Polifenóis podem beneficiar microbiota e influenciar saúde mental
Revisão científica destaca efeitos de compostos presentes em frutas, café e chá-verde sobre as bactérias intestinais e aponta possíveis relações com o eixo intestino-cérebro
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A microbiota intestinal tem ganhado cada vez mais espaço nas pesquisas científicas. Uma revisão publicada recentemente na revista Food & Function analisou os efeitos dos polifenóis, compostos antioxidantes encontrados em frutas, café, chá-verde e outros alimentos, sobre o intestino e suas possíveis repercussões na saúde mental.
Os polifenóis estão entre os principais grupos de compostos bioativos presentes nos vegetais. É o que explica o engenheiro de alimentos Mario Marostica, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), responsável pelo trabalho em parceria com pesquisadores da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF).
Entre os exemplos estão os pigmentos que dão coloração arroxeada e avermelhada a frutas como uva e jabuticaba.
Segundo a literatura científica analisada na revisão, três mecanismos principais ajudam a explicar a relação entre os polifenóis e a microbiota intestinal.
O primeiro está relacionado à ação desses compostos sobre as bactérias do intestino. Eles podem estimular o crescimento de microrganismos associados à saúde e, ao mesmo tempo, reduzir a presença de algumas linhagens potencialmente prejudiciais.
Relação entre intestino e cérebro
O segundo mecanismo envolve as substâncias produzidas durante o metabolismo dos polifenóis. Muitos desses compostos chegam ao intestino grosso praticamente intactos. No local, são transformados pelas bactérias em outras substâncias que podem ser absorvidas com mais facilidade pelo organismo e apresentar atividade biológica.
O terceiro mecanismo envolve os ácidos graxos de cadeia curta (AGCC), produzidos pelas próprias bactérias intestinais. Essas substâncias ajudam a manter a integridade da barreira intestinal.
As alterações provocadas na microbiota também são estudadas por seus possíveis efeitos sobre a saúde mental. A relação é conhecida como eixo intestino-cérebro, uma via de comunicação entre o sistema digestivo e o cérebro.
Essa comunicação envolve, entre outros elementos, neurotransmissores relacionados às sensações de bem-estar, como a serotonina. Embora os polifenóis não atravessem a barreira hematoencefálica, eles podem participar de processos de sinalização capazes de influenciar as emoções.
Como os polifenóis atuam
Uma das formas de comunicação entre intestino e cérebro ocorre por meio do nervo vago. A estrutura começa no tronco cerebral, percorre o organismo até chegar ao intestino e estabelece novamente uma conexão com o cérebro.
Para o nutrólogo Celso Cukier, do Hospital Israelita Albert Einstein, esse mecanismo já é descrito pela ciência e pode, no futuro, ser considerado como um possível complemento no tratamento de problemas como ansiedade e depressão.
“Esse sistema já está bem descrito e pode, futuramente, ser um dos aspectos considerados como coadjuvante no tratamento de males como a ansiedade e a depressão”, comenta.
Cukier considera o estudo da microbiota e do eixo intestino-cérebro uma das áreas mais promissoras da ciência. Na avaliação dele, substâncias como os polifenóis podem ter potencial para atuar em conjunto com medicamentos.
Ainda são necessárias, porém, mais pesquisas para determinar quais compostos apresentam maior atuação, quais quantidades seriam necessárias e quais grupos de pessoas poderiam se beneficiar dessa estratégia.
O que são os polifenóis
Também conhecidos como compostos fenólicos, os polifenóis formam um grupo com cerca de 8 mil substâncias. Eles são divididos em diferentes classes de acordo com sua estrutura química.
Nas plantas, esses compostos são considerados metabólitos secundários. São produzidos durante o desenvolvimento dos vegetais e ajudam na proteção contra situações adversas, como exposição aos raios ultravioleta, períodos de seca e excesso de chuva.
No organismo humano, os polifenóis são conhecidos principalmente pela ação antioxidante. Eles ajudam a neutralizar os radicais livres, moléculas instáveis que precisam de elétrons para alcançar maior estabilidade.
Ao interromper essa sequência de reações, os compostos podem contribuir para reduzir o estresse oxidativo e preservar as células. Estudos também apontam possíveis efeitos anti-inflamatórios.
Onde encontrar polifenóis na alimentação
Entre as diferentes classes de polifenóis, os flavonoides são os mais numerosos. Mais de 5 mil substâncias já foram catalogadas nesse grupo, que também concentra grande parte das evidências sobre os possíveis efeitos desses compostos.
As antocianinas, por exemplo, são flavonoides responsáveis pelas cores arroxeadas e avermelhadas encontradas em alimentos como uva, jabuticaba e açaí.
Nos cítricos, alguns exemplos são a hesperidina e a narirutina. A quercetina pode ser encontrada na cebola e na maçã, enquanto o kaempferol está presente em vegetais como o brócolis.
O chá-verde é fonte de catequinas. Já o café apresenta outros tipos de polifenóis, os ácidos fenólicos, entre eles o ácido cafeico. Frutas vermelhas também fornecem compostos como o ácido gálico.
Para aumentar a presença desses nutrientes na alimentação, a recomendação do pesquisador da Unicamp é apostar em uma dieta variada, com frutas, hortaliças e outros vegetais.
“Outro ponto importante é a regularidade, isso porque os efeitos dos compostos fenólicos parecem estar mais relacionados ao consumo habitual do que à ingestão esporádica e em grandes quantidades”, recomenda Marostica.
A presença dos polifenóis na alimentação, segundo os especialistas citados, deve ser considerada dentro de um estilo de vida saudável. Além de uma alimentação equilibrada, entram nesse conjunto a prática de atividade física, boas noites de sono e o controle do estresse.
