Por trás das granjas de Micheletto há uma história que começou antes de Moro
Prefeito transformou provocação do adversário em defesa do produtor rural, mas deixou de mencionar que é sócio de Darlan Scalco em empreendimento avícola que já entrou no “Frangogate” após obra milionária na estrada onde a empresa está instalada
Por Gazeta do Paraná
Créditos: Reprodução redes sociais
Uma frase do senador Sergio Moro colocou as granjas do prefeito de Assis Chateaubriand, Marcel Micheletto, no meio da disputa eleitoral. Ao passar pelo município, Moro afirmou que iria “aposentar” o prefeito para que ele pudesse cuidar de suas granjas. Micheletto respondeu. Disse ter orgulho da atividade e transformou a provocação em uma defesa dos produtores rurais.
“Eu tenho granja, sim, com orgulho”, afirmou o prefeito. Segundo ele, falar de granja “como se fosse castigo” não seria uma ofensa apenas a Micheletto, mas aos produtores que acordam antes do sol e trabalham no campo.
A resposta funciona no embate eleitoral. Mas deixa de fora justamente o contexto que torna a referência às granjas politicamente relevante.
Porque a história das granjas de Micheletto não começou com Moro.
Meses antes da provocação, o nome do prefeito já havia aparecido no chamado “Frangogate”, série de denúncias e reportagens sobre empreendimentos avícolas, propriedades rurais e investimentos públicos em infraestrutura no Noroeste do Paraná.
E não foi porque Micheletto simplesmente cria frangos.
Micheletto e Darlan são sócios
Em abril, a Gazeta do Paraná revelou que Marcel Micheletto integra o quadro societário da JMD Granja Uberaba Ltda., empreendimento instalado em Esperança Nova.
Os outros dois sócios são João Biral Júnior e Darlan Scalco.
Darlan é um dos personagens centrais do Frangogate. Ex-prefeito de Pérola e ex-chefe de gabinete do governador Ratinho Junior, ele aparece em diferentes capítulos da série envolvendo propriedades rurais e projetos avícolas no Noroeste.
João Biral Júnior, por sua vez, já ocupou postos em conselhos de empresas estaduais durante a atual administração.
A JMD Granja Uberaba foi aberta em 2024, tem sede na zona rural de Esperança Nova e capital social declarado de R$ 15 mil. Mas é o endereço da empresa que colocou o empreendimento sob os holofotes. A granja está registrada na Estrada Jordão, km 6.
A mesma Estrada Jordão foi contemplada com cerca de R$ 4 milhões em recursos públicos para pavimentação de aproximadamente quatro quilômetros.
Foi essa combinação que levou o empreendimento dos três para dentro do Frangogate: uma empresa avícola formada por nomes ligados ao núcleo político estadual instalada justamente em uma estrada beneficiada por investimento público milionário.
Não há, até agora, comprovação de que a pavimentação tenha sido direcionada para beneficiar a empresa ou seus sócios. O que as denúncias passaram a questionar são os critérios para aplicação dos recursos e a repetição de situações semelhantes em diferentes municípios.
O caso não parou em Esperança Nova
A Estrada Jordão não foi o único endereço colocado sob suspeita por Homero Marchese, responsável pelas denúncias que deram origem ao Frangogate.
Em Pérola, Marchese apontou aproximadamente R$ 6,5 milhões destinados à pavimentação da Estrada Ipiranga, que, segundo ele, dá acesso a aviários ligados a Darlan Scalco.
Em São Jorge do Patrocínio, outra obra passou a ser questionada depois que propriedades adquiridas por pessoas ligadas à cúpula do governo apareceram às margens da estrada beneficiada.
Nesse caso, a Gazeta avançou sobre a documentação pública e encontrou no Portal da Transparência municipal um contrato de R$ 2,28 milhões para serviços de terraplenagem, vinculado a ações de infraestrutura rural.
Esperança Nova ainda apresentou outro capítulo. Além da Estrada Jordão, Marchese apontou investimento na Estrada Myland, que recebeu R$ 7,5 milhões do Estado e complemento de R$ 1 milhão do município para pavimentação de sete quilômetros. Segundo a denúncia, a obra alcança outro imóvel ligado a Darlan.
