Do Palácio às escolas: rede ligada a Lemann avança sobre a educação pública do Paraná
Fundação do bilionário iniciou aproximação com governo Ratinho Junior em 2019; Lemann é sócio da Gera Capital, maior bloco acionista do Grupo Salta, que hoje lucra milhões e tem braço administrando 39 escolas estaduais
Por Gazeta do Paraná
Créditos: Reprodução redes sociais
O nome de Jorge Paulo Lemann não desembarcou agora na educação do Paraná. Sete anos antes de um braço do Grupo Salta passar a administrar dezenas de escolas públicas estaduais, representantes da fundação que leva o sobrenome do bilionário já circulavam pelo Palácio Iguaçu para discutir com o governo Ratinho Junior justamente a gestão da rede estadual de ensino.
A cronologia ajuda a dimensionar uma relação que atravessa filantropia, investimentos privados e, mais recentemente, contratos para a administração de escolas públicas. Em 5 de junho de 2019, no primeiro ano do atual governo, Ratinho Junior e o então secretário estadual da Educação, Renato Feder, receberam representantes da Fundação Lemann para discutir o aprofundamento de uma cooperação na educação paranaense.
A aproximação, segundo divulgação feita pelo próprio Governo do Paraná à época, havia começado meses antes, em janeiro de 2019. A pauta incluía gestão educacional, formação de lideranças e estratégias para melhorar os indicadores da rede.
Sete anos depois, uma empresa pertencente a um grupo empresarial cuja história está diretamente ligada à trajetória de investimentos de Lemann está dentro das escolas estaduais.
A Impulso Educação, criada pelo Grupo Salta especificamente para atuar na gestão administrativa de escolas públicas em parceria com governos, administra atualmente 39 colégios estaduais paranaenses por meio do programa Parceiro da Escola.
E por trás do Salta aparece uma velha conhecida de Jorge Paulo Lemann: a Gera Capital.
Lemann, Gera e Salta
Documentos do próprio Grupo Salta mostram que a Gera Capital detinha, em 30 de junho de 2026, 21,5% da companhia, a maior participação individual entre os blocos acionistas identificados.
Na sequência aparecem Opportunity, com 18,6%; Atmos Capital, com 17,4%; Mission Co., com 13,1%; GIC, com 10,9%; e outros investidores, com 18,6%.
Portanto, Jorge Paulo Lemann não pode ser apresentado tecnicamente como proprietário individual do Grupo Salta. A ligação é outra e precisa: Lemann é sócio da Gera Capital desde 2010, e a gestora está na própria origem do grupo educacional.
O Salta nasceu em 2013 como Eleva Educação, a partir da associação de educadores com a Gera Capital. Lemann também já integrou o conselho da companhia, segundo informações divulgadas pela própria gestora.
É justamente esse grupo que, anos depois, criou a Impulso Educação para entrar em um mercado diferente daquele das escolas particulares: a administração privada de estruturas da educação pública. No Paraná, encontrou terreno fértil.
Do privado ao público
Em 2024, quando o governo Ratinho Junior avançou com o Parceiro da Escola, a Impulso apareceu com destaque no processo de credenciamento.
Na divulgação das pontuações preliminares feita pela própria Secretaria de Estado da Educação, a empresa vinculada ao Grupo Salta ficou na liderança em todos os lotes para os quais havia se apresentado.
A partir de 2025, passou efetivamente a operar dentro da rede pública paranaense.
Hoje são 39 escolas e aproximadamente 27,4 mil estudantes sob administração da Impulso, segundo informações oficiais.
O avanço acontece ao mesmo tempo em que o negócio educacional apresenta números milionários.
Como mostrou a Gazeta do Paraná, o Grupo Salta registrou lucro líquido de R$ 106 milhões apenas no primeiro semestre de 2026. A receita líquida chegou a R$ 1,747 bilhão.
Os números tornam ainda mais relevante uma pergunta que permanece sem resposta: quanto da receita obtida pelo grupo está relacionada à operação financiada com recursos públicos no Paraná?
A Gazeta já questionou as empresas sobre os valores recebidos do Estado e sobre a margem financeira da operação paranaense.
Sete anos de distância
Não existe, até o momento, evidência documental encontrada pela Gazeta do Paraná de que a Fundação Lemann tenha participado da contratação da Impulso, interferido no credenciamento das empresas ou atuado na criação do Parceiro da Escola.
Também é necessário distinguir juridicamente as organizações. Fundação Lemann, Gera Capital, Grupo Salta e Impulso Educação são estruturas diferentes. Mas a cronologia é incontornável.
Em 2019, a organização filantrópica fundada por Lemann discutia gestão da educação estadual diretamente com o governador Ratinho Junior e Renato Feder.
Em 2026, uma companhia pertencente a um grupo cujo maior bloco acionista é justamente a gestora da qual Lemann é sócio administra dezenas de escolas dessa mesma rede.
É uma trajetória que começou no debate sobre políticas educacionais e chegou à operação privada de unidades financiadas pelo Estado.
