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Depósitos no partido, almoço de R$ 5 mil e medo de demissão: áudios explodem crise na Sanepar

Conversas citam almoço de R$ 5 mil, depósitos fracionados na conta do partido e uso de planilhas para diferenciar quem permaneceu em cargos após a eleição dentro da estatal

Por Gazeta do Paraná

Depósitos no partido, almoço de R$ 5 mil e medo de demissão: áudios explodem crise na Sanepar Créditos: Criada com IA

Os novos áudios vazados envolvendo a Sanepar aprofundam a crise política e institucional que cerca a estatal. Diferentemente das gravações anteriores - que já apontavam pedidos de campanha, entrega de dinheiro e influência política sobre decisões internas -, o material agora revelado expõe planilhas paralelas, depósitos fracionados de R$ 5 mil em conta partidária e a associação direta entre doações eleitorais e a permanência de servidores em cargos de confiança.

Na conversa, dois interlocutores discutem abertamente o uso de uma planilha que relacionaria nomes de pessoas que fizeram doações e, por isso, não foram desligadas, documento que estaria sendo utilizado como base em ações judiciais que pedem reintegração ao cargo.

“Como tem gente que fez doação e não foi mandado embora, seu nome tá na planilha e vai usar como base isso aí”, afirma um dos participantes.

A fala sugere que a contribuição financeira teria funcionado como critério informal de diferenciação funcional, criando um divisor claro entre quem “ficou” e quem “caiu” após o processo eleitoral.

 

Depósitos fracionados e referência direta ao partido

Em outro trecho, os interlocutores indicam que a comprovação das doações poderia ser feita por meio de depósitos recorrentes de R$ 5 mil na conta do partido.

“É só você colocar no processo para eles verificarem o tanto de depósito de 5 mil reais que caiu na conta lá do partido.”

Embora o áudio não cite nominalmente a sigla, o próprio contexto aponta para o Partido Social Democrático (PSD), legenda do governador Ratinho Júnior e também de Reinhold Stephanes, mencionado como uma das pessoas presentes em um dos eventos pagos citados na conversa.

A associação é reforçada quando os interlocutores relatam que apenas filiados ao partido podiam participar de determinados almoços, enquanto outros, mesmo obrigados a comprar convites, não tinham autorização para comparecer.

“A gente tinha que comprar e não podia ir.”

 

O papel do tesoureiro e a cadeia interna de repasses

O áudio cita nominalmente Claudio Stabile (ex-presidente da Sanepar) identificado como tesoureiro da campanha, descrito como responsável por dar “total aval” para que a arrecadação fosse operacionalizada por meio da compra de convites.

“O Claudio era o tesoureiro da campanha… deu total aval pra que os gerentes comprassem.”

Segundo o diálogo, os valores arrecadados eram repassados aos chamados “GGs” - sigla que, pelo contexto da conversa, se refere provavelmente aos cargos de gerência geral dentro da estrutura da empresa. Esses gestores, por sua vez, teriam redistribuído a cobrança entre diretores e coordenadores regionais.

No relato específico, um dos interlocutores afirma que os valores teriam sido encaminhados por Luizinho, que repassou o montante a Evelize, antes de chegar aos destinatários finais.

Também são mencionados Rafael, que teria distribuído convites em episódio semelhante anterior, e José Marcos, apontado como alguém que orientou servidores a não utilizarem recursos da Sanepar para participar dos eventos partidários.

 

Eventos pagos, restrições e tentativa de blindagem administrativa

O diálogo descreve uma rotina de eventos partidários financiados por meio da compra compulsória de convites, com valores que, segundo os próprios interlocutores, chegaram a ser “dez vezes maiores” em campanhas anteriores. Em 2022, a cobrança de R$ 5 mil teria ocorrido logo após o pagamento do PPR (Programa de Participação nos Resultados) em um movimento descrito como previamente esperado.

“Depositou o PPR e já tinha que depositar todo esse valor.”

Apesar de a arrecadação envolver servidores e gestores da estatal, havia orientação expressa para evitar rastros administrativos: nada de uso de carros, hospedagem ou diárias pagas pela Sanepar. Ainda assim, o áudio cita a presença de lideranças políticas no evento, incluindo Reinhold Stephanes, cuja participação teria sido registrada em fotos.

 

Pagamentos sem identificação e uso de provas paralelas

Outro ponto sensível é a afirmação de que os pagamentos não puderam ser identificados nominalmente, o que dificulta o rastreamento individual das doações.

“Eles não deixaram a gente identificar o pagamento.”

Ao mesmo tempo, os interlocutores mencionam fotos, conversas salvas e planilhas mantidas como prova, material que agora começa a ser mobilizado em disputas judiciais e administrativas.

 

Um novo patamar de gravidade

Ao detalhar valores, datas, nomes, funções e o partido envolvido, os novos áudios elevam a crise da Sanepar a um patamar mais concreto e verificável. O que emerge não é apenas uma denúncia política, mas o retrato de um mecanismo informal de arrecadação, com divisão interna de tarefas e impacto direto sobre a vida funcional de servidores.

A naturalidade com que o esquema é descrito - como algo conhecido e já repetido - reforça a percepção de que não se trata de um episódio isolado. A crise, que começou nos bastidores, agora se consolida como um dos capítulos mais sensíveis da relação entre estatal, partido e poder político no Paraná.

 

Leia a transcrição completa das conversas e ouça os áudios a seguir:

Nota editorial: A transcrição abaixo reproduz fielmente o conteúdo do áudio divulgado, com ajustes apenas de pontuação e organização para facilitar a leitura. Expressões coloquiais foram mantidas. Trechos interrompidos ou com falha de áudio estão indicados.

