Escolha de Sandro Alex implode discurso de unidade e expõe guerra interna na base de Ratinho na Alep
Moacyr Fadel rompe com o candidato do próprio PSD, Romanelli fala em “forças ocultas” contra Guto Silva, Anibelli aponta “uma série de erros” e Arilson resume o cenário como uma base que “começa a se dissipar”
Por Gazeta do Paraná
Créditos: Valdir Amaral
A sessão desta terça-feira na Assembleia Legislativa do Paraná serviu como uma espécie de confissão coletiva de que a sucessão de Ratinho Júnior está longe de ser um processo pacificado. O anúncio de Sandro Alex como nome do grupo governista, em vez de encerrar a disputa interna, acendeu de vez as luzes sobre um problema que os discursos oficiais tentam disfarçar: há fratura, há ressentimento e há leitura de erro político na condução da escolha.
O que chamou atenção não foi apenas o conteúdo das falas, mas a forma como elas surgiram. Não se tratou de insinuação de corredor, nem de recado cifrado. A crise apareceu em plenário, com nome, sobrenome, lado partidário e frases que, reunidas, compõem um retrato bastante eloquente de um grupo que entrou na fase pré-eleitoral carregando mais ruído do que convergência.
A fala mais explosiva veio do deputado Moacyr Fadel, do próprio PSD. Ao subir o tom contra a decisão do partido, ele não deixou margem para interpretação. “Comuniquei ao governador que o candidato do PSD Sandro Alex não terá o apoio desse deputado”, disse. A frase, por si só, já colocaria a sessão no radar político. Mas Fadel foi além. Antes, ele expôs o que considera ter sido uma condução enganosa do processo. “Dois meses atrás eu perguntei… existe a possibilidade de não ser o Guto, ou não ser o Márcio, ou não ser o Alexandre Curi? De forma alguma”, afirmou.
Esse trecho é central porque revela mais do que divergência com o nome escolhido. Ele sugere que, na visão do deputado, o problema começou antes, na construção política do cenário. Quando Fadel diz que recebeu a garantia de que o candidato sairia de um conjunto restrito de nomes e, “cá caiu o deputado federal Sandro Alex como candidato”, o que aparece é a imagem de uma escolha percebida como brusca, fora da rota que vinha sendo apresentada até então aos aliados. Não é à toa que, logo depois, ele amarra sua crítica em duas ideias que pesam muito na política: lealdade e convicção. “Eu sigo firme nas minhas convicções, nas minhas determinações e, principalmente, nos meus princípios éticos que me trouxeram até aqui”, afirmou. E completou: “Eu acho que não foi feita a construção que todos esperávamos e quem tem caráter não se curva e eu não vou me curvar de algo que eu não acredito”.
Não é uma fala burocrática. É uma fala de rompimento. Quando um deputado da base governista diz em plenário que não vai “se curvar” e que não acredita na decisão tomada, o que se expõe é a incapacidade do grupo de transformar a escolha de Sandro Alex em consenso mínimo dentro do próprio partido.
Se Fadel tornou o racha explícito, Luiz Claudio Romanelli, também do PSD, acrescentou ao debate um elemento ainda mais corrosivo: a ideia de sabotagem interna contra Guto Silva. Ao responder a provocações sobre sua mudança de posição, Romanelli tentou reafirmar disciplina partidária, mas, no caminho, acabou verbalizando o que até ali parecia estar no campo da suspeita. “Defendi, sim, claro, a candidatura do Guto Silva, tenho o maior respeito por ele, um grande gestor”, disse. Em seguida, soltou a frase que mais chamou atenção em toda a sessão: “Se não tivesse algumas pessoas vetado o nosso companheiro Guto Silva, provavelmente poderia ter sido escolhido”. E reforçou: “Infelizmente, alguns agiram, forças ocultas agiram para poder destruir a candidatura do Guto Silva”.
Essa fala é poderosa porque desmonta a aparência de naturalidade na escolha do nome de Sandro Alex. Romanelli não diz que Guto perdeu espaço porque faltou musculatura política, nem que a decisão decorreu apenas de estratégia eleitoral. Ele fala em veto. Fala em ação de “algumas pessoas”. Fala em “forças ocultas”. O vocabulário não é casual. Ele serve para transmitir a ideia de que a disputa não foi resolvida apenas na arena pública da política, mas em camadas internas de pressão e bloqueio. É o tipo de declaração que transforma uma simples troca de candidatura em enredo de guerra palaciana.
E há outro detalhe importante: Romanelli tenta conter o dano ao reafirmar fidelidade ao partido. “Eu sou um homem de partido”, disse. “A escolha recaiu sobre o Sandro Alex”. Só que a tentativa de recompor a moldura institucional esbarra no estrago já produzido por suas próprias palavras. Ao dizer que Guto foi vetado e destruído por “forças ocultas”, ele ajuda a confirmar que a decisão do PSD está longe de ser vista, internamente, como um desfecho sereno.
