Mesmo com R$ 37,5 bilhões para segurar combustíveis, margem de postos e distribuidoras dispara até 68%
Levantamento aponta avanço de 68,7% na margem bruta do diesel S10 desde o início da guerra no Oriente Médio; desde 2021, ganho real com o combustível mais que dobrou
Por Gazeta do Paraná
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Enquanto o governo federal desembolsa bilhões de reais para impedir que a crise internacional do petróleo chegue com toda a força ao bolso dos brasileiros, uma parte da cadeia de combustíveis ampliou significativamente suas margens. Levantamento elaborado pelo Instituto Brasileiro de Estudos Políticos e Sociais (Ibeps), a partir de dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) e do IBGE, aponta que a margem bruta do diesel S10 cresceu 68,7% desde o início da guerra envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã.
Na gasolina, o avanço foi de 24,7%. No mesmo período, a inflação brasileira ficou muito abaixo dessa variação. O dado chama atenção principalmente porque o movimento ocorre justamente enquanto recursos públicos são utilizados para evitar uma explosão dos preços nas bombas.
Ao longo de 2026, as medidas adotadas pelo governo para amortecer os efeitos da crise dos combustíveis representam cerca de R$ 37,5 bilhões. Aproximadamente R$ 25 bilhões correspondem ao custeio de parte dos preços pagos a produtores e importadores, enquanto outros R$ 12,5 bilhões envolvem redução de impostos federais.
Na prática, o Estado abriu mão de receitas e colocou recursos públicos na operação para reduzir o impacto da alta do petróleo. Ao mesmo tempo, o levantamento indica que as margens existentes entre diferentes etapas da cadeia cresceram.
Diesel chama atenção
O comportamento do diesel S10 é o dado mais expressivo. Além dos 68,7% registrados durante a atual crise, o estudo aponta que, quando a comparação é ampliada para 2021, a margem aumentou 119,7% em termos reais.
Isso significa que o avanço superou não apenas a inflação acumulada no período, mas dobrou em termos de poder de compra.
O diesel possui peso ainda maior na economia brasileira porque está diretamente ligado ao transporte rodoviário de cargas. Qualquer aumento é incorporado aos custos de frete e tende a alcançar alimentos, medicamentos, materiais de construção, produtos industriais e praticamente toda mercadoria transportada pelas estradas brasileiras.
A elevação das margens, portanto, vai além do valor mostrado na bomba.
Governo segurou parte da alta
A crise começou a pressionar os preços depois do agravamento da guerra no Oriente Médio, que atingiu uma das regiões mais importantes para a produção e circulação mundial de petróleo.
O barril do Brent, referência internacional, chegou a ultrapassar a marca de US$ 100 após ser negociado perto de US$ 72 antes do conflito.
O impacto potencial sobre o Brasil é especialmente relevante no diesel. Embora o país seja grande produtor de petróleo, ainda depende da importação de uma parcela do combustível consumido internamente.
Foi nesse cenário que o governo criou mecanismos de subsídio e redução tributária. As medidas ajudaram a impedir que toda a alta internacional chegasse imediatamente às bombas.
Entre fevereiro e setembro, a gasolina no Brasil subiu em ritmo muito inferior ao registrado internacionalmente. Com o diesel ocorreu comportamento semelhante. Parte desse amortecimento, porém, foi financiada diretamente pelo contribuinte.
Quem ficou com o alívio?
É justamente aí que surge a principal questão levantada pelos números.
Se União reduziu impostos, concedeu subsídios e a Petrobras manteve os preços domésticos abaixo das referências internacionais em diferentes momentos da crise, seria esperado que parcela significativa dessa redução de custos fosse transmitida ao consumidor.
Os dados do Ibeps, entretanto, indicam crescimento expressivo das margens brutas existentes na cadeia de distribuição e revenda.
Margem bruta não significa lucro líquido. Distribuidoras e postos possuem despesas com transporte, armazenamento, pessoal, energia, manutenção, encargos e outras operações. Ainda assim, uma alta de 68,7% em poucos meses coloca sob escrutínio quanto do benefício concedido pelo poder público efetivamente chegou às bombas.
Representantes do setor atribuem parte do crescimento dos custos à logística, ao aumento das importações e às próprias consequências da crise internacional.
O levantamento, porém, mostra que a trajetória de expansão das margens é anterior à guerra atual.
Movimento começou antes
Quando a série é observada desde 2021, aparece um fenômeno mais longo. A margem do diesel acumulou crescimento real de 119,7%, enquanto a do gás de cozinha avançou 49,2%.
O Ibeps relaciona parte da mudança estrutural ocorrida no mercado à redução da presença estatal na distribuição de combustíveis após a privatização da antiga BR Distribuidora, atualmente Vibra Energia.
O período também coincidiu com profundas oscilações dos preços internacionais, mudanças na política de preços da Petrobras e sucessivas intervenções tributárias realizadas pelos governos federal e estaduais.
Apesar dessas mudanças, o consumidor continuou convivendo com combustíveis em patamares elevados.
Paraná sente diferença nas bombas
No Paraná, os números da ANP mostram que o impacto varia significativamente dependendo da cidade em que o motorista abastece.
Na pesquisa referente à semana encerrada em 5 de setembro, a gasolina comum apresentava diferenças superiores a R$ 1 por litro entre municípios paranaenses pesquisados.
Em Assis Chateaubriand, no Oeste do Estado, a média estava em aproximadamente R$ 5,55. Em Campo Mourão, chegava a R$ 6,19. Londrina registrava R$ 6,39 e Apucarana, R$ 6,51.
No diesel S10, combustível fundamental para o agronegócio e para o transporte de cargas no Paraná, os preços também permanecem elevados. Em Londrina, por exemplo, a média alcançava R$ 7,04 por litro na última pesquisa disponível.
A diferença entre municípios mostra que a composição do preço não depende apenas da cotação internacional do petróleo ou dos tributos. Logística, concorrência, custos das distribuidoras e margens praticadas ao longo da cadeia também interferem no valor encontrado pelo motorista.
Para um estado com forte participação do agronegócio e elevada dependência do transporte rodoviário, a discussão é especialmente relevante. Diesel mais caro representa custo adicional desde o plantio e a colheita até o transporte da produção aos portos e centros consumidores.
Fiscalização
A ANP realizou milhares de ações de fiscalização desde o início da crise. O objetivo inclui acompanhar preços, qualidade dos combustíveis e cumprimento das regras aplicáveis às empresas beneficiadas por medidas governamentais. O debate, porém, tende a permanecer.
De um lado, o governo colocou aproximadamente R$ 37,5 bilhões entre subsídios e desonerações para limitar os efeitos da crise internacional. Do outro, os dados mostram que margens brutas em segmentos da cadeia cresceram muito acima da inflação.
No meio dessa conta está o consumidor, que ajuda a financiar as medidas por meio dos impostos e continua pagando mais de R$ 6 pelo litro da gasolina em boa parte do país.
Créditos: Redação
