Créditos: Arquivo AEN
Preço do ovo de Páscoa 2026: cacau cai, mas chocolate segue caro
Levantamento da Gazeta mostra variação de até mais de 100% no preço por grama; setor projeta crescimento nas vendas, mas especialista prevê alta moderada.
A Páscoa se aproxima e, como acontece em todos os anos, já tem parreiras em supermercados exibindo as embalagens coloridas, personagens licenciados e ovos de chocolate de todos os tamanhos. É o encanto da Páscoa que já vai chamando a atenção de quem começa a fazer as contas antes de colocar o produto no carrinho.
Para o consumidor, a tradição mistura afeto e muito, mas muito cálculo. É a velha máxima de manter a celebração por conta do simbolismo, mas encontrar um boa oportunidade de compra.
Em 2026, a discussão ganha um novo elemento: a queda do cacau no mercado internacional, e como isso reflete ou não, no bolso do consumidor
Embora o preço da commodity tenha recuado nos últimos meses, após atingir picos históricos em 2024, a redução ainda não deve aparecer nesta Páscoa. Segundo a economista Bia Santos, o efeito da queda da matéria-prima tende a ser perene e só deve aparecer de forma mais perceptível a partir do meio do ano. “O preço do cacau despencou nas bolsas internacionais em relação aos picos do ano passado, mas a indústria trabalha com contratos futuros, muitas vezes fechados com até 12 meses de antecedência. Isso significa que o chocolate que está sendo vendido agora pode ter sido produzido com matéria-prima comprada quando o custo ainda estava elevado”, explica.
Bia acrescenta que a recente valorização do real frente ao dólar também contribui para aliviar parte dos custos de importação e de insumos dolarizados. Ainda assim, não há espaço para um “corte mágico” nos preços. “O consumidor pode perceber um alívio gradual, mas não deve esperar chocolate baratíssimo da noite para o dia.”
Levantamento realizado pela Gazeta nas três principais redes de supermercados da cidade mostra que a variação de preços permanece significativa. Foram encontrados ovos de Páscoa de 540 gramas vendidos a R$ 123. No entanto, em outra prateleira, produtos com apenas 200 gramas eram comercializados pelo mesmo valor. Na prática, isso significa que o preço por grama pode mais do que dobrar dependendo da marca e do posicionamento do produto.
Nos itens mais acessíveis, os valores variam entre R$ 55 e R$ 65 para ovos com menos de 200 gramas, reforçando que o consumidor precisa ir além do preço final da embalagem para avaliar o custo-benefício.
Tamanhos
Se o cenário é de preços elevados com variações significativas entre marcas e formatos, a orientação ao consumidor passa a ser estratégica. Bia Santos recomenda atenção ao preço por peso, especialmente ao valor por 100 gramas, como critério mais preciso de comparação. "Um ovo grande pode parecer caro, mas o preço do produto por grama pode ser financeiramente interessante, por exemplo", diz Bia.
“É importante não olhar apenas o preço total da embalagem. Às vezes, um produto aparentemente mais caro tem custo por grama mais vantajoso”, explica. Ela também sugere avaliar a qualidade do chocolate, o teor de cacau e os ingredientes, além de considerar alternativas como barras, tabletes e caixas de bombom, que podem oferecer maior quantidade por um valor menor.
Preços
Do lado do varejo, o superintendente da Associação Paranaense de Supermercados (Apras), Mauricio Bendixen, explica que o preço do chocolate é resultado de uma soma de custos que vai muito além do cacau. A matéria-prima é relevante, mas não é o único elemento que pesa na formação do valor final.
Segundo ele, no caso específico dos ovos de Páscoa, a estrutura de produção é mais complexa do que a das barras tradicionais. Parte do processo envolve logística e manuseio, tendo maior risco de quebra no transporte e na armazenagem, além de exigir cuidados adicionais. “O ovo é muito mais sensível. Qualquer batida pode comprometer o produto, o que aumenta o custo operacional”, afirma.
Outro fator é o posicionamento do produto como presente. Ovos geralmente utilizam chocolates considerados premium, embalagens mais elaboradas e, em muitos casos, incluem brinquedos ou itens licenciados, o que encarece o valor final. “Não é só a gramatura. Existe todo um custo de licenciamento, embalagem e estratégia de marca que entra nessa conta”, explica.
