GCAST

Dependência da China molda exportações do Paraná e coloca Brasil diante de novo teste no agro

China já é o principal destino das exportações paranaenses e brasileiras; agora, limites nas compras de carne e mudanças no comércio global acendem alerta no estado e no país

Por Gazeta do Paraná

Dependência da China molda exportações do Paraná e coloca Brasil diante de novo teste no agro Créditos: Cheng Xin/Getty Images

O impacto das mudanças no comércio global com a China começa pelo Paraná. O estado fechou 2025 com desempenho histórico no comércio exterior, mas o dado que mais chama atenção não é o volume exportado — e sim a dependência do principal cliente. Hoje, a China lidera com folga o destino das vendas externas paranaenses e molda o rumo da economia exportadora local.

 

Paraná exporta mais, mas com forte concentração na China

O comércio exterior paranaense fechou 2025 com resultados positivos. O estado registrou cerca de US$ 23,6 bilhões em exportações e manteve superávit comercial pelo terceiro ano seguido, impulsionado por soja, carnes e automóveis. 

O principal destino dessas vendas é a China. Dados de comércio exterior indicam que o país asiático absorve quase um terço das exportações do estado — cerca de 28% do total — bem à frente de mercados tradicionais como Argentina e Estados Unidos. 

O peso chinês é ainda mais visível nos setores que sustentam a economia do interior paranaense, como proteína animal e grãos. O Paraná é líder nacional em exportação de frango e tem forte presença em soja e carnes, produtos diretamente ligados à demanda asiática.

 

Superávit histórico, mas com sinal amarelo

Apesar do bom desempenho, o cenário internacional não foi simples. O comércio exterior do Paraná cresceu pouco mais de 1% em 2025 e ainda assim foi considerado histórico, graças à resiliência do agro e da indústria exportadora. 

A leitura entre especialistas é que o resultado positivo veio mais da capacidade produtiva do estado do que de um ambiente global favorável — o que torna a dependência de um único grande comprador um fator de risco crescente.

 

Novo fator de pressão: carne brasileira sob limites

O alerta mais recente vem do setor de carnes, central para o Paraná. O Brasil discute a criação de cotas por empresa para exportar carne bovina à China, após Pequim estabelecer um limite tarifário para compras em 2026. 

O teto anual sem sobretaxa deve ficar pouco acima de 1 milhão de toneladas — abaixo do volume exportado em 2025 — o que gerou temor de uma corrida entre frigoríficos para garantir espaço no mercado. 

A China responde por quase metade das exportações brasileiras de carne bovina, o que transforma qualquer ajuste em impacto direto sobre preços, margens e produção. 

Para estados como o Paraná, que têm forte base agroindustrial, mudanças desse tipo tendem a repercutir em toda a cadeia: do produtor ao porto.

 

Do Paraná para o Brasil: dependência estrutural

O que aparece no Paraná se repete em escala nacional. A China é hoje o principal parceiro comercial do Brasil e concentra boa parte das exportações de commodities — soja, carnes e minério. 

O país asiático chegou a responder por cerca de metade das exportações brasileiras de carne bovina, além de liderar a compra de grãos. 

Essa relação traz ganhos claros, como superávits comerciais robustos, mas também cria vulnerabilidade: decisões regulatórias chinesas passam a influenciar diretamente a renda do agro brasileiro e o desempenho da balança comercial.

Relação que pode mudar de tom

O debate sobre cotas de carne mostra que a dependência começa a gerar reações internas. O governo brasileiro tenta evitar uma “corrida desenfreada” por exportações que poderia desorganizar o mercado doméstico e pressionar preços internos. 

Ao mesmo tempo, a diversificação de mercados volta à pauta, especialmente diante de um cenário global mais instável e de maior intervenção comercial por parte das grandes economias.

 

O que fica no radar

Para o Paraná, o desafio imediato é equilibrar dois vetores: aproveitar o dinamismo do comércio exterior sem ampliar ainda mais a concentração em um único destino.

Para o Brasil, a equação é maior: manter o protagonismo como fornecedor global de alimentos sem ficar excessivamente exposto a decisões comerciais de Pequim.

A balança comercial segue positiva, mas a mensagem dos números é clara: quanto mais a China cresce como cliente, mais o país se torna também um fator de risco estratégico — primeiro para estados exportadores como o Paraná, depois para toda a economia brasileira.

Créditos: Redação Acesse nosso canal no WhatsApp