Sandro Alex "abraça" privatização da Celepar e contratos de pedágio contestados
Candidato defende modelo de concessões e desestatização mesmo diante de questionamentos sobre tarifas, obras e proteção de dados públicos
Por Gazeta do Paraná
Créditos: Geraldo Bubniak/AEN
A campanha de Sandro Alex (PSD) ao Governo do Paraná começa a deixar mais evidente uma marca: a defesa da continuidade de políticas adotadas durante a gestão Ratinho Junior, inclusive em áreas que se transformaram em alguns dos temas mais espinhosos do debate político paranaense. Na sabatina promovida pela Folha de S.Paulo e pelo UOL, na segunda-feira (17), e em entrevista à Jovem Pan News Paraná nesta quarta-feira (19), o candidato reafirmou posições favoráveis à privatização da Celepar e à manutenção dos atuais contratos de concessão das rodovias.
São dois assuntos que carregam questionamentos importantes. No caso da companhia de tecnologia, a discussão envolve a transferência de uma estrutura estratégica do Estado para a iniciativa privada, com preocupações sobre governança, continuidade dos serviços públicos digitais e proteção de dados. Já no pedágio, a controvérsia passa pelo valor das tarifas, pelo cumprimento do cronograma de obras e pela própria lógica dos contratos firmados para as novas concessões.
Na sabatina da Folha/UOL, Sandro defendeu a privatização da Celepar sob o argumento de que o Estado precisa se modernizar e não necessariamente manter empresas públicas responsáveis por atividades que, segundo ele, podem ser executadas pelo setor privado.
“Nós sempre somos a favor da modernização, daquilo que é importante que o Estado possa modernizar e que não cabe essencialmente ao Estado”, afirmou.
A defesa, entretanto, veio acompanhada de uma ressalva: para Sandro, os dados dos paranaenses precisam permanecer protegidos dentro de uma estrutura que chamou de “data center soberano”. O candidato citou a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) e afirmou que a soberania das informações deve ser preservada independentemente da empresa que eventualmente opere os serviços.
A questão é que justamente a privatização da Celepar vem sendo contestada por órgãos de controle e no Judiciário. O Tribunal de Contas do Estado já apontou preocupações relacionadas à governança de tecnologia da informação, continuidade dos serviços públicos e proteção de dados. O processo chegou a ser sobrestado diante de decisão cautelar do Supremo Tribunal Federal.
Ou seja, a promessa de um “data center soberano” não elimina a discussão central: quem terá controle sobre uma estrutura que concentra sistemas e informações estratégicas do poder público caso a empresa deixe de ser estatal?
Pedágio como vitrine — e também como problema
Se a Celepar representa uma escolha política sobre o papel do Estado na tecnologia, os pedágios representam uma escolha muito mais concreta para o cidadão que utiliza as rodovias. E Sandro Alex não apenas defende os atuais contratos como também transformou as concessões em uma das principais vitrines de sua passagem pela Secretaria de Infraestrutura e Logística.
Na sabatina, o candidato apresentou o programa de concessões como uma das maiores realizações do governo e destacou a previsão de dezenas de bilhões de reais em investimentos. Também citou duplicações da BR-277, obras na Região Metropolitana de Curitiba e melhorias em corredores importantes para o transporte de cargas.
O problema é que, para o usuário, o contrato não é medido apenas pelo volume de investimentos anunciado. É medido pela combinação entre tarifa, qualidade do serviço e cumprimento das obras prometidas.
E é justamente nesse ponto que começam as contestações.
Dados do Observatório dos Pedágios, plataforma que acompanha os seis lotes de concessões rodoviárias do Paraná, registravam, em maio deste ano, 21 obras ainda não iniciadas e duas em situação de atraso.
Ao mesmo tempo, as tarifas continuam sendo um dos pontos mais sensíveis do modelo. A própria Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) mantém processos de revisões e reajustes tarifários para as concessões paranaenses.
Sandro, porém, rejeita a ideia de rediscutir os contratos. Na entrevista desta quarta-feira, ao ser questionado sobre propostas de adversários para rever as concessões, foi direto: “Nós não vamos rediscutir”.
A justificativa é que uma eventual redução das tarifas não poderia acontecer às custas das duplicações previstas.
“Se você tirasse as duplicações para reduzir a tarifa, aí eles diriam que não tem obra”, argumentou.
É um dilema que Sandro pretende apresentar ao eleitor como uma escolha entre pagar pedágio e garantir investimentos. Mas essa equação pode ser mais complexa do que a oposição entre “tarifa baixa” e “rodovia duplicada”. O questionamento que permanece é se os contratos conseguirão entregar as obras dentro dos prazos previstos e, ao mesmo tempo, oferecer tarifas que representem efetivamente uma redução relevante em relação ao modelo anterior.
O histórico das antigas concessões ajuda a explicar a desconfiança. Mesmo anos depois do encerramento dos contratos do Anel de Integração, ainda existem disputas e pendências sendo solucionadas. Em 2026, Paraná e Ecorodovias chegaram a um acordo de R$ 45,2 milhões para encerrar controvérsias relacionadas aos antigos contratos, com o valor destinado à construção de um novo viaduto na BR-277, em Curitiba.
O discurso da continuidade
A posição de Sandro deixa clara a estratégia eleitoral: defender o legado do governo Ratinho Junior e apresentar as concessões como política de Estado, e não como uma política que deveria ser revista pelo próximo governador.
O candidato afirma que o Paraná não pode abrir mão das duplicações e que rodovias em pista simples contribuem para acidentes frontais. Também defende a continuidade do planejamento de infraestrutura, citando obras em diferentes regiões do Estado.
A questão que deverá acompanhar a campanha, entretanto, é justamente quanto essa continuidade custará ao usuário e quais garantias existem de que o cronograma será cumprido.
Nos novos contratos, a promessa de grandes investimentos veio acompanhada de concessões de longo prazo. A EPR Paraná, por exemplo, assumiu em março deste ano uma concessão de 30 anos sobre mais de 627 quilômetros de rodovias.
Além disso, o próprio modelo vem passando por alterações e revisões. A ANTT autorizou, por exemplo, a implantação do sistema de cobrança eletrônica em diferentes lotes e aprovou revisões tarifárias.
Para Sandro, o caminho é manter o modelo e fiscalizar sua execução. Para os críticos, entretanto, a discussão deveria ser mais ampla: não basta saber quanto será investido em 30 anos, mas quanto o usuário pagará ao longo desse período, quais obras serão efetivamente entregues e o que acontecerá quando os prazos não forem cumpridos.
É nesse ponto que a defesa enfática de Sandro Alex coloca o candidato diante de uma questão política delicada. Ao mesmo tempo em que tenta se apresentar como o nome da continuidade e da experiência administrativa, ele também assume a responsabilidade pelas escolhas feitas pelo governo do qual participou.
No caso da Celepar, defende a privatização e aposta em mecanismos de proteção para preservar os dados públicos. No caso dos pedágios, rejeita a revisão dos contratos e sustenta que as tarifas precisam ser analisadas em conjunto com as obras previstas.
São posições coerentes com a defesa da continuidade do atual modelo, mas que também colocam sobre Sandro o desafio de responder às críticas que acompanham justamente essas políticas. Em uma eleição na qual a infraestrutura e o papel do Estado estarão no centro do debate, a pergunta que ficará para o candidato não será apenas o que pretende construir, mas se está disposto a rever aquilo que já foi contratado quando a realidade das tarifas, dos prazos ou da execução das obras não corresponder às promessas feitas ao paranaense.
