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Quebra de safra no Paraná faz preço do feijão carioca subir mais de 20% em março
Puxada pelo feijão e carne, cesta básica compromete 48% da renda líquida do trabalhador; São Paulo segue com o custo mais alto do país, chegando a R$ 883
O custo da cesta básica registrou aumento em todas as 27 capitais brasileiras no mês de março, conforme levantamento do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos em conjunto com a Companhia Nacional de Abastecimento. O avanço foi puxado principalmente pela alta de alimentos essenciais, como feijão, batata, tomate, carne bovina e leite.
Entre as capitais, São Paulo segue com o maior valor médio para aquisição dos produtos básicos, chegando a R$ 883,94. Na outra ponta, Aracaju apresentou o menor custo, com média de R$ 598,45. Além da capital paulista, cidades como Rio de Janeiro, Cuiabá, Florianópolis e Campo Grande também figuram entre as mais caras, todas com valores próximos ou acima de R$ 800.
Os aumentos mais expressivos foram registrados em Manaus, Salvador e Recife, com variações superiores a 6%. Também tiveram elevação relevante cidades como Maceió, Belo Horizonte, Aracaju, Natal, Cuiabá, João Pessoa e Fortaleza, indicando um movimento disseminado de alta nos preços dos alimentos em diferentes regiões do país.
O levantamento aponta que as condições climáticas tiveram papel decisivo nesse cenário. As chuvas intensas nas principais áreas produtoras impactaram diretamente a oferta de itens como feijão, batata e tomate, pressionando os preços. Em sentido contrário, o açúcar apresentou queda em 19 capitais, influenciado pelo aumento da oferta no mercado.
Com o salário mínimo fixado em R$ 1.621, o trabalhador brasileiro precisou comprometer uma parcela significativa da renda para adquirir a cesta básica. Em média, foram necessárias cerca de 109 horas de trabalho para custear os alimentos nas capitais analisadas. Ainda assim, proporcionalmente à renda, houve leve melhora em relação ao ano anterior.
Considerando o salário mínimo líquido, após o desconto da Previdência, o comprometimento médio da renda chegou a 48,12% em março. No mês anterior, esse percentual era de 46,13%. Já em março de 2025, o índice estava mais elevado, atingindo 52,29%, o que indica uma redução na pressão relativa, apesar dos preços mais altos.
O tempo médio necessário para aquisição dos produtos também aumentou. Em março, foram 97 horas e 55 minutos de trabalho, frente a 93 horas e 53 minutos em fevereiro. Na comparação anual, houve redução, já que em março de 2025 eram necessárias mais de 106 horas para a mesma compra.
Na análise dos últimos 12 meses, o estudo identificou aumento do custo da cesta em 13 capitais e queda em quatro. Aracaju, Salvador e Recife lideraram as altas no período, enquanto Brasília e Florianópolis registraram as principais reduções. A comparação anual considera apenas 17 capitais, devido à ausência de coleta mensal em algumas cidades.
Entre os produtos, o feijão foi um dos principais responsáveis pela elevação dos preços, com aumento em todas as capitais pesquisadas. O tipo preto, mais consumido na Região Sul, apresentou altas moderadas, enquanto o feijão carioca, predominante em outras regiões, teve variações mais acentuadas, chegando a ultrapassar 20% em algumas cidades.
A alta do feijão está relacionada à redução da oferta, causada por dificuldades na colheita, menor área plantada na primeira safra e expectativa de queda na produção da segunda safra. Problemas climáticos, especialmente no Paraná e na Bahia, também contribuíram para a diminuição da produtividade.
Segundo especialistas do setor, a redução da produção impacta diretamente o mercado, já que menos produtores conseguem colher em volume suficiente, o que eleva os preços. Há ainda preocupação com a variação entre os tipos de feijão, já que o carioca, mais consumido no país, enfrenta menor estímulo de mercado e pouca inserção internacional.
Atualmente, o feijão carioca pode atingir valores próximos de R$ 350 por saca, com expectativa de recuo apenas no segundo semestre, durante a safra irrigada. Já o feijão preto, que possui maior estoque, gira em torno de R$ 200 a R$ 210, mas também pode sofrer pressão de alta nos próximos meses devido à menor área plantada.
A Companhia Nacional de Abastecimento estima produção superior a 3 milhões de toneladas, com leve crescimento em relação ao ciclo anterior. No entanto, fatores como custos de insumos e combustíveis ainda geram incerteza sobre o comportamento dos preços ao longo do ano.
O estudo também calcula o valor ideal do salário mínimo necessário para garantir o sustento de uma família de quatro pessoas, considerando despesas básicas previstas na Constituição. Em março, esse valor foi estimado em R$ 7.425,99, o equivalente a 4,58 vezes o mínimo atual. Em fevereiro, o necessário era de R$ 7.164,94, enquanto em março do ano passado o valor estimado era de R$ 7.398,94.
Os dados reforçam o impacto contínuo da inflação dos alimentos no orçamento das famílias brasileiras e indicam que, apesar de alguma melhora proporcional, o custo de vida segue elevado nas principais capitais do país.
