OMS declara emergência global após avanço de novo surto de Ebola na África
Variante rara do vírus, conflitos armados e precariedade da saúde pública dificultam controle da doença na República Democrática do Congo e em Uganda
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A Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou emergência global diante do avanço de um novo surto de Ebola que atinge a República Democrática do Congo (RDC) e já registra casos em Uganda. A rápida disseminação da doença, associada a dificuldades estruturais e à circulação de uma variante rara do vírus, tem elevado o alerta das autoridades internacionais de saúde.
Segundo estimativas das autoridades congolesas, ao menos 91 pessoas morreram nas últimas semanas. Outros 350 casos são considerados suspeitos, com maior incidência entre adultos de 20 a 39 anos. A OMS teme que o contágio ultrapasse as fronteiras da RDC, principalmente devido ao intenso fluxo populacional na região afetada.
O epicentro do surto está localizado na província de Ituri, no leste da República Democrática do Congo. A região enfrenta problemas históricos de infraestrutura, conflitos armados e dificuldades no acesso a serviços básicos de saúde. A precariedade da malha rodoviária e a distância da capital, Kinshasa, dificultam o deslocamento de equipes médicas e o atendimento rápido às comunidades afetadas.
O Ebola é transmitido pelo contato com fluidos corporais de pessoas infectadas, como sangue, vômito e sêmen. Também pode ocorrer contaminação por objetos infectados, materiais hospitalares e contato com animais portadores do vírus, como morcegos e primatas. Cerimônias fúnebres com contato direto com os corpos das vítimas continuam sendo uma das principais formas de disseminação da doença.
Autoridades locais apontam que o atual surto pode ter se intensificado após a realização de uma procissão funerária com caixão aberto na cidade de Mongbwalu, área mineradora considerada o centro da crise sanitária.
O surto atual é provocado pela variante Bundibugyo, considerada rara e mais difícil de controlar. O vírus foi identificado anteriormente apenas em dois episódios: em Uganda, entre 2007 e 2008, e na RDC, em 2012. Até o momento, não há vacina ou tratamento específico para essa cepa do Ebola.
Especialistas alertam que os sintomas iniciais da variante Bundibugyo são semelhantes aos da gripe e da malária, o que atrasa o diagnóstico e aumenta o risco de transmissão. Além disso, algumas comunidades têm associado os casos a crenças místicas e procurado centros religiosos em vez de atendimento médico.
A situação também é agravada pela insegurança na região. Dados divulgados pela OMS indicam que, desde janeiro de 2025, foram registrados 44 ataques contra unidades de saúde na RDC e mais de 740 incidentes envolvendo profissionais humanitários. A presença de grupos armados e os deslocamentos populacionais constantes dificultam ainda mais o controle epidemiológico.
O virologista Jean-Jacques Muyembe, um dos cientistas responsáveis pela descoberta do Ebola na década de 1970, afirmou que o surto tende a se espalhar rapidamente por atingir uma região densamente povoada e marcada por múltiplas crises humanitárias.
Desde o primeiro registro da doença, em 1976, o Ebola já provocou mais de 15 mil mortes no continente africano.
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