Emenda atribuída a Valdemar Costa Neto financiou show em Cafelândia
Convênio de R$ 290 mil do Ministério do Turismo custeou apresentação da dupla Thaeme & Thiago durante a ExpoCAF 2025
Por Gazeta do Paraná
Créditos: Divulgação
A Prefeitura de Cafelândia, no Oeste do Paraná, aparece entre os municípios beneficiados por recursos de emendas parlamentares que, segundo investigação da Polícia Federal (PF), foram direcionadas pelo presidente nacional do Partido Liberal (PL), Valdemar Costa Neto, embora ele não ocupe mandato parlamentar e, portanto, não tenha competência para indicar emendas ao Orçamento da União.
O município recebeu R$ 290 mil por meio de convênio firmado com o Ministério do Turismo para custear parte das festividades do 43º aniversário de Cafelândia, dentro da programação da ExpoCAF 2025. A verba foi destinada à contratação da dupla sertaneja Thaeme & Thiago, que se apresenta no dia 21 de novembro deste ano.
Documentos do Portal da Transparência e do sistema Transferegov apontam que os recursos são provenientes da Proposta Transferegov nº 049749/2025, vinculada ao Pré-Convênio nº 982236/2025 e ao Empenho nº 2025NE000287. O plano orçamentário prevê recursos para "Promoção e Marketing do Turismo no Mercado Nacional", especificamente para a contratação de show em comemoração ao aniversário do município.
A contratação da empresa THM & THG Produções Artísticas, responsável pela dupla Thaeme & Thiago, foi fixada em R$ 291 mil. Na prática, praticamente todo o valor do convênio federal foi utilizado para custear a apresentação artística, de aproximadamente 90 minutos.
Embora o recurso apareça oficialmente no Portal da Transparência da Câmara dos Deputados como emenda da Comissão de Turismo, a investigação da Polícia Federal sustenta que a indicação teria sido definida previamente por Valdemar Costa Neto.
Segundo a PF, o dirigente nacional do PL utilizaria parlamentares da legenda para formalizar indicações de emendas, mesmo sem possuir mandato eletivo. O esquema é um dos alvos das investigações que levaram o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), a determinar o bloqueio de R$ 119,2 milhões em bens de Valdemar Costa Neto.
A apuração aponta que o presidente do partido teria sido responsável pela destinação de recursos públicos por meio de emendas de comissão, utilizando uma servidora da Câmara dos Deputados para operacionalizar o processo. A investigação trata a conduta como possível prática de peculato, crime relacionado ao desvio ou utilização irregular de recursos públicos.
Entre os 17 municípios identificados pela Polícia Federal como destinatários das verbas atribuídas a Valdemar, Cafelândia aparece na 13ª posição, com repasse de R$ 290 mil.
O caso no Paraná apresenta características semelhantes ao identificado em Guaimbê, município do interior de São Paulo. Conforme revelado pelo jornal O Globo, uma emenda de R$ 280 mil atribuída pela PF a Valdemar Costa Neto foi utilizada integralmente para pagar outro show da dupla Thaeme & Thiago durante a Festa do Peão de Boiadeiro da cidade. Assim como em Cafelândia, o recurso foi transferido pelo Ministério do Turismo por meio de convênio e destinado exclusivamente ao pagamento da apresentação artística.
Nas investigações, a Polícia Federal afirma que, apesar de as emendas aparecerem formalmente vinculadas ao líder do PL na Câmara, deputado federal Sóstenes Cavalcante (RJ), as decisões sobre a destinação dos recursos seriam previamente definidas por Valdemar Costa Neto.
Procurado, Sóstenes Cavalcante afirmou que as emendas atribuídas ao seu nome seguem o rito das comissões permanentes da Câmara dos Deputados e que as decisões são compartilhadas pelos integrantes dos colegiados, não representando uma decisão individual do parlamentar.
Valdemar Costa Neto não respondeu aos questionamentos. Também não houve manifestação do Ministério do Turismo nem da assessoria da dupla Thaeme & Thiago sobre os casos envolvendo Guaimbê e Cafelândia.
A Gazeta do Paraná procurou a Prefeitura de Cafelândia para esclarecer se o município tinha conhecimento da origem política da indicação da emenda e se pretende adotar alguma medida diante das investigações em curso. Até o fechamento desta reportagem, a administração municipal não havia se manifestado. O espaço segue aberto para manifestação do município.
Até o momento, não há indicação de que o município seja investigado por irregularidades na execução do convênio. A apuração conduzida pela Polícia Federal concentra-se na origem e na indicação dos recursos orçamentários, buscando esclarecer se houve atuação indevida de agente sem mandato parlamentar na distribuição de emendas da União.
