Quase quatro anos na fila: redução das cirurgias no Paraná esconde bolsões de longa espera
Estado reduziu em 44% a fila da Care-PR no primeiro quadrimestre, mas levantamento da Gazeta encontra 843 mulheres aguardando cirurgia ginecológica em Sarandi, com registros desde 2022, cerca de 9 mil pacientes na fila em Londrina e gargalos regionais em ortopedia, urologia e oftalmologia
Por Gazeta do Paraná
Créditos: AEN
O Paraná aumentou o número de cirurgias eletivas e conseguiu reduzir em 44% a fila registrada na Care-PR no primeiro quadrimestre de 2026. Por trás do resultado estadual, porém, documentos públicos revelam uma realidade bem menos uniforme: há pacientes que continuam esperando há anos e especialidades nas quais a demanda permanece represada mesmo depois da ampliação dos procedimentos.
Um dos casos mais expressivos aparece em Sarandi, no Norte do Estado. Consulta realizada pela Câmara Municipal encontrou, em junho, 843 pacientes aguardando cirurgia ginecológica, entre elas mulheres com registros na fila desde agosto de 2022. Em Londrina, o desafio aparece em outra escala: o município mantém aproximadamente 9 mil pessoas aguardando cirurgias, enquanto cerca de 1.200 novos pacientes entram na fila todos os meses.
No Oeste, documentos da região de Toledo apontam filas persistentes principalmente em ortopedia, urologia e ginecologia e revelam outro problema: pacientes podem deixar a fila acompanhada pelo município e passar a aguardar dentro da própria instituição hospitalar, etapa sobre a qual gestores municipais relatam não possuir acesso direto. No Litoral, Paranaguá entrou em 2026 ainda tentando resolver demanda oftalmológica represada desde 2023.
O levantamento da Gazeta mostra, portanto, que falar em uma única “fila de cirurgias do Paraná” simplifica uma estrutura muito mais complexa. O tempo de espera varia conforme município, especialidade, hospital responsável e modelo de regulação.
Paraná reduziu a fila em 44%
Os números gerais mostram um avanço importante. No início de 2026, a Secretaria de Estado da Saúde informou que 73.736 pacientes aguardavam procedimentos cirúrgicos no Paraná. Ao mesmo tempo, o volume de procedimentos cresceu: depois de mais de 786 mil cirurgias realizadas em 2025, o Estado contabilizou 253.827 entre janeiro e abril deste ano.
O reflexo apareceu na Care-PR. No primeiro quadrimestre, o Paraná informou uma redução de 44% da fila, superando antecipadamente a meta anual de 26%. Também houve melhora no tempo médio: o intervalo entre solicitação e realização da cirurgia passou de 73,66 dias em 2024 para 37,98 dias em 2025. Entre a autorização e a realização do procedimento, a média caiu de 67,57 para 31,86 dias.
A média estadual, contudo, não significa que cada paciente espere aproximadamente 38 dias. Os casos encontrados em diferentes municípios mostram que determinadas especialidades acumulam filas muito mais antigas.
Em Sarandi, registros remontam a 2022
Em 1º de junho de 2026, uma consulta à regulação identificou 843 pacientes aguardando cirurgia ginecológica em Sarandi. A relação incluía diferentes classificações de prioridade e pacientes idosas, inclusive mulheres com mais de 70 e 80 anos.
O que chamou a atenção da Câmara Municipal foi a antiguidade de parte dos registros. Havia pacientes inseridas na fila desde agosto de 2022. Diante da situação, o Legislativo solicitou à prefeitura informações sobre quantas mulheres aguardavam havia mais de seis meses, um, dois, três e quatro anos, além da quantidade de cirurgias realizadas e dos contratos disponíveis para atendimento da demanda.
A existência de registros de 2022 não significa necessariamente que todas essas pacientes tenham permanecido continuamente aptas à cirurgia durante todo o período. Filas do SUS podem sofrer alterações por atualização clínica, mudança de prioridade, necessidade de novos exames ou outras circunstâncias. Ainda assim, a permanência de registros tão antigos evidencia a existência de demanda represada na especialidade.
Londrina mantém 9 mil pessoas na fila
Em Londrina, a fila cirúrgica permanece em torno de 9 mil pacientes, mesmo com a ampliação dos procedimentos. O município conseguiu, por exemplo, eliminar em aproximadamente 60 dias uma fila específica de cirurgia vascular e também ampliou cirurgias gerais e ortopédicas.
A dificuldade está na velocidade com que novas pessoas chegam ao sistema. A estimativa municipal é de aproximadamente 1.200 novas inclusões todos os meses. Assim, uma cidade pode realizar milhares de procedimentos e continuar com um estoque elevado se a demanda nova avançar em ritmo semelhante.
Os recursos destinados ao enfrentamento das filas também cresceram. A previsão inicial de recursos federais para Londrina, de R$ 4,2 milhões, chegou a R$ 16,48 milhões.
Em Toledo, paciente pode sair de uma fila e entrar em outra
Na região Oeste, documentos públicos revelam uma dificuldade diferente: a fragmentação do acompanhamento. Prestação de contas da saúde de Toledo registra reclamações sobre pacientes que deixam a fila cirúrgica acompanhada pelo município quando são encaminhados e passam a integrar uma fila interna da instituição hospitalar.
Segundo o documento, os municípios não possuem acesso direto a essas listas internas. Na prática, isso pode dificultar saber quanto tempo determinada pessoa realmente espera entre o encaminhamento e a realização da cirurgia.
