PF aciona Interpol para rastrear patrimônio de Daniel Vorcaro no exterior em investigação sobre Banco Master
Polícia Federal quer localizar imóveis, contas bancárias, empresas, aeronaves e outros ativos ligados ao empresário na América do Norte e na Europa
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A Polícia Federal (PF) acionou a Interpol para localizar bens e ativos do empresário Daniel Vorcaro na América do Norte e na Europa, ampliando a investigação que apura um suposto esquema de corrupção, lavagem de dinheiro e outros crimes envolvendo o Banco Master. A medida, que vinha sendo estudada há alguns meses, foi confirmada por investigadores ouvidos pela BBC News Brasil.
Segundo os investigadores, o pedido foi feito por meio da ferramenta conhecida como Silver Notice (Alerta Prata), mecanismo implementado recentemente pela Interpol para rastrear internacionalmente bens ligados a pessoas investigadas ou condenadas por crimes financeiros.
A expectativa da Polícia Federal é de que Daniel Vorcaro possua um patrimônio milionário distribuído em diversos países, resultado, ao menos em parte, das atividades investigadas no comando do conglomerado financeiro liderado pelo Banco Master. O grupo entrou em colapso e deixou um rombo estimado em R$ 52 bilhões junto ao Fundo Garantidor de Crédito (FGC).
Pedido busca identificar patrimônio no exterior
A solicitação enviada à Interpol pede que autoridades policiais dos países envolvidos informem se existem imóveis, empresas, contas bancárias, embarcações, aeronaves ou outros bens registrados em nome de Daniel Vorcaro ou vinculados a ele por meio de empresas.
Segundo a PF, essas informações poderão embasar futuras decisões judiciais para bloqueio, confisco e eventual repatriação de patrimônio, caso seja comprovada a origem ilícita dos recursos. Até o momento, porém, os países acionados ainda não responderam sobre a existência de ativos ligados ao empresário.
Os investigadores também suspeitam que parte dos bens tenha sido pulverizada em propriedades, empresas e fundos de investimento localizados em diferentes países, incluindo paraísos fiscais. O receio é que esse patrimônio seja ocultado, transferido para terceiros ou vendido antes da conclusão das investigações.
Patrimônio é alvo central da investigação
Desde a deflagração da Operação Compliance Zero, em novembro de 2025, localizar os bens de Daniel Vorcaro passou a ser um dos principais objetivos da Polícia Federal.
Documentos obtidos durante a investigação apontam que o empresário mantinha um padrão de vida de alto luxo desde que assumiu o controle do Banco Master, em 2019. Entre os episódios citados estão uma festa de aniversário para a filha realizada em uma ilha particular nas Bahamas, em 2021, com custo estimado em R$ 5 milhões, além de um evento promovido em 2023, na cidade italiana de Taormina, na Sicília.
Segundo a investigação, essa festa teria consumido aproximadamente R$ 363,2 milhões entre produção, hospedagem, acomodações e contratação de atrações musicais internacionais, como Coldplay e Michael Bublé.
Dados apresentados durante a Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS mostram que Vorcaro declarou patrimônio de R$ 2,4 bilhões à Receita Federal em 2024. No entanto, investigadores acreditam que os bens possam superar esse valor, tornando essencial identificar sua localização para eventual recuperação de recursos.
Mansão na Flórida e acordo frustrado
Entre os bens já mencionados nas investigações está uma mansão avaliada em aproximadamente R$ 180 milhões na Flórida, nos Estados Unidos.
Segundo informações citadas pela investigação, o imóvel teria sido colocado à venda pelo pai do empresário, Henrique Vorcaro, também investigado na Operação Compliance Zero. Apesar disso, a Polícia Federal afirma que ainda não possui um mapa completo dos ativos eventualmente mantidos no exterior.
A falta dessas informações, inclusive, teria impedido o avanço de um acordo de colaboração premiada entre Daniel Vorcaro, a Polícia Federal e a Procuradoria-Geral da República (PGR).
De acordo com investigadores, durante as negociações o empresário não teria informado a localização de parte de seu patrimônio, o que inviabilizou o entendimento. Desde março deste ano, Vorcaro permanece preso em uma penitenciária de Brasília.
Outra frente de investigação já atua nos Estados Unidos
O acionamento da Interpol representa a segunda frente internacional voltada à localização dos bens do empresário.
Em abril deste ano, a Justiça dos Estados Unidos autorizou o liquidante responsável pelo Banco Master a realizar consultas junto a instituições financeiras norte-americanas para identificar imóveis, recursos financeiros, fundos de investimento e até obras de arte eventualmente vinculados a Daniel Vorcaro.
Operação investiga suposto esquema financeiro
A Operação Compliance Zero foi deflagrada pela Polícia Federal em novembro de 2025 e investiga supostos crimes contra o sistema financeiro nacional.
Segundo a PF, uma das principais suspeitas envolve a tentativa de venda de ativos do Banco Master ao Banco de Brasília (BRB) por R$ 12 bilhões. A investigação aponta que a operação buscava evitar o colapso da instituição por meio da negociação de ativos que estariam supervalorizados ou sem lastro suficiente.
As investigações também apuram uma suposta captação irregular de recursos de Regimes Próprios de Previdência Social (RPPS), fundos responsáveis pelas aposentadorias de servidores públicos de estados e municípios. A suspeita é de que esses investimentos tenham ocorrido mediante influência política de pessoas ligadas ao empresário. A defesa de Daniel Vorcaro nega a prática de qualquer irregularidade.
Caso também envolve políticos e ministros
A investigação da Polícia Federal alcançou ainda supostas relações de Daniel Vorcaro com integrantes do Judiciário e parlamentares.
Entre os citados estão os ministros do Supremo Tribunal Federal Dias Toffoli e Alexandre de Moraes, além dos senadores Ciro Nogueira (PP-PI), Jaques Wagner (PT-BA) e Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Todos negam ter cometido irregularidades.
No caso de Toffoli, o ministro pediu a redistribuição do processo após questionamentos envolvendo uma empresa familiar ligada a um fundo controlado por um cunhado de Vorcaro. Alexandre de Moraes também teve seu nome citado em reportagens sobre contratos e supostas mensagens, mas o STF informou que análises técnicas não confirmaram os contatos atribuídos ao ministro.
Já em relação aos parlamentares, a PF investiga supostas vantagens econômicas concedidas por Daniel Vorcaro ou pessoas ligadas ao empresário. As suspeitas envolvem, entre outros pontos, emendas parlamentares, pagamento de despesas e apoio a projetos de interesse do Banco Master.
As defesas dos parlamentares também negam qualquer prática ilícita
