Investigação aponta estratégia da Uber em processos de estupro e reacende debate sobre proteção às vítimas
Reportagem do The New York Times afirma que empresa adota postura diferente da defendida publicamente ao contestar ações judiciais movidas por mulheres vítimas de violência sexual durante corridas
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Uma investigação publicada pelo jornal norte-americano The New York Times reacendeu o debate sobre a responsabilidade das plataformas de transporte por aplicativo em casos de violência sexual. Segundo a reportagem, a Uber tem adotado nos tribunais uma estratégia de defesa que contrasta com seu discurso público de apoio às vítimas, questionando o comportamento, as roupas e o histórico pessoal de mulheres que processam a empresa após estupros cometidos por motoristas cadastrados.
O caso destacado pela investigação envolve uma mulher identificada como Jane Doe, de 24 anos, que move uma ação civil contra a plataforma após ser estuprada por um motorista durante uma corrida realizada em 2021, na cidade de Tampa, no estado da Flórida, nos Estados Unidos.
De acordo com a publicação, o motorista já confessou os crimes de estupro vaginal, anal e oral na esfera criminal e cumpre pena de dez anos de prisão.
Na ação civil, a vítima sustenta que a Uber agiu com negligência ao permitir que o motorista continuasse atuando na plataforma mesmo possuindo antecedentes criminais relacionados a crimes violentos.
Discurso institucional e atuação na Justiça
A investigação destaca que a Uber afirma publicamente adotar uma política de atendimento centrada nas vítimas de violência sexual e baseada em princípios de acolhimento e respeito ao trauma.
Inclusive, materiais de treinamento destinados aos motoristas, segundo o jornal, afirmam que a violência sexual jamais é responsabilidade da vítima.
No entanto, documentos judiciais obtidos pelo New York Times mostram que a defesa da empresa sustentou que a autora da ação teria contribuído para os danos sofridos e questionou se todo o sofrimento alegado estaria diretamente relacionado ao episódio investigado.
Questionamentos à vítima
Durante o processo, a reportagem afirma que uma advogada da Uber fez uma série de perguntas sobre aspectos da vida pessoal da vítima.
Entre os questionamentos estavam a quantidade de bebida alcoólica consumida na noite do crime, o uso do medicamento Adderall, a combinação entre álcool e remédios, além das roupas utilizadas durante a corrida.
Segundo o jornal, a vítima também foi questionada sobre detalhes da infância e do relacionamento com os pais.
A divulgação dessas informações reacendeu discussões entre especialistas sobre os limites da estratégia de defesa adotada por grandes empresas em processos envolvendo violência sexual e sobre o risco de revitimização de mulheres que buscam reparação na Justiça.
Plataforma enfrenta milhares de denúncias
A Uber enfrenta, há anos, milhares de relatos de agressões e violência sexual registrados durante viagens realizadas por meio da plataforma em diversos países.
No Brasil, o tema também é acompanhado pelo Ministério Público de São Paulo, que instaurou, em setembro de 2024, um inquérito para investigar a responsabilidade da empresa em casos de assédio sexual, estupro e outras condutas atribuídas a motoristas parceiros.
A Promotoria solicitou um relatório completo das denúncias registradas entre 2020 e 2024 e pediu esclarecimentos sobre os critérios adotados para cadastramento de motoristas, além da disponibilidade de recursos de gravação de áudio e vídeo nas viagens.
Também foi solicitado que a empresa informasse qual percentual da frota possui esses mecanismos de segurança. Até então, segundo o Ministério Público, a Uber havia apresentado apenas uma manifestação preliminar, sem responder integralmente aos questionamentos.
Dados mostram dimensão do problema
Levantamentos oficiais reforçam a preocupação com a segurança de passageiros em veículos de aplicativos.
Dados da Secretaria de Segurança Pública do Distrito Federal apontam que 23% dos 889 casos de importunação sexual registrados em um ano ocorreram dentro de carros de aplicativo.
Em 2022, o Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios condenou a Uber a indenizar uma passageira vítima de agressão praticada por um motorista cadastrado na plataforma. Na decisão, a Justiça entendeu que a empresa responde pelos danos causados durante a prestação do serviço contratado.
Outra investigação, realizada anteriormente pelo Intercept Brasil, identificou ao menos 46 casos de estupro em corridas de aplicativos e táxis em seis estados brasileiros. Os próprios pesquisadores, entretanto, ressaltaram que o número representa apenas uma parcela dos casos efetivamente ocorridos.
Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, cerca de 65% dos estupros não são comunicados às autoridades policiais. Já a Pesquisa Nacional de Vitimização estima que a subnotificação desse tipo de crime possa chegar a 92,5%, indicando que a dimensão real da violência sexual é significativamente superior aos registros oficiais.
