Setembro/2026

PF aponta que Vorcaro sabia da operação e planejou deixar o país antes de ser preso

Documento liberado pelo STF detalha movimentações do ex-banqueiro nos dias anteriores à Compliance Zero e aponta contatos com advogados, Banco Central e autoridades

Por Repórter Gazeta do Paraná

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PF aponta que Vorcaro sabia da operação e planejou deixar o país antes de ser preso Créditos: Secretaria da Administração Penitenciária-SP

Um documento da Polícia Federal, cujo sigilo foi retirado nesta quinta-feira (10), detalha as movimentações de Daniel Vorcaro nos dias que antecederam a primeira fase da Operação Compliance Zero e aponta que o ex-banqueiro tinha conhecimento de que uma ação policial estava prestes a ser deflagrada. Segundo a PF, as informações reunidas reforçam a suspeita de que Vorcaro planejava deixar o Brasil e que sua viagem ao exterior, na noite anterior à prisão, não teria sido uma coincidência.

O relatório integra as investigações relacionadas ao Banco Master e foi tornado público após a retirada do sigilo de procedimentos que tramitam no Supremo Tribunal Federal. A PF reconstruiu, a partir de mensagens, registros e documentos apreendidos, uma sequência de acontecimentos que teria começado semanas antes da operação.

Segundo os investigadores, Vorcaro registrou em seu aplicativo de notas, em 21 de outubro de 2025, os nomes de representantes da Polícia Federal que haviam participado de uma reunião reservada com o Banco Central. Para a PF, o registro indica que o empresário tinha acesso antecipado a informações que deveriam ser tratadas de forma restrita.

A suspeita se intensifica, de acordo com o relatório, em 16 de novembro, dois dias antes da operação. Naquele momento, Vorcaro teria feito uma nova anotação questionando a eventual proximidade de uma terceira pessoa com o juiz federal Ricardo Soares Leite, responsável por autorizar medidas judiciais contra ele.

A operação, até então sigilosa, só seria oficialmente deflagrada em 18 de novembro.

MUDANÇA DE PLANOS

Na manhã de 17 de novembro, um dia antes da operação, Vorcaro recebeu mensagens consideradas urgentes de seu advogado, Walfrido Warde. Pouco depois, segundo a PF, o ex-banqueiro mudou seus planos e informou que providenciaria um voo com saída do aeroporto de Congonhas.

A movimentação ocorreu paralelamente a uma série de contatos relacionados à investigação.

Ainda naquela manhã, Vorcaro conversou com o jornalista Diego Escosteguy sobre uma reportagem que seria publicada. Depois das 11h, recebeu o conteúdo da publicação e imediatamente o encaminhou ao advogado.

A reportagem mencionava a existência de um inquérito em tramitação na 10ª Vara Federal de Brasília. Segundo a PF, a informação foi utilizada por Warde para protocolar uma petição solicitando acesso ao conteúdo da investigação.

Ao longo daquele dia, advogado e cliente continuaram tratando do assunto e discutindo a possibilidade de contato com o juiz responsável pelo caso.

Para a Polícia Federal, a sequência dos acontecimentos demonstra que Vorcaro acompanhava de perto informações relacionadas à investigação e buscava antecipar os possíveis movimentos das autoridades.

CONTATOS COM O BANCO CENTRAL

Outro ponto destacado no documento envolve os contatos de Vorcaro com servidores do Banco Central.

Desde o início da manhã de 17 de novembro, o ex-banqueiro manteve comunicação com Paulo Sérgio e Belline, servidores que aparecem nas investigações por supostamente terem atuado em favor dos interesses do Banco Master.

Segundo a PF, os contatos evoluíram para a necessidade de uma conversa com o então diretor do Banco Central, Ailton Aquino.

A reunião foi articulada para o mesmo dia. Vorcaro sugeriu 13h, Paulo Sérgio confirmou o horário e, posteriormente, Belline encaminhou o link para a reunião virtual.

Depois do encontro, começou a circular uma notícia sobre uma possível venda do Banco Master ao Grupo Fictor.

Para os investigadores, a sequência dos fatos é relevante porque a negociação teria sido divulgada publicamente pouco depois da reunião. A PF aponta que a movimentação demonstra uma articulação entre Vorcaro e servidores do Banco Central em um momento considerado crítico para o banco.

O relatório sustenta ainda que servidores que deveriam exercer funções de fiscalização teriam atuado em favor dos interesses privados do banqueiro. As suspeitas são objeto de investigação e as defesas dos envolvidos negam irregularidades.

TENTATIVA DE SAÍDA

Na noite de 17 de novembro, Vorcaro foi interceptado no aeroporto de Guarulhos, em São Paulo, quando se preparava para embarcar em um jato particular com destino final aos Emirados Árabes.

A Polícia Federal afirma que a combinação entre as informações obtidas, a mudança repentina de planos e a viagem internacional planejada reforça a hipótese de tentativa de deixar o país antes da operação.

No dia seguinte, 18 de novembro de 2025, foi deflagrada oficialmente a primeira fase da Operação Compliance Zero.

Vorcaro acabou preso antes de conseguir embarcar.

Cerca de dez dias depois, o Tribunal Regional Federal da 1ª Região determinou a soltura do ex-banqueiro e de outros executivos do Banco Master. A decisão considerou, entre outros elementos, informações relacionadas a uma reunião realizada com o Banco Central.

Posteriormente, a Polícia Federal utilizou os novos elementos reunidos na investigação para fundamentar um novo pedido de prisão preventiva.

Em 27 de fevereiro de 2026, a PF apresentou o pedido. Em março, Vorcaro voltou a ser preso durante uma nova fase da operação.

MENSSAGENS COM MORAES

O documento divulgado agora também se soma a mensagens já reveladas entre Vorcaro e o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal.

Em uma conversa de 15 de novembro de 2025, dois dias antes da prisão, Vorcaro perguntou ao ministro: “Acha que segunda já tenho que estar fora?”.

Dois dias depois, na noite de 17 de novembro, ele foi preso pela Polícia Federal no aeroporto de Guarulhos.

As mensagens integram outro relatório da PF e passaram a fazer parte do conjunto de documentos públicos relacionados ao caso Master.

A existência dos diálogos aumentou a pressão sobre as relações mantidas por Vorcaro com autoridades e integrantes de instituições públicas. O conteúdo, porém, precisa ser analisado dentro do conjunto das investigações, que ainda estão em andamento.

A PF afirma que os elementos reunidos apontam para uma estrutura de relações entre o ex-banqueiro, servidores públicos, advogados e outros interlocutores que teria permitido o acesso antecipado a informações e a articulação de medidas para proteger os interesses do Banco Master.

O relatório também menciona suspeitas de que Vorcaro teria utilizado servidores do Banco Central para viabilizar reuniões e obter informações internas. Essas acusações ainda serão submetidas à análise judicial e às manifestações das defesas.

O caso ganhou nova dimensão com a retirada do sigilo dos procedimentos pelo STF. A divulgação dos documentos permite agora que as circunstâncias que antecederam a primeira prisão de Vorcaro sejam analisadas de forma mais ampla e coloca no centro da investigação a suspeita de vazamento de informações, articulações dentro de órgãos públicos e uma possível tentativa de fuga do país.

As investigações continuam para esclarecer a extensão dessas relações e se houve participação de agentes públicos ou privados em eventuais irregularidades relacionadas ao Banco Master e à Operação Compliance Zero.

Foto: Divulgação 

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