A documentação também mostra diferenças importantes entre especialidades. Enquanto havia disponibilidade para cirurgia geral porque os municípios já não apresentavam filas expressivas nessa área, permaneciam demandas em ortopedia, urologia e ginecologia. O cenário ajuda a explicar por que simplesmente ampliar o número total de procedimentos não resolve todos os gargalos: pode haver capacidade disponível em uma especialidade e pacientes represados em outra.
Paranaguá acumulava demanda desde 2023
No Litoral, a oftalmologia tornou-se alvo de uma força-tarefa em 2026. Paranaguá carregava demanda reprimida desde 2023 e, neste ano, Estado e município organizaram inicialmente mil cirurgias de catarata para enfrentar o represamento.
Outra iniciativa posteriormente anunciou mais de 1.500 procedimentos de oftalmologia e ginecologia. O volume extraordinário destinado às duas especialidades dá dimensão da demanda acumulada e levou à adoção de estratégias específicas para acelerar o atendimento.
Curitiba derrubou fila de oftalmologia e agora ataca ortopedia
Curitiba mostra o outro lado da equação. A fila de oftalmologia passou de 47.780 pessoas em janeiro de 2025 para 557 em setembro de 2026, segundo a prefeitura, com tempo médio informado de seis dias. Dermatologia caiu de 13.652 para 2.078 pessoas, enquanto otorrinolaringologia passou de 7.800 para 2.956. A fila para tomografia de crânio foi zerada.
Com a redução desses gargalos, o foco municipal passou para a ortopedia. Uma força-tarefa lançada em setembro prevê mais de mil cirurgias ortopédicas até o fim do ano, inclusive à noite e nos fins de semana. Estão contemplados procedimentos de mão, coluna, joelho, quadril, cotovelo, ombro, pé e tornozelo.
A mudança de prioridade evidencia a dinâmica das filas: quando a demanda represada de uma área é reduzida, outra especialidade pode passar a concentrar a necessidade de atendimento.
Há lugares onde filas foram zeradas
O cenário não é de represamento generalizado. Em Rolândia, por exemplo, o Hospital São Rafael conseguiu zerar filas de vasectomia, laqueadura e cirurgias ortopédicas de pé e mão, dentro da estratégia estadual de regionalização.
O resultado reforça as diferenças existentes dentro do próprio Paraná. Dependendo da especialidade, da capacidade hospitalar disponível e da região onde vive, um paciente pode encontrar uma realidade muito diferente daquela enfrentada por outro usuário do mesmo SUS.
Mais de R$ 160 milhões para cirurgias
Há recursos adicionais sendo direcionados para enfrentar o problema. Para 2026, a Comissão Intergestores Bipartite do Paraná aprovou R$ 200,57 milhões relacionados ao programa federal Mais Acesso a Especialistas. Desse montante, aproximadamente R$ 160,46 milhões são destinados ao componente cirúrgico.
O dinheiro se soma às estratégias estaduais de regionalização e ampliação da produção, que buscam realizar procedimentos mais próximos de onde os pacientes vivem e aproveitar a capacidade instalada em diferentes hospitais. Os números ajudam a explicar a redução de 44% registrada pela Care-PR, mas também tornam mais importante identificar onde a fila não acompanhou a média estadual.
TCE já cobrou indicadores sobre as filas
A dificuldade de enxergar o problema regionalmente já chamou a atenção dos órgãos de controle. Ao analisar o planejamento estadual da saúde, o Tribunal de Contas do Estado do Paraná apontou que, apesar da existência de diversas metas para o setor, não havia indicador diretamente destinado ao acompanhamento das filas por consultas, exames e cirurgias eletivas.
O Tribunal destacou que conhecer e monitorar esses números é importante tanto para localizar gargalos quanto para permitir que a sociedade acompanhe os resultados das políticas públicas. Entre as recomendações feitas ao Estado estava a avaliação da criação de metas e indicadores específicos para as filas.
A dificuldade permanece perceptível para quem tenta consultar os dados. O cidadão dispõe de ferramenta para verificar a própria posição na fila, mas não encontra no mesmo serviço um painel estadual aberto e consolidado mostrando quantas pessoas aguardam por procedimento, especialidade, município e Regional de Saúde. Há ainda filas administradas em estruturas diferentes, incluindo municípios com gestão própria, consórcios e listas internas de prestadores.
Uma fila que não é uma só
Os documentos analisados ajudam a explicar uma aparente contradição. O Paraná pode simultaneamente aumentar o número de cirurgias, reduzir em 44% a fila estadual e ainda manter pacientes com registros de espera que remontam a quase quatro anos.
Isso ocorre porque não existe uma fila homogênea. Há especialidades com oferta suficiente e outras com demanda reprimida, cidades que conseguiram praticamente zerar determinados procedimentos e outras que carregam registros antigos, além de hospitais com capacidade disponível em uma área e gargalos em outra.
Em Sarandi, a fotografia encontrada foi de 843 mulheres aguardando cirurgia ginecológica, com registros desde agosto de 2022. Em Londrina, cerca de 9 mil pacientes permanecem na fila enquanto aproximadamente 1.200 novos entram todos os meses. No Oeste, documentos apontam ortopedia, urologia e ginecologia entre os gargalos e expõem a dificuldade dos municípios para acompanhar filas internas hospitalares. No Litoral, foi necessário abrir uma ofensiva específica contra uma demanda oftalmológica acumulada desde 2023.
A redução estadual de 44% é significativa. Os casos regionais, porém, mostram que a próxima pergunta sobre a fila de cirurgias do Paraná não é apenas quantas pessoas conseguiram sair dela, mas quem continua esperando, por qual procedimento e há quanto tempo.