Além disso, impostos e o chamado “custo Brasil” também influenciam, ainda que não sejam apontados como o principal fator. A combinação desses elementos, segundo o Superintendente, ajuda a entender por que, mesmo com a queda do cacau, o preço nas gôndolas ainda permanece elevado.
Mas o consumidor pode encontrar diferenças significativas entre as redes. Vale muito ficar atento às promoções. Segundo Bendixen, cada mercado tem autonomia total para definir suas estratégias comerciais, inclusive no período da Páscoa. A concorrência, segundo ele, é parte central do funcionamento do setor. A exposição dos ovos logo após o Carnaval não acontece por acaso. Além de antecipar o clima da data, permite que os consumidores comparem valores com mais antecedência, e que as próprias redes acompanhem os preços praticados pelos concorrentes. “Se uma rede baixa o valor, a outra observa. Ninguém quer perder venda. Existe sempre o receio de sobra e quebra de estoque”, afirma.
Para a especialista em economia, acompanhar essas movimentações pode gerar economia. Ela recomenda observar as promoções nas semanas que antecedem a Páscoa e também no período posterior à data, quando os estoques remanescentes costumam ter redução expressiva de preço. "Nas semanas que antecedem a Páscoa, muitas redes ampliam promoções e grupos de compra (clubes do mercado) costumam liberar ofertas melhores. Também vale ficar de olho nos preços pós Páscoa, que costumam despencar", avalia Bia.
Expectativas
Maurício Bendixen, afirma que desempenho da Páscoa de 2025 foi positivo, mesmo com preços considerados elevados. “Vendeu praticamente tudo”, afirma. Para ele, o calendário teve papel decisivo. No ano passado, a data coincidiu com feriado prolongado, o que aumentou a circulação nos supermercados e impulsionou encontros familiares, cenário que eleva o consumo.
Para 2026, a avaliação também é favorável. A proximidade da data com o início do mês, período em que há pagamento de salários, pode estimular as compras. Bendixen cita ainda fatores como massa salarial maior, desemprego em patamar mais baixo e um ambiente de consumo mais otimista em relação ao ano anterior. A indústria, segundo ele, projeta crescimento de dois dígitos nas vendas, acima de 10%.
“Existe uma expectativa bastante positiva, principalmente por causa dos lançamentos e novidades nas linhas de barras e caixas de bombom”, afirma. Ele observa que, enquanto a produção de ovos de Páscoa permanece relativamente estável há alguns anos, o crescimento tem ocorrido com maior força em outros formatos, considerados mais acessíveis e com melhor custo-benefício.
A avaliação da economista Bia Santos é mais moderada. Para ela, embora o cenário seja menos pressionado do que em 2024 e 2025, não há elementos suficientes para prever um “boom” de consumo. A tendência, segundo a especialista, é de estabilidade ou leve crescimento, sustentado pelo câmbio mais favorável e por eventual espaço para promoções.
“O dólar mais barato frente ao real ajuda a aliviar custos de insumos importados, embalagens e matérias-primas cotadas em moeda estrangeira. Isso pode abrir margem para ofertas mais competitivas, mas não significa explosão de vendas”, pondera.
"Geração saúde"
Outro ponto abordado por Bendixen diz respeito a um debate que ganhou espaço recentemente: o possível impacto das chamadas “canetas emagrecedoras” no consumo de chocolate. Para o representante do varejo, a tese ainda não se sustenta no Brasil.
Ele afirma que não há dados concretos indicando queda nas vendas por causa do uso desses medicamentos. Segundo ele, trata-se de um nicho específico, com acesso restrito devido ao alto custo. “No Brasil, isso ainda é mito. Não percebemos impacto nas vendas”, diz. Ele menciona que, nos Estados Unidos, estudos apontam redução de cerca de 5% no consumo entre usuários desses medicamentos, mas ressalta que o fenômeno ainda não é representativo no mercado brasileiro.
Para Bendixen, a mudança de comportamento do consumidor está mais ligada a uma tendência ampla da chamada geração saúde, do que ao uso pontual de medicamentos