 

Falante 1: Ô, Fabião, beleza? Tudo bem? Ó, só queria deixar você ciente aí que meu advogado vai usar a planilha lá pra solicitar meu retorno, tá? Como tem gente que fez doação e não foi mandado embora, seu nome tá na planilha e vai usar como base isso aí, tá bom? Só pra você ficar ciente, tá? E daí a gente tem provas, né, de que todo mundo que fez doação e também não saiu, tá bom? Então, só pra te avisar aí, beleza? Pra você ficar ciente.

 

Falante 2: Um abraço. Cortou, cortou. Cortou, Diego, não entendi.

 

Falante 3: Oi, oi, oi. Oi. Não, e outra, dependendo, é só você colocar no processo pra eles verificarem o tanto de depósito de cinco mil reais que caiu no, como é que fala, na conta lá do partido, entendeu?

 

Falante 2: Eu entendi, mas assim, foi o Claudio Stable que encaminhou os convites?

 

Falante 3: É, o Claudio, ele era o tesoureiro da campanha do Ratinho, certo?

 

Falante 2: Aham. Cortou. Ele repassou?

 

Falante 3: Oi, oi, que eu tô no celular. Ele repassou tudo isso pros GG. No meu caso, foi o Luizinho que repassou pra Evelize, e que passou pra gente, entendeu?

 

Falante 2: Foi pro GG que ele passou igual foi na época do Rafael, né? Passou uma quantidade de convite pro Rafael, o Rafael distribuiu pra nós.

 

Falante 3: Só que o valor era dez vezes maior.

 

Falante 2: É, só que dessa vez foi cinco mil, né? É, dessa vez foi cinco mil. Foi cinco mil. É, mas aí foi encabeçado pelo…

 

Falante 3: Não, sim, o Claudio estava… era o tesoureiro da campanha.

 

Falante 2: É, foi encabeçado pelo Claudio, quer dizer, o Claudio deu total aval pra que os gerentes comprassem, né? Que o GG repassasse.

 

Falante 3: Os GG, os diretores, entendeu? Eu só não sei se foi repassado pros assistentes, entendeu? Pros apoios. Mas pros coordenadores foi repassado também.

 

Falante 2: Mas nessa época aí, pelo menos… foi em 2022? Depois da eleição? Foi depois da eleição, né? Foi bem na época que eu fui demitido, acabou a…

 

Falante 3: Eleição. No ano seguinte veio o PPR. Acabou o PPR. Tipo assim: depositou o PPR e já tinha que depositar todo esse valor. Nossa Senhora, porque foi meio casado. Ele já sabia que todo mundo ia receber dinheiro.

 

Falante 2: Aí…

 

Falante 3: Ele me pegou e fez assim: “não, não, vai dar pra… como é que fala? Pegar dinheiro do povo”.

 

Falante 2: E esse de cinco mil foi igual o outro, Diego, que a gente tinha que comprar e não tinha que ir? Não tinha almoço?

 

Falante 3: Isso. Não, não. Teve o almoço.

 

Falante 2: Teve o almoço.

 

Falante 3: Peguei a janta lá, não sei o quê, né? Mas… só que não foi nessa… parece que isso não…

 

Falante 2: Alô?

 

Falante 3: Oi. Mas teve, sim.

 

Falante 2: Mas cortou, não escutei nada. Você falou que teve o almoço, mas não teve o quê?

 

Falante 3: Não, não. Parece que não foi, se eu não me engano, acho que não foi naquela data que tava marcado. Foi numa outra data. Mas teve, sim. Eu lembro até que o coordenador de Umuarama foi. Eu lembro de ter visto algumas fotos do Reinhold Stephanes nesse evento.

 

Falante 2: Então, mas teve o outro almoço lá dos quinhentão. Só podia ir quem era filiado no partido. E como a gente na época não era filiado no partido, a gente tinha que comprar e não podia ir.

Falante 3: Isso. Inclusive eu lembro que até o José Marcos, meu diretor, falou assim: “ó, você pode até ir lá pro evento, mas se você for, você vai ter que ir com recurso próprio. Nada de pegar, se hospedar com dinheiro da Sanepar, sabe?”Tipo, arrumar um carro lá e ir com o carro da Sanepar e me hospedar em hotel lá. Entendeu? Essa foi a orientação deles.

 

Falante 2: Não, mas beleza. Eu vou articular aqui pra eu montar a minha defesa.

 

Falante 3: Você tem a foto que eu mandei pra você, né?

 

Falante 2: Tenho, tenho sim.

 

Falante 3: Não, beleza. É que eu não tô com ela mais no celular, tá?

 

Falante 2: Tô até procurando aqui. Não, eu tenho sim. Eu salvei ela. Eu tirei da conversa nossa, mas eu salvei. Eu apaguei ela da conversa, mas salvei.

 

Falante 3: Não, é tranquilo.

 

Falante 2: Porque lá não vai aparecer de quem que era aquele convite, entendeu? É, não, porque tem que preencher, né? Mas aquele lá, você teve que comprar um também? Cada coordenador, sim. Nossa Senhora, você morreu com cinco mil então, Diego? Aí é duro, hein?

 

Falante 3: Só que eles não deixaram a gente identificar o pagamento.

 

Falante 2: Também, entendeu? Não, mas beleza. Tranquilo, meu irmão. Muito obrigado, viu?

 

Falante 3: Mas é assim, ó: eu não falo… toda informação que eu puder te ajudar, cara, você sabe que você pode contar comigo.

 

Falante 2: Tranquilo, meu irmão. Agradeço. Obrigado, viu? Deus abençoe. Bom final de semana.

Falante 3: Vamos torcer pra você voltar logo, se Deus quiser.

Falante 2: Amém. Abraço, fica com Deus. Tchau, tchau.

 

Créditos: Redação Acesse nosso canal no WhatsApp