Lula aciona reajuste do Bolsa Família para tentar virar o jogo e sufocar crise no STF
A 17 dias do primeiro turno, governo usa aumento do benefício para alterar a pauta da eleição, criar emparedamento político na oposição e retomar o controle da narrativa eleitoral após desgaste com ministros da Corte
Créditos: Lyon Santos/ MDS
Em uma manobra estratégica na reta final da campanha, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva chancelou o reajuste do Bolsa Família como cartada principal para retomar o protagonismo do debate político e afastar a disputa da pauta do Supremo Tribunal Federal (STF). A medida, recomendada por integrantes da área econômica para atenuar a insatisfação com a percepção do custo de vida, teve sua aprovação acelerada logo após os recentes desgastes envolvendo a Corte — arena considerada altamente desfavorável ao projeto de reeleição do petista.
A interferência do ministro Flávio Dino para adiar a abertura de apurações contra o ministro Alexandre de Moraes fragilizou o discurso governista de isenção nas investigações. Por ter sido um dos nomes mais bélicos da gestão na Justiça e um aliado de primeira hora de Lula, a atuação de Dino acabou vinculando a imagem do Palácio do Planalto ao imbróglio do STF. Diante desse cenário, a liberação do aumento para 19 milhões de famílias alcançando cerca de 50 milhões de brasileiros, visa redirecionar o foco da opinião pública para a agenda social a pouco mais de duas semanas da votação.
A estratégia também impôs um dilema à campanha de Flávio Bolsonaro. Enquanto a coordenação do candidato de oposição evitou ataques diretos à concessão do benefício por medo de perda de votos na base popular, as críticas focaram no impacto das contas públicas.
O senador Rogério Marinho (PL-RN), coordenador do plano de governo oposicionista, classificou a decisão como irresponsável do ponto de vista fiscal e alertou para as consequências sobre a taxa de juros. No entanto, o ruído político se intensificou quando o deputado Zé Trovão (PL-SC) acionou individualmente o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) contra a medida ação extinta pelo ministro André Mendonça por falta de legitimidade , gerando um desgaste indesejado para o núcleo bolsonarista.
A avaliação da equipe do PT é que as críticas sobre o descumprimento de metas fiscais já estão contratadas no debate e não alteram a percepção do eleitorado tradicional. Paralelamente ao anúncio do reajuste, a coordenação da campanha governista reforçou a ofensiva ao resgatar polêmicas do governo Jair Bolsonaro e elevar o tom contra Donald Trump, rebatendo relatórios dos EUA sobre o combate ao narcotráfico. Com a mexida no Bolsa Família, Lula aposta na sensibilidade do bolso dos eleitores para tentar reverter a estagnação nas pesquisas e selar a virada antes do dia da votação.
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