Foi justamente nesse ambiente que o MDB tratou de ocupar espaço. O deputado Anibelli Neto fez talvez o discurso mais cirúrgico da sessão do ponto de vista político. Ele não falou como alguém pego de surpresa apenas por um anúncio; falou como quem tenta organizar uma narrativa sobre o erro do adversário e, ao mesmo tempo, abrir caminho para seu próprio campo. “Na minha opinião, uma série de erros”, disse, ao reconstituir os últimos movimentos do grupo de Ratinho Júnior. A expressão é simples, mas seu peso está no contexto. Anibelli não enumera apenas divergências ocasionais. Ele constrói a percepção de que houve uma condução atrapalhada, marcada por decisões equivocadas e mudanças de rumo.
Isso aparece quando ele relembra que “escutava nos quatro cantos do Estado que existiam três candidatos, pré-candidatos a governador: o secretário das Cidades, Guto Silva, o ex-prefeito secretário do Meio Ambiente, Rafael Greca, e o presidente da Casa, deputado Alexandre Curi”. Aí vem o ponto de inflexão: “Ontem foi anunciado alguém que não estava nos pré-candidatos, secretário de Infraestrutura, ex-secretário Sandro Alex”.
A força dessa fala está justamente na sua precisão. Anibelli não está apenas criticando Sandro Alex. Está dizendo que o nome surgiu rompendo a lógica anterior do processo. Ou seja, a base passou meses convivendo com uma espécie de cardápio político, até que, de repente, o prato principal foi outro. Isso produz duas consequências: desorienta aliados e alimenta a leitura de que não houve, de fato, uma construção estável da sucessão.
Anibelli ainda aproveitou para posicionar o MDB nesse novo tabuleiro. Quando afirma que o partido fará “todo o esforço para ter uma candidatura a governador, ter candidatura a senador”, ele sinaliza que a confusão do bloco governista pode se converter em oportunidade de afirmação para quem deseja escapar da órbita do Palácio Iguaçu. Não por acaso, o tom do discurso foi de quem percebeu fragilidade onde antes havia um grupo aparentemente blindado.
Se Anibelli explorou a desorganização estratégica, o deputado Arilson Chiorato condensou o clima político do momento numa imagem de dissolução. “A base antes governista começa a se dissipar, tem dissidências para todo lado”, afirmou. É uma frase que ajuda a costurar todo o restante. Porque, depois de Fadel romper, Romanelli falar em veto e Anibelli apontar erro, o verbo “dissipar” parece menos figura de linguagem e mais diagnóstico.
Arilson foi além ao dizer que há uma “indefinição que qualquer cientista político, PHD em ciência política, jamais conseguiria imaginar o que estaria acontecendo nesse momento com o governo do Estado”. Há evidente carga retórica aí, mas a frase cumpre uma função importante: traduzir em linguagem política o que a sessão mostrou na prática. O governo escolheu um caminho, mas ainda não conseguiu convencer sequer toda a sua tropa de que esse é o caminho certo.
O mais interessante é que, quando se juntam esses quatro núcleos de fala, o quadro que emerge não é apenas o de um descontentamento pontual com Sandro Alex. O que aparece é algo mais profundo. Moacyr Fadel fala em quebra de confiança e recusa pessoal. Romanelli fala em sabotagem contra Guto Silva. Anibelli fala em erro de estratégia e guinada inesperada. Arilson fala em dissipação da base e nebulosidade política. Cada um, à sua maneira, descreve uma peça distinta da mesma engrenagem emperrada.
Há, portanto, pelo menos quatro camadas de crise evidenciadas na sessão. A primeira é a da rebelião aberta, representada por Fadel. A segunda é a da suspeita de operação interna, vocalizada por Romanelli. A terceira é a da desorganização estratégica, explorada por Anibelli. A quarta é a da perda de coesão, resumida por Arilson. Juntas, elas desmontam o esforço de vender a escolha de Sandro Alex como capítulo de unidade.
No fim das contas, a sessão desta terça-feira não teve apenas discursos sobre sucessão. Teve, na prática, um inventário público do mal-estar político que o anúncio provocou. E talvez esse seja o dado mais relevante. Antes mesmo de a campanha começar oficialmente, a base de Ratinho Jr. já precisou gastar energia não para atacar adversários, mas para lidar com as fissuras expostas dentro de casa. Sandro Alex foi anunciado como solução. O plenário, porém, mostrou outra coisa: para parte relevante do jogo político, o nome escolhido ainda é mais problema do que síntese.
Créditos: Redação
