Modelo apontado pelo TCE sob gestão de Guto Silva coincide com venda e concentração de imóveis da Copel
Ativos como Faxinal do Céu e Bosque da Copel passam a integrar estrutura privada sob controle de um único dono, após mudança no modelo da estatal
Por Gazeta do Paraná
Créditos: Luiz Costa/SMCS
Em 22 de novembro de 2023, o Tribunal de Contas do Estado do Paraná identificou, em sessão oficial, a existência de um modelo de gestão baseado na chamada “troca de fonte”, mecanismo que permitiu ao governo estadual flexibilizar o uso dos recursos provenientes da Copel. No centro dessa modelagem, o então secretário de Planejamento, Guto Silva, foi apontado como articulador da estratégia.
À época, o foco recaiu sobre o caminho do dinheiro. Pouco mais de um ano depois, o que começa a emergir é o outro lado dessa engrenagem: o destino do patrimônio.
Imóveis estratégicos
A partir de 2024, registros públicos e movimentações empresariais indicam a reorganização de ativos relevantes da Copel.
Entre eles está o complexo de Faxinal do Céu, em Pinhão, com mais de 4,5 milhões de metros quadrados, além de estruturas operacionais e aeroporto. O espaço, que já foi base da usina de Foz do Areia e centro de formação de professores, deixa de figurar como ativo público tradicional.
Outro ponto sensível é o Bosque da Copel, no bairro Bigorrilho, em Curitiba, uma das áreas verdes mais conhecidas da capital. O terreno, com cerca de 47 mil metros quadrados de mata nativa e nascentes, foi parcialmente alienado, sem que fossem divulgados na época detalhes sobre o comprador ou o destino do espaço.
A venda gerou reação imediata. Moradores passaram a relatar preocupação com a preservação ambiental e com a possibilidade de construção de empreendimentos imobiliários na área, incluindo projetos que preveem múltiplos edifícios.
A própria Copel confirmou a negociação do terreno em setembro de 2024, mas declarou não ter informações sobre o uso futuro da área.
Além desses casos, entram na mesma dinâmica áreas ligadas à Usina Parigot de Souza, em Antonina, e terrenos em municípios como Reserva do Iguaçu, Capitão Leônidas Marques e Boa Vista da Aparecida.
Embora os valores das transações não tenham sido divulgados, a dimensão dos ativos indica um volume patrimonial que pode atingir a casa dos bilhões.
A concentração em série
O ponto de inflexão aparece na cronologia. Entre agosto e setembro de 2024, são constituídas, em sequência, diversas sociedades de propósito específico com nomes que reproduzem esses ativos: Faxinal do Céu Empreendimentos, Bosque Padre Agostinho Empreendimentos, Antonina Empreendimentos, Pinhão Empreendimentos, Reserva do Iguaçu Empreendimentos, Capitão Leônidas Marques Empreendimentos, Boa Vista da Aparecida Empreendimentos e Aeródromo Empreendimentos.
Levantamento da reportagem identificou que o advogado Everson José da Silva Talgatti figura como sócio ou administrador em todas as empresas criadas nesse período. A pulverização formal contrasta com um dado objetivo: o controle é centralizado.
Quem é o operador
Everson Talgatti não aparece como investidor tradicional. Ele surge como o nome que dá forma jurídica à operação.
Além de figurar nas SPEs, ele integra a IF Asset Gestão de Recursos Ltda., gestora que atua na administração de fundos vinculados à estrutura financeira identificada.
Isso significa que o mesmo nome aparece nas duas pontas do modelo:
quem recebe os ativos e quem pode administrá-los financeiramente.
Relatos recentes indicam que espaços como o “Chapéu Pensador”, dentro do Bosque da Copel, seguem sendo utilizados para reuniões políticas mesmo após a mudança de titularidade — um elemento que reforça a permanência desses ativos no circuito de poder.
A estrutura financeira veio antes
O dado mais relevante da apuração está na ordem dos fatos. Em setembro de 2023 — antes da criação das empresas e da reorganização dos imóveis — já havia sido estruturado um fundo vinculado à IF Asset.
Nos meses seguintes, novos fundos surgem, incluindo estruturas imobiliárias, de participações e de crédito. Na prática, a engrenagem financeira estava pronta antes da transferência dos ativos.
Fragmentar para concentrar
O funcionamento segue uma lógica clara. Os imóveis são fragmentados em sociedades de propósito específico. Em seguida, essas empresas podem ser vinculadas a fundos de investimento, que passam a concentrar a gestão econômica dos ativos.
Enquanto os sócios das empresas aparecem nos registros públicos, os fundos permitem maior opacidade, podendo operar com poucos investidores ou até cotista único, sem divulgação detalhada. Isso reduz a visibilidade sobre quem controla, de fato, o patrimônio.
A coincidência que levanta o questionamento
A simultaneidade dos movimentos é o ponto mais sensível. De um lado, o modelo identificado pelo TCE (associado a Guto Silva) flexibiliza o uso dos recursos da Copel. De outro, imóveis estratégicos da estatal passam a ser reorganizados em uma estrutura privada, centralizada e com baixa transparência. Trata-se de duas engrenagens que operam ao mesmo tempo:
uma sobre o dinheiro, outra sobre o patrimônio.
Ainda assim, persistem lacunas relevantes: não há divulgação pública dos valores das alienações; não há transparência sobre os critérios das vendas; não há identificação dos investidores finais ligados aos fundos.
No caso do Bosque da Copel, sequer há clareza sobre o destino da área — apesar da repercussão pública, da mobilização de moradores e da abertura de questionamentos por órgãos e parlamentares.
A nova fase da apuração
Se a primeira etapa revelou o caminho do dinheiro, a segunda expõe o caminho dos ativos. E é nesse ponto que o caso ganha nova dimensão, porque não se trata apenas da gestão de recursos, mas da redistribuição de patrimônio estratégico dentro de uma estrutura privada, centralizada e pouco transparente. A resposta para isso ainda não foi apresentada.
Créditos: Redação
