Professora critica cartilha da Seed e denuncia pressão por metas: "Como não adoecer?"
Vídeo de professora viraliza ao contestar orientações sobre saúde mental e reacende debate sobre sobrecarga, pressão por resultados e adoecimento na rede estadual
Por Gazeta do Paraná
Créditos: AEN
A divulgação de uma cartilha sobre saúde mental pela Secretaria de Estado da Educação do Paraná (Seed), distribuída aos professores no retorno às aulas, desencadeou uma onda de críticas entre profissionais da rede estadual. O material, que apresenta orientações de autocuidado, como reduzir o consumo de bebidas energéticas, fazer caminhadas ao ar livre e desenvolver a chamada "alfabetização emocional", passou a ser alvo de questionamentos após um vídeo gravado pela professora Geórgia Kimura, do Núcleo Sindical de Maringá da APP-Sindicato, ganhar grande repercussão nas redes sociais.
Na gravação, a educadora afirma que as recomendações da cartilha ignoram aquilo que, segundo ela, representa a principal causa do adoecimento da categoria: a pressão diária vivida dentro das escolas.
"Falam muito dos atestados médicos, mas pouco se discute o que está acontecendo para que tantos professores não consigam suportar a rotina escolar", afirma Geórgia no vídeo.
Segundo a professora, o problema da saúde mental entre os educadores não está relacionado apenas a hábitos individuais, mas às condições de trabalho impostas pela política educacional da rede estadual.
Entre as críticas apresentadas, ela afirma que existe pressão sobre diretores e equipes pedagógicas para manter elevados os indicadores de desempenho das escolas. De acordo com a educadora, isso acabaria resultando em cobranças para evitar reprovações e garantir melhores índices de aprovação.
"Como não adoecer diante da maquiagem que a Secretaria de Educação faz a gente fazer? Burlando frequência, nota e aprovação. Esse aluno não mereceu passar de ano? Pois ele passou para não cair o ranking da escola", afirma.
As declarações repercutiram entre professores e reacenderam um debate antigo sobre as metas estabelecidas para as escolas estaduais e o impacto dessas políticas sobre o ambiente de trabalho.
Trabalho invade o tempo de descanso
Outro ponto levantado pela professora diz respeito ao aumento das atividades administrativas e ao uso intensivo de plataformas digitais adotadas pela Seed.
Segundo Geórgia, a secretaria incentiva o desenvolvimento de projetos integradores e ações interdisciplinares sem ampliar o tempo destinado à hora-atividade, período reservado ao planejamento das aulas.
Na prática, afirma, muitos professores acabam utilizando o WhatsApp e outras ferramentas digitais fora do expediente para organizar atividades com colegas.
"Como vocês exigem um projeto integrador se não dão o mínimo, que é tempo para os professores se encontrarem? O professor resolve isso trabalhando pelo WhatsApp. Ele nunca consegue se desconectar dos problemas da escola", declarou.
Para ela, o resultado é uma rotina marcada pela sobrecarga permanente, em que o trabalho ultrapassa os limites da jornada oficial.
"O problema da saúde mental está muito mais embaixo. Não é com 15 slides que vocês vão resolver isso", conclui.
APP cobra mudanças
As críticas da professora foram reforçadas pela APP-Sindicato, que afirma há anos denunciar o aumento do adoecimento entre os profissionais da educação.
A secretária de Saúde e Previdência da entidade, Tereza Lemos, afirma que o sindicato defende mudanças estruturais para enfrentar o problema.
Entre as reivindicações estão a ampliação da hora-atividade para 33% da jornada, realização de concursos públicos, reajuste salarial, fim da perda remuneratória para professores afastados por motivo de saúde, extinção do Programa de Acompanhamento Pedagógico e revisão das plataformas digitais utilizadas pela rede.
Segundo a dirigente, o vídeo divulgado por Geórgia retrata uma realidade enfrentada diariamente pelos educadores.
Dados apontam crescimento dos afastamentos
A APP-Sindicato também cita dados oficiais e pesquisas para sustentar que o adoecimento dos profissionais da educação deixou de ser um problema isolado.
Conforme levantamento da Secretaria de Estado da Administração (Seap), mais de 8,9 mil professores da rede estadual do Paraná foram afastados em 2024 por transtornos relacionados à saúde mental, tornando esse o principal motivo das licenças médicas na educação estadual.
Outro estudo, realizado em 2023 pela APP-Sindicato em parceria com o Instituto Pesquisas de Opinião (IPO), mostrou que 83% dos professores entrevistados afirmaram que as plataformas digitais implantadas pela Seed não melhoraram o aprendizado dos estudantes. Para 40,3% dos participantes, o rendimento dos alunos teria, inclusive, piorado.
A mesma pesquisa apontou que mais de 70% dos profissionais relataram impactos negativos à saúde associados ao uso intensivo dessas ferramentas tecnológicas, além de perda de autonomia pedagógica e aumento das cobranças por resultados.
Já um levantamento realizado pelo Instituto Dados para Um Debate Democrático na Educação (D3e), em parceria com a Fundação Carlos Chagas (FCC) e o Itaú Social, identificou que mais de 30% dos professores do ensino fundamental convivem com situações de sobrecarga de trabalho e assédio moral.
Segundo a APP-Sindicato, esses indicadores demonstram que o problema exige medidas estruturais e não apenas ações voltadas ao autocuidado.
Até o momento, a Secretaria de Estado da Educação não havia se manifestado sobre as declarações da professora Geórgia Kimura e sobre as críticas apresentadas pela APP-Sindicato. Caso haja posicionamento oficial, a reportagem será atualizada.
