Flávio Bolsonaro chama Lei Maria da Penha de "pedaço de papel"
Pré-candidato à Presidência fez declaração durante encontro do PL no Espírito Santo. Senador defendeu uso de tecnologia para proteger mulheres, embora projeto apresentado por ele próprio proponha mudanças na Lei Maria da Penha, e não sua substituição
Créditos: Lula Marques/Agência Brasil
O senador e pré-candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL-RJ) afirmou neste sábado (18) que a Lei Maria da Penha é um "pedaço de papel" ao defender o uso de tecnologia no combate à violência doméstica. A declaração foi feita durante um encontro estadual do Partido Liberal (PL), em Vitória (ES), quando o parlamentar apresentou propostas voltadas à proteção das mulheres.
"Esse pedaço de papel, a Lei Maria da Penha, não vai defender as mulheres", declarou o senador durante o evento.
Na sequência, Flávio Bolsonaro afirmou que pretende adotar, em um eventual governo, um modelo inspirado em um projeto desenvolvido durante a gestão do ex-prefeito de Vitória, Lorenzo Pazolini (Republicanos). Segundo ele, a tecnologia poderá reforçar a proteção às vítimas de violência doméstica.
No entanto, durante a apresentação, o senador não detalhou como funcionaria esse sistema, qual seria o custo da iniciativa, como ocorreria a implantação em nível nacional nem de que forma a tecnologia seria integrada às medidas protetivas já previstas na legislação.
Lei prevê medidas protetivas e monitoramento eletrônico
A Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006) estabelece uma série de mecanismos de proteção para mulheres vítimas de violência doméstica e familiar.
Entre as medidas previstas estão o afastamento do agressor do lar, a proibição de aproximação e contato com a vítima, restrições ao porte de armas, proteção aos filhos, preservação do patrimônio da mulher e possibilidade de requisição de apoio policial para garantir o cumprimento das determinações judiciais.
A legislação também autoriza o afastamento imediato do agressor quando houver risco à integridade física, psicológica, sexual, moral ou patrimonial da vítima e de seus dependentes. A aplicação dessas medidas envolve atuação conjunta das polícias, do Ministério Público, do Poder Judiciário e da rede de assistência social.
Além disso, desde alterações promovidas em 2025, a própria Lei Maria da Penha passou a permitir o monitoramento eletrônico de agressores submetidos a medidas protetivas.
Na prática, o uso de tecnologias de monitoramento depende da legislação para que possa ser determinado pela Justiça e fiscalizado pelas autoridades.
Programa foi apresentado nesta semana
A declaração ocorreu dois dias após o lançamento do programa "Brasil por Elas", apresentado pela pré-campanha de Flávio Bolsonaro como uma proposta voltada ao público feminino.
Entre as medidas anunciadas estão a criação de uma plataforma de serviços para mulheres, uma assistente virtual chamada "MarIA", integração de canais de denúncia, oferta de acesso à internet para mulheres em situação de vulnerabilidade, unidades de atendimento especializado e auxílio temporário para vítimas deixarem ambientes de violência.
Durante a apresentação, entretanto, não foram divulgados detalhes sobre o custo anual do programa, a origem dos recursos, os critérios para acesso aos benefícios, o cronograma de implantação nem a forma de integração da plataforma com delegacias, tribunais, Ministério Público, defensorias públicas e redes municipais de atendimento.
Também não foram apresentados esclarecimentos sobre a proteção e o armazenamento dos dados pessoais e sensíveis das mulheres que utilizariam o sistema.
Projeto do senador propõe mudanças na própria Lei Maria da Penha
A declaração também chama atenção porque o próprio Flávio Bolsonaro apresentou, em março deste ano, um projeto de lei que altera dispositivos da Lei Maria da Penha.
O Projeto de Lei nº 1.400/2026 propõe autorizar autoridades policiais a conceder medidas protetivas de urgência imediatamente, com posterior análise do Ministério Público e do Poder Judiciário no prazo de até 24 horas.
A proposta permanece aguardando despacho no Senado Federal.
O projeto não revoga a Lei Maria da Penha, mas modifica procedimentos previstos na legislação para ampliar a atuação das autoridades policiais em casos de violência doméstica.
