidade de resposta, o cenário de sobrecarga permanece crescente.  

Representantes da 10ª Regional de Saúde, do Consamu e do Ministério Público também apontaram fragilidades na origem dos encaminhamentos e no sistema de regulação, indicando que parte da pressão poderia ser reduzida com maior equilíbrio na distribuição dos pacientes ao longo da rede.  

O próprio discurso governista acabou revelando outro elemento importante do debate: os novos investimentos anunciados pelo Estado aparecem justamente como tentativa de aliviar a pressão atual sobre a rede.

A expansão de UTIs, novos hospitais e ampliação de ambulatórios surge como resposta a um sistema que já opera sob forte demanda em diversas regiões.

A sessão também mostrou que o tema deve ganhar peso político nas próximas semanas. A oposição pretende aprofundar a discussão sobre filas, terceirizações e estrutura hospitalar, enquanto a base governista deve reforçar a narrativa de ampliação da capacidade de atendimento.

O debate ainda pode avançar para outra frente sensível: a relação entre regionalização da saúde, terceirização da gestão hospitalar e crescimento da dependência de grandes centros médicos no Paraná.

Créditos: Redação Acesse nosso canal no WhatsApp