As situações também chegaram a Iporã, onde Marchese relacionou investimentos públicos em pavimentação a propriedades adquiridas por integrantes ou pessoas ligadas ao núcleo do governo.
O que começou como denúncia sobre imóveis rurais passou, portanto, a revelar uma teia mais ampla envolvendo terras, empreendimentos avícolas e dinheiro público aplicado em infraestrutura.
R$ 190 milhões e 52 aviários
Meses depois, o próprio embate judicial em torno do Frangogate trouxe novas informações.
Darlan Scalco procurou a Justiça para tentar retirar do ar conteúdos relacionados ao caso. Entre os documentos apresentados no processo apareceram cartas que, segundo Marchese, ajudaram a dimensionar os projetos avícolas planejados para duas das cidades que já estavam no centro das denúncias.
Uma correspondência enviada à Prefeitura de Esperança Nova, em novembro de 2023, informava intenção de investimento de R$ 120 milhões para implantação de 28 aviários.
Outro documento, de outubro de 2025, mencionava projeto de 24 aviários em São Jorge do Patrocínio, estimado em outros R$ 70 milhões.
Somados, os projetos chegavam a 52 aviários e R$ 190 milhões em investimentos planejados.
A documentação conhecida não esclarece como todo esse investimento seria financiado, quem seriam todos os investidores envolvidos ou qual seria a participação financeira efetiva de Darlan nos projetos.
Também não há elementos que permitam afirmar que os 28 aviários planejados para Esperança Nova pertençam a Micheletto ou à JMD Granja Uberaba.
O que está documentado é outra coisa: Micheletto e Darlan são sócios em um empreendimento avícola justamente em Esperança Nova, um dos municípios que se tornaram centrais nas revelações do Frangogate.
Micheletto fala em asfalto
Há ainda uma coincidência temática curiosa na resposta de Micheletto a Moro. Depois de defender suas granjas e o trabalho do produtor rural, o prefeito escolheu justamente o asfalto rural como uma das principais vitrines de sua administração em Assis Chateaubriand.
“O asfalto rural que a gente esperou mais de 40 anos chegou na cidade. Asfalto por todos os cantos”, afirmou. Na sequência, Micheletto disse ter sido o prefeito que mais realizou asfaltamento no município.
As obras mencionadas por Micheletto em Assis Chateaubriand não são as mesmas que aparecem nas reportagens do Frangogate, e não há elemento que permita associá-las automaticamente ao caso.
Mas é impossível ignorar que asfalto rural é justamente um dos fios que conduzem toda a controvérsia: estradas financiadas com recursos públicos e sua relação geográfica com propriedades e empreendimentos privados de personagens ligados ao poder estadual.
“Granja não é aposentadoria”
A resposta de Micheletto termina também como uma peça eleitoral. O prefeito destaca os recursos destinados a Assis Chateaubriand, atribui ao governador Ratinho Junior a abertura de portas para investimentos e declara apoio a Sandro Alex na disputa pelo governo do Paraná.
Então se dirige diretamente ao senador. “Candidato Moro. Granja não é aposentadoria. Granja é trabalho.”
A afirmação é verdadeira no sentido literal: a atividade avícola é trabalho e tem peso econômico relevante para o Paraná. O ponto levantado pelas reportagens sobre o Frangogate, porém, nunca foi se existe ou não dignidade em ser produtor rural. A questão é outra.
Quando as granjas de Micheletto entram na disputa política, existe um contexto anterior à provocação de Moro: o prefeito é sócio de Darlan Scalco em uma empresa avícola instalada no km 6 de uma estrada contemplada com cerca de R$ 4 milhões em pavimentação, dentro de uma sequência de casos que passou a ser questionada publicamente pela proximidade entre empreendimentos privados e investimentos públicos em infraestrutura.
Isso não comprova favorecimento nem irregularidade. Mas explica por que, no atual cenário político do Paraná, falar das granjas de Micheletto significa falar de algo muito maior do que a profissão de um produtor rural.
Quando Moro subiu ao palanque e falou em “aposentar” Micheletto para cuidar das granjas, a palavra já carregava uma história. E ela começou muito antes daquela provocação.
