Fonoaudiólogas são investigadas por suspeita de fraude em atendimentos a crianças com autismo em Pato Branco e São Lourenço do Oeste
Gaeco apura uso de certificados falsos, consultas irregulares e possível esquema para aumentar repasses pagos com dinheiro público
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Duas fonoaudiólogas investigadas pelo Ministério Público do Paraná passaram a ser alvo de uma ampla apuração que envolve suspeita de fraude em contratos públicos de saúde ligados ao atendimento de crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA) no Sudoeste do Paraná e Oeste de Santa Catarina.
As investigadas foram identificadas como Anelise Vivian e Gabriele Chevbotoer. Segundo o Ministério Público, elas estariam ligadas às clínicas Multi Cuidado, em Pato Branco, e Audimais, em São Lourenço do Oeste (SC). O caso integra a Operação Ártemis, conduzida pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) de Francisco Beltrão, com apoio do Gaeco de Santa Catarina.
De acordo com as investigações, certificados falsos de cursos técnicos e pós-graduações teriam sido utilizados para comprovar qualificações profissionais exigidas em licitações e contratos ligados ao Consórcio Intermunicipal de Saúde (Conims). A suspeita é de que os documentos permitiram habilitação em contratos públicos e o recebimento de valores mais altos por atendimentos especializados voltados principalmente a crianças com autismo.
Além da suspeita de falsificação documental, o Ministério Público também investiga possíveis consultas irregulares realizadas dentro do esquema. O prejuízo estimado aos cofres públicos é de pelo menos R$ 265 mil.
O Conims é um consórcio público formado por 33 municípios do Paraná e de Santa Catarina, financiado principalmente com recursos repassados pelas prefeituras participantes e verbas públicas destinadas à saúde.
As investigações começaram em 2024 após apuração inicial da Delegacia de Polícia Civil de Coronel Vivida. Com o avanço das diligências, o caso passou a ser conduzido pelo Gaeco, que investiga possível organização voltada à falsificação de documentos e obtenção de vantagens financeiras em contratos públicos de saúde.
Desde agosto do ano passado, a Operação Ártemis já realizou três fases de diligências. Na etapa mais recente, cumprida na última semana, foram executados nove mandados de busca e apreensão em endereços de Quedas do Iguaçu, Vitorino e São Lourenço do Oeste. As investigadas passaram a utilizar tornozeleira eletrônica por determinação judicial.
Nas fases anteriores da operação, também foram cumpridos mandados em Pato Branco, Xanxerê e Maravilha. Durante as ações, documentos, equipamentos eletrônicos e outros materiais considerados relevantes para a investigação foram apreendidos.
A Justiça determinou ainda o bloqueio de aproximadamente R$ 265 mil em contas ligadas às investigadas. Conforme o Ministério Público, o valor corresponderia ao montante que teria sido recebido de forma irregular por meio dos contratos sob investigação.
O caso ganhou repercussão por atingir diretamente uma área sensível da saúde pública: o atendimento especializado de crianças com TEA. Para famílias que dependem da rede pública e de serviços terceirizados, a qualificação dos profissionais é considerada essencial para garantir segurança, responsabilidade técnica e qualidade no acompanhamento terapêutico.
O Conims informou que não é alvo da investigação e afirmou que vem colaborando com as autoridades desde o início das apurações.
A defesa de Anelise Vivian informou que aguarda o resultado de diligências e perícias antes de se manifestar de forma detalhada sobre o caso. Segundo o advogado Ezequiel Fernandes, “nunca houve qualquer tipo de prejuízo clínico a pacientes” e os aspectos documentais ainda estariam em apuração.
Já a defesa de Gabriele Chevbotoer afirmou que ainda não teve acesso integral aos elementos de prova e às decisões que fundamentam as medidas cautelares. A investigada, segundo os advogados, permanece à disposição das autoridades.
Até decisão definitiva da Justiça, as investigadas e as empresas citadas devem ser consideradas inocentes, conforme prevê o princípio constitucional da presunção de inocência.
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