Por que comemorar 110 anos justamente em ano eleitoral? Evento do Turismo vira alvo do MPE
Representação do SINDIPROM questiona jantar dos “110 anos do Turismo Paraná”, uso da estrutura do CEPATUR, origem dos recursos e eventual exposição privilegiada de candidatos
Por Gazeta do Paraná
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Os recursos e a estrutura institucional ligados ao turismo paranaense ganharam uma nova frente de questionamentos. Depois de contratações e patrocínios do setor serem levados ao Tribunal de Contas, Ministério Público e Justiça, agora um evento realizado em pleno ano eleitoral entrou no radar do Ministério Público Eleitoral (MPE).
E a pergunta que está no centro da nova controvérsia é simples: por que comemorar 110 anos justamente agora?
O Sindicato das Empresas Promotoras de Eventos do Estado do Paraná (SINDIPROM/PR) protocolou representação questionando a realização do evento denominado “110 anos do Turismo Paraná”, realizado em Curitiba e associado à 100ª reunião do Conselho Estadual de Turismo (CEPATUR).
Segundo o sindicato, a representação já resultou na abertura de procedimento pelo Ministério Público Eleitoral para apuração dos fatos.
Entre os pontos levantados estão a utilização da estrutura institucional do CEPATUR, a participação do Governo do Estado, a realização de jantar com autoridades e agentes políticos, a origem dos recursos utilizados e a possibilidade de o evento ter proporcionado benefício político-eleitoral a determinadas candidaturas.
Os 100 passaram, mas os 110 ganharam festa
Um dos argumentos utilizados pelo SINDIPROM chama atenção pela peculiaridade.
Segundo a entidade, o turismo paranaense chegou aos 100 anos sem uma comemoração institucional de dimensão semelhante. Dez anos depois, porém, houve uma grande mobilização para celebrar os chamados “110 anos do Turismo Paraná” — justamente em 2026, ano eleitoral.
A comemoração ainda foi associada à 100ª reunião do CEPATUR. “Se não houve uma grande comemoração quando o turismo completou 100 anos, por que decidiram comemorar os 110 anos justamente em um ano eleitoral?”, questiona o sindicato.
A coincidência não comprova finalidade eleitoral. Para o SINDIPROM, entretanto, a escolha da data, somada à presença de agentes políticos e ao envolvimento de estruturas institucionais do turismo, precisa ser esclarecida.
Agora caberá ao Ministério Público Eleitoral verificar as circunstâncias da realização da comemoração e se houve eventual utilização político-eleitoral da estrutura pública.
Candidatos no evento
A representação também pede a apuração da presença e da eventual exposição obtida por políticos que disputam as eleições deste ano.
Entre eles está Sandro Alex, candidato ao Governo do Paraná pelo PSD. Também é mencionada a participação de Leonardo Paranhos, candidato a deputado federal e ex-secretário de Estado, além do governador e de outros integrantes da estrutura governamental.
O sindicato quer que seja verificado se houve tratamento diferenciado ou exposição privilegiada de determinadas candidaturas e, ainda, se outros concorrentes tiveram oportunidade equivalente de participação.
A presença de candidatos em um evento, isoladamente, não configura irregularidade eleitoral. O que a representação coloca sob análise é o contexto: quem organizou a celebração, quais recursos foram empregados e de que maneira os agentes políticos participaram.
Quanto custou o jantar e quem pagou?
Outro ponto central da representação é financeiro. O SINDIPROM quer saber quanto custou o evento e quem pagou a conta.
A entidade solicita a apuração do custo total e da origem dos recursos utilizados, incluindo contratos, notas fiscais, empenhos, pagamentos, patrocínios e despesas com estrutura, alimentação, bebidas, comunicação, pessoal e outros serviços.
Também pede que seja verificada eventual utilização de servidores, veículos, equipamentos, instalações, comunicação institucional ou qualquer outro recurso público.
A intenção é identificar quem efetivamente financiou a comemoração e qual foi a participação do poder público em sua realização.
“O CEPATUR não tem dono”
O Conselho Estadual de Turismo também está no centro dos questionamentos.
O SINDIPROM argumenta que o CEPATUR é um órgão colegiado e plural, integrado por representantes do Poder Público e da sociedade civil, e não poderia ter sua estrutura institucional apropriada em benefício de qualquer grupo político.
“O Conselho Estadual de Turismo não tem dono, partido ou candidato. É uma instituição de todos os segmentos que participam do turismo paranaense e não pode ser transformado em palanque eleitoral”, afirma a entidade.
A representação pede que sejam analisadas atas, deliberações, convocações e documentos referentes à 100ª reunião do Conselho, inclusive para esclarecer como foi tomada a decisão de associá-la à celebração dos “110 anos”.
Também é solicitado esclarecimento sobre a participação do chamado G5 Turismo Paraná na organização e em eventual financiamento do evento.
Turismo já estava sob escrutínio
A nova apuração eleitoral ocorre em um momento no qual a aplicação de recursos públicos no turismo paranaense já é alvo de outros questionamentos.
Como mostrou a Gazeta do Paraná, um conjunto de 364 contratações diretas da Secretaria de Estado do Turismo (SETU), no valor de R$ 56,2 milhões, foi levado aos órgãos de controle.
O dado que mais chama atenção é que 351 das 364 contratações (96,4%) possuem valores múltiplos exatos de R$ 5 mil.
Também estão sob questionamento aproximadamente R$ 62,2 milhões autorizados ao Viaje Paraná entre 2024 e 2026, além dos critérios utilizados para escolha dos eventos, formação dos preços, contrapartidas e prestações de contas.
Agora, a discussão ganha uma nova dimensão. Enquanto as outras medidas concentram questionamentos sobre legalidade, economicidade e transparência dos gastos, a representação do SINDIPROM coloca sob análise eventual utilização político-eleitoral da estrutura ligada ao turismo em pleno 2026.
Agora, MPE quer respostas
O sindicato ressalta que não pretende impedir comemorações relacionadas ao turismo nem antecipar o resultado da investigação.
“Não questionamos o direito de comemorar. Questionamos por que comemorar os 110 anos se não houve mobilização equivalente nos 100 anos; por que utilizar a estrutura do Conselho; quanto custou; quem pagou; quem autorizou; quem organizou e quais agentes políticos foram beneficiados”, afirma o SINDIPROM.
Com a abertura do procedimento, essas perguntas passam agora à análise do Ministério Público Eleitoral.
Será preciso esclarecer quem organizou o evento, quem autorizou sua realização, quanto custou, de onde saiu o dinheiro, qual foi o papel do CEPATUR e se candidatos receberam exposição ou tratamento diferenciado.
Não há, até o momento, conclusão de que tenha ocorrido irregularidade eleitoral.
Mas uma pergunta que começou dentro do próprio setor do turismo agora terá de ser respondida às autoridades: se os 100 anos passaram sem uma mobilização equivalente, por que os 110 ganharam uma grande comemoração justamente em ano eleitoral, e quem pagou por ela?
Créditos: Redação
