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Programa eleitoral de Lula mistura dados corretos, exageros e afirmações sem comprovação sobre soberania e defesa

Propaganda do candidato cita produção nacional, Forças Armadas, combustíveis e Pix; números oficiais mostram que parte das declarações precisa de contexto

Por Ana Zimermann

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Programa eleitoral de Lula mistura dados corretos, exageros e afirmações sem comprovação sobre soberania e defesa Créditos: site campanha Lula

O programa eleitoral nº 6 do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, exibido nesta terça-feira (8), teve como eixo a defesa da soberania nacional. Ao apresentar investimentos em defesa, produção nacional, combustíveis e o Pix como símbolos de independência do Brasil, a propaganda reuniu afirmações verdadeiras, outras que precisam de contexto e algumas que não encontram respaldo nos dados disponíveis.

Uma das principais declarações foi a de que o Brasil “produz 99% de tudo o que nós precisamos”. A afirmação, porém, não é sustentada pelos dados oficiais. O país possui grande capacidade de produção de alimentos e é uma potência agrícola, mas mantém forte dependência externa em diversos produtos estratégicos. Segundo o Ministério da Agricultura, o Brasil importa atualmente cerca de 85% dos fertilizantes que utiliza. A dependência é ainda mais significativa em alguns componentes. Documento do governo federal aponta que o país importa cerca de 90% do potássio utilizado na agricultura. Portanto, embora o Brasil seja um dos maiores produtores de alimentos do mundo, não é correto afirmar, de maneira geral, que produz 99% de tudo aquilo de que necessita.

Defesa: equipamentos são reais, mas programas começaram antes de Lula

A propaganda também afirma que Lula iniciou “o maior projeto de defesa nacional da história” e cita submarinos, fragatas, caças Gripen e 420 blindados. Há avanços efetivamente ocorridos durante o atual governo. O F-39 Gripen, por exemplo, já está em operação na Força Aérea Brasileira. Em 2026, o caça participou pela primeira vez do exercício Escudo-Tínia e passou a cumprir missões de defesa aérea. A FAB registra que o Gripen realizou, inclusive, missão de Alerta de Defesa Aérea em Brasília em fevereiro deste ano. 

Também é correto dizer que o Brasil incorporou novos meios navais. A primeira Fragata Classe Tamandaré avançou para a fase operacional em 2026. Entretanto, o programa não começou no atual governo. O relatório da Emgepron registra que a construção das quatro fragatas começou em 2022, e o projeto já estava em andamento antes do terceiro mandato de Lula. O mesmo vale para os submarinos do Programa de Desenvolvimento de Submarinos (Prosub), cuja origem é anterior ao atual governo.

A propaganda também menciona 420 novos blindados. O número está relacionado ao programa de viaturas blindadas multitarefa Guaicurus, mas a existência de um contrato para 420 veículos não significa que todos tenham sido entregues imediatamente. Assim, a propaganda apresenta como parte de um projeto iniciado por Lula equipamentos e programas cuja concepção, contratação ou construção começou em governos anteriores. Não existe, além disso, um indicador oficial que permita estabelecer objetivamente que o conjunto dessas iniciativas seja “o maior projeto de defesa nacional da história”.

“Lula retomou a indústria nacional de drones”

Outra afirmação apresentada no programa é que Lula teria “retomado a indústria nacional de drones, abandonada no governo anterior”. A frase também não pode ser comprovada nos termos em que foi apresentada. O Brasil possui empresas, projetos e capacidade tecnológica na área de drones, mas não há evidência suficiente de que existisse uma indústria nacional consolidada que tenha sido simplesmente “abandonada” durante o governo anterior e posteriormente retomada por Lula. A própria agenda pública de 2026 mostra que o fortalecimento desse setor ainda está em discussão. Em maio, por exemplo, o Senado realizou audiência para discutir o fortalecimento da indústria nacional de drones.

Petrobras não “mantém” necessariamente os preços estáveis

A propaganda afirma ainda que, mesmo com o mundo em guerra, “a Petrobras mantém o preço do combustível” estável. A Petrobras de fato mudou sua estratégia de preços e deixou de seguir mecanicamente a antiga política de paridade de importação. A empresa procura reduzir a volatilidade dos preços domésticos. Isso, entretanto, não significa que os preços sejam permanentemente estáveis ou determinados diretamente pelo governo. O preço pago pelo consumidor também sofre influência das condições internacionais do petróleo, do câmbio, dos impostos e das margens praticadas nos diferentes elos da cadeia.

Pix: afirmação é essencialmente correta, com uma ressalva

Lula também afirmou que “o Pix é do Brasil, é público, é gratuito”. Nesse caso, a afirmação é majoritariamente correta. O Pix foi criado e é regulado pelo Banco Central do Brasil e funciona como infraestrutura nacional de pagamentos instantâneos. O Banco Central informa que o serviço é gratuito para pessoas físicas e tem custo mais baixo para pessoas jurídicas. Há, contudo, uma ressalva: instituições financeiras podem cobrar tarifas em determinadas operações de pessoas jurídicas. O próprio Banco Central informa que a cobrança para empresas é possível a partir da primeira transação, enquanto pessoas físicas têm gratuidade nas operações ordinárias previstas pelas regras do sistema.

Fronteiras e litoral

A propaganda também afirma que o Brasil possui mais de 16 mil quilômetros de fronteiras terrestres e mais de 8 mil quilômetros de litoral. Os números estão de acordo com as dimensões territoriais utilizadas por órgãos públicos brasileiros.

O que a checagem mostra

O eixo central do programa — a defesa da soberania brasileira — é uma posição política e, portanto, não pode ser classificado como verdadeira ou falsa. Já os números utilizados para sustentar essa narrativa podem ser checados. Nesse aspecto, o programa mistura dados corretos com afirmações que exigem contexto e algumas que não encontram sustentação.

O exemplo mais claro é a afirmação de que o Brasil produz “99% de tudo” o que necessita. Os dados oficiais sobre fertilizantes mostram justamente o contrário: o país ainda depende fortemente de importações para manter sua produção agrícola.

Na área de defesa, os equipamentos apresentados são reais e alguns já estão efetivamente em operação, como o Gripen. A diferença está na origem dos programas: vários deles foram concebidos, contratados ou iniciados antes do atual governo, ainda que algumas entregas tenham ocorrido durante a gestão Lula.

Em resumo, o programa eleitoral de Lula utiliza fatos reais como ponto de partida, mas em alguns casos amplia números, simplifica relações de causa e efeito ou atribui ao atual governo a origem de projetos que começaram em administrações anteriores.

 

Fontes: Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), Ministério de Minas e Energia (MME), Força Aérea Brasileira (FAB), Marinha, Cade, Banco Central, Ministério da Justiça e Polícia Federal.

 

Créditos: Ana Zimermann Acesse nosso canal no WhatsApp