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Corrupção no topo, precarização na base: entrevista revela visão dos trabalhadores da Sanepar

Sindicato afirma que denúncias atingem o alto escalão indicado politicamente, não o corpo técnico da companhia, e relaciona terceirizações e PPPs à precarização do serviço e ao avanço do projeto de privatização no Paraná

Por Gazeta do Paraná

Corrupção no topo, precarização na base: entrevista revela visão dos trabalhadores da Sanepar Créditos: Reprodução GCast

Os áudios que vieram a público nas últimas semanas, com indícios de corrupção envolvendo integrantes do alto escalão da Sanepar, não apenas colocaram a empresa sob pressão institucional, como também expuseram, segundo os trabalhadores, um processo mais amplo e silencioso de desgaste interno. Para quem está na linha de frente do saneamento no Paraná, as denúncias revelam uma crise que ultrapassa os áudios e se conecta à precarização do trabalho, ao esvaziamento técnico da companhia e ao avanço de um projeto de privatização.

Essa leitura foi apresentada por Rodrigo Picinin, presidente do Saemac, em entrevista ao Gazeta Entrevista. Ao longo da conversa, Picinin procurou separar responