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El Niño pode aumentar risco de doenças infecciosas e pressionar sistema de saúde, alerta especialista

Fenômeno climático favorece enchentes no Sul do Brasil e amplia a exposição da população a doenças como leptospirose, hepatite A e infecções gastrointestinais

El Niño pode aumentar risco de doenças infecciosas e pressionar sistema de saúde, alerta especialista Créditos: Roberto Dziura/AEN

Os impactos do El Niño vão além das mudanças no clima e podem representar um desafio para a saúde pública. No Sul do Brasil, onde o fenômeno costuma provocar aumento das chuvas, enchentes, alagamentos e deslizamentos de terra, especialistas alertam para o crescimento do risco de doenças infecciosas e para a necessidade de reforçar a capacidade de resposta dos serviços de saúde.

Uma análise recente da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) recomenda que os países fortaleçam a vigilância epidemiológica e ampliem a estrutura dos serviços de saúde para garantir a continuidade do atendimento durante eventos climáticos extremos.

Segundo a infectologista Viviane Hessel, dos hospitais São Marcelino Champagnat e Universitário Cajuru, os desastres provocados pelo excesso de chuva criam condições favoráveis para a disseminação de diversas doenças.

"No caso da leptospirose, a bactéria pode penetrar pela pele durante o contato com a água contaminada. Quando as famílias precisam deixar suas casas e buscar abrigo temporário, aumentam também os desafios referentes ao acesso à água potável, alimentação, a medicamentos e ao atendimento de saúde. Ambientes coletivos facilitam a transmissão de doenças respiratórias e podem contribuir para a ocorrência de surtos, especialmente em populações mais vulneráveis", explica.

Enchentes aumentam exposição a doenças

A leptospirose está entre as principais doenças associadas às enchentes, já que a bactéria é transmitida principalmente pela água contaminada com urina de animais infectados.

Além dela, situações de alagamento também favorecem o surgimento de casos de hepatite A e de infecções gastrointestinais, especialmente quando há dificuldade de acesso à água tratada, saneamento básico e condições adequadas de higiene.

Segundo a Opas, por esse motivo é importante que estados e municípios reforcem a vigilância epidemiológica antes, durante e após eventos climáticos extremos, permitindo uma resposta mais rápida diante do aumento de casos.

Mudanças climáticas também favorecem resistência a antibióticos

A médica chama atenção para outro efeito relacionado ao aumento das temperaturas: a maior disseminação de bactérias resistentes aos antibióticos.

De acordo com Viviane Hessel, já existem evidências científicas de que as mudanças climáticas contribuem para a circulação de genes de resistência tanto na comunidade quanto dentro dos hospitais.

"Dependendo do perfil de resistência, a bactéria deixa de responder aos antibióticos habitualmente utilizados, reduzindo as opções terapêuticas disponíveis e dificultando o manejo clínico do paciente", afirma.

Essa preocupação foi reforçada por um estudo publicado em maio de 2026 na revista científica The Lancet Planetary Health. A pesquisa analisou mais de 480 mil genomas da bactéria Salmonella, coletados em 139 países entre 1940 e 2023, e identificou um aumento global de 10% nos genes de resistência aos antibióticos associado às mudanças climáticas.

Segundo os pesquisadores, o aquecimento global pode favorecer a circulação desses microrganismos e dificultar o tratamento de infecções no futuro.

Desafio para hospitais

Na avaliação da infectologista, esse cenário representa um desafio crescente para os sistemas de saúde, já que infecções provocadas por bactérias resistentes costumam exigir tratamentos mais complexos, internações prolongadas e apresentam maior risco de complicações.

Para reduzir esses impactos, Viviane reforça a importância de manter medidas preventivas dentro dos hospitais e unidades de saúde.

Entre elas estão a higienização correta das mãos, a limpeza e desinfecção de equipamentos e superfícies, além do cumprimento rigoroso dos protocolos de prevenção e controle de infecções hospitalares.

Segundo a especialista, essas ações continuam sendo fundamentais para evitar a disseminação de microrganismos resistentes e proteger pacientes, profissionais de saúde e a população em geral diante dos desafios impostos pelas mudanças climáticas.

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