Um velho conhecido da CVM
A trajetória empresarial de Jorge Paulo Lemann também acumula episódios controversos muito anteriores ao escândalo bilionário das Americanas.
Em processo envolvendo a Ambev, a Comissão de Valores Mobiliários acusou formalmente Lemann, Marcel Herrmann Telles e Carlos Alberto Sicupira, o Beto Sicupira, de uma série de irregularidades.
Entre as acusações formuladas pela área técnica da CVM estavam abuso de poder de controle, utilização de plano de opções de ações em condições que teriam beneficiado os controladores em detrimento de acionistas minoritários, problemas na divulgação de participação acionária e utilização de informação ainda não divulgada ao mercado.
O processo não terminou com condenação de mérito. Os empresários celebraram Termo de Compromisso. Lemann, Telles e Sicupira ofereceram R$ 5 milhões cada, totalizando R$ 15 milhões, e o procedimento acabou arquivado depois do cumprimento do acordo.
A distinção é importante: acordo não significa reconhecimento de culpa. Mas também não apaga o fato de que as acusações foram formalmente formuladas pelo órgão responsável pela fiscalização do mercado de capitais brasileiro.
O terremoto Americanas
Décadas depois, outro negócio associado ao trio provocaria um dos maiores escândalos corporativos da história recente do País.
A Americanas revelou uma fraude contábil que, segundo informações divulgadas pela própria companhia, produziu aproximadamente R$ 25,3 bilhões em resultados fictícios acumulados.
Lemann, Telles e Sicupira eram os acionistas de referência da varejista.
A dimensão do rombo colocou sob escrutínio justamente um modelo de gestão empresarial que durante décadas transformou os três empresários em símbolos de eficiência, redução de custos e geração de resultados.
Até aqui, porém, não há base para afirmar que Jorge Paulo Lemann tenha participado pessoalmente da fraude. Ele não integrou a denúncia criminal apresentada pelo Ministério Público Federal contra os acusados de envolvimento direto no esquema.
Os acionistas de referência sustentam desde o início que também foram enganados pela antiga administração. O caso, entretanto, continua produzindo consequências.
Em janeiro de 2026, a CVM instaurou novos inquéritos relacionados às fraudes, incluindo investigação sobre o cumprimento dos deveres fiduciários de integrantes de estruturas de administração, fiscalização e assessoramento da companhia.
Investidores também abriram arbitragem buscando responsabilizar Lemann, Telles e Sicupira pelos prejuízos e cobrando ressarcimentos. Trata-se, novamente, de pretensão ainda em discussão, sem condenação definitiva.
E a crise chegou ainda mais perto da família Lemann em junho deste ano.
Filho na mira da PF
Na segunda fase da Operação Disclosure, da Polícia Federal, Paulo Alberto Lemann, filho de Jorge Paulo Lemann e ex-integrante do conselho de administração da Americanas, esteve entre os alvos de medidas judiciais.
A investigação apura, entre outros pontos, suspeitas relacionadas a manipulação de mercado e associação criminosa no contexto das fraudes contábeis.
Beto Sicupira, parceiro empresarial histórico de Jorge Paulo Lemann, também esteve entre os alvos.
As investigações estão em andamento e não significam condenação.
Ainda assim, o episódio acrescentou um novo capítulo à crise envolvendo o império empresarial construído ao redor de alguns dos nomes mais poderosos do capitalismo brasileiro.
De cerveja a escola pública
Lemann construiu uma das maiores fortunas do País. Banco Garantia, Ambev, AB InBev, Burger King, Heinz, Kraft Heinz e Americanas são alguns dos nomes que atravessam sua trajetória empresarial ou a de estruturas de investimento das quais participou.
Nas últimas décadas, entretanto, educação também se tornou parte importante desse universo. De um lado está a atuação filantrópica da Fundação Lemann, presente há anos no debate sobre políticas públicas, formação de gestores e educação. Do outro, investimentos privados em um mercado educacional bilionário. No Paraná, essas duas histórias acabam se encontrando, ainda que por estruturas juridicamente independentes.
Primeiro veio a Fundação, recebida pelo governo para discutir a educação pública. Depois veio o Salta, cuja origem passa pela Gera Capital. Por último chegou a Impulso, levando o grupo privado para dentro de escolas estaduais. E é justamente essa passagem que merece atenção.
O debate não é sobre a legalidade de um empresário investir em educação nem sobre a possibilidade de uma fundação colaborar com governos. A questão pública é outra: quando organizações relacionadas à trajetória de um mesmo grupo de empresários transitam entre formulação de políticas educacionais, investimentos privados e contratos financiados pelo Estado, transparência deixa de ser opção. Torna-se obrigação.
No Paraná, onde 39 escolas e milhares de estudantes já estão sob administração do braço de um grupo que faturou R$ 1,747 bilhão em apenas seis meses, saber quem está por trás desse negócio é apenas o começo.
A próxima pergunta é quanto o contribuinte paranaense está pagando por ele.
Créditos: Redação
