“Saio pela porta da frente”: Toaldo se despede da Câmara após perder mandato em caso de fraude à cota de gênero
TRE-PR apontou “asfixia financeira” e “abandono político” de candidaturas femininas do PRD; vereador deixa o Legislativo afirmando que pretende continuar na vida pública
Por Gazeta do Paraná
Créditos: Rodrigo Fonseca/CMC
A sessão da Câmara Municipal de Curitiba desta segunda-feira entrou para a história política recente da capital. O que seria mais uma reunião ordinária transformou-se em um misto de despedida, prestação de contas e lançamento informal de uma futura candidatura.
Com a perda do mandato de Sidnei Toaldo, a vaga na Câmara Municipal passa a ser ocupada por Antônio Carlos do Carmo, conhecido como Toninho da Farmácia. O nome foi confirmado pela própria Mesa Diretora após a comunicação oficial da Justiça Eleitoral sobre o reprocessamento dos resultados das eleições de 2024.
Após a leitura do ofício encaminhado pela Justiça Eleitoral comunicando o reprocessamento dos resultados das eleições de 2024, a Mesa Diretora declarou oficialmente a perda do mandato do vereador Sidnei Toaldo. A decisão decorre do reconhecimento de fraude à cota de gênero na chapa proporcional do Partido Renovação Democrática (PRD), legenda pela qual o parlamentar foi eleito.
A medida tem origem em ações eleitorais que apontaram o uso de candidaturas femininas sem efetiva estrutura de campanha para o cumprimento formal da cota mínima exigida pela legislação eleitoral.
Ao analisar o caso, o Tribunal Regional Eleitoral do Paraná concluiu que quatro candidaturas femininas da legenda apresentaram votações consideradas inexpressivas, receberam investimentos significativamente inferiores aos destinados aos homens da chapa e não demonstraram a realização de campanhas efetivas.
Os desembargadores apontaram a existência de “asfixia financeira”, “abandono político” e tratamento desigual às candidaturas femininas, concluindo que houve desvirtuamento da finalidade da política de cotas de gênero.
Como consequência, a Justiça determinou a cassação do registro da chapa proporcional do Partido Renovação Democrática (PRD). Com isso, todos os votos recebidos pela legenda foram anulados, provocando o recálculo dos quocientes eleitoral e partidário e alterando a composição da Câmara Municipal de Curitiba.
A mudança atingiu diretamente Toaldo, eleito pela sigla em 2024.
Despedida
Logo após a leitura do ofício, o presidente da Câmara, Tico Kuzma, suspendeu a sessão para que o vereador pudesse se pronunciar.
O discurso durou cerca de cinco minutos e foi marcado por emoção, agradecimentos e críticas veladas aos adversários.
“Uma manhã triste. Curitiba perde, com certeza, alguém que tem honra e tem caráter”, afirmou.
Ao longo da fala, Toaldo relembrou sua trajetória política e sua ligação histórica com o Legislativo curitibano.
“Estou aqui desde 1991, na Câmara Municipal de Curitiba. Sempre com o nome e com a honra que meu pai e minha mãe me ensinaram.”
O vereador disse respeitar a decisão da Justiça Eleitoral, mas destacou que o julgamento foi apertado e procurou enfatizar que a punição atingiu a chapa partidária e não sua conduta individual.
“Eu perdi o mandato. Quem foi cassado foi o registro da chapa do PRD. Então o meu nome está limpo. Eu saio pela porta da frente desta casa legislativa, porque foi por ela que eu entrei.”
Em diversos momentos, o parlamentar dirigiu sua fala aos mais de seis mil eleitores que o apoiaram nas urnas.
“Cada voto representou esperança, confiança, amizade e reconhecimento de uma trajetória construída com dedicação, trabalho e compromisso com a nossa cidade.”
Segundo ele, a decisão produz efeitos que vão além da esfera política.
“Essa decisão alcança não apenas a minha pessoa, mas também os 6.658 eleitores que votaram na gente.”
Recado aos adversários
Se a primeira parte do discurso foi marcada por agradecimentos, a reta final teve tom claramente político.
Sem citar nomes, Toaldo mandou um recado aos adversários que comemoraram sua saída da Câmara.
“Aqueles que querem me derrubar podem sorrir hoje, mas eu não sei o dia de amanhã.”
A frase provocou reações imediatas entre apoiadores presentes no plenário e foi interpretada por vereadores como um sinal de que o agora ex-parlamentar pretende disputar novos espaços políticos nos próximos anos.
A avaliação ganhou força quando Toaldo mencionou o calendário eleitoral.
“Outubro está logo ali. E 2028 está muito pertinho.”
Embora não tenha anunciado candidatura, a declaração foi vista como uma demonstração de que a perda do mandato não representa o encerramento de sua carreira pública.
Saída "de cabeça erguida"
Ao encerrar o pronunciamento, o vereador agradeceu familiares, assessores, servidores da Câmara e apoiadores que o acompanharam ao longo da trajetória política.
“Eu tenho um nome, eu tenho uma família, eu tenho honra. E honra não se compra e não se vende.”
O discurso foi seguido por cumprimentos de parlamentares de diferentes correntes políticas.
O próprio presidente da Câmara prestou homenagem ao colega.
“Quero falar ao vereador Sidnei Toaldo muita força, muita fé, muito trabalho pela frente e obrigado por tudo aquilo que fez durante o seu mandato por Curitiba”, afirmou Tico Kuzma.
Após os abraços, fotos e manifestações de apoio, a sessão foi retomada. Mas, naquele momento, os debates legislativos já haviam ficado em segundo plano.
Mais do que a saída de um vereador, o plenário assistiu ao fim de um mandato e ao início de uma nova narrativa política. Se depender do discurso de despedida, Sidnei Toaldo deixou a Câmara sem mandato, mas não sem projeto.
“Minha história não terminou. Ela continua sendo escrita.”
Créditos: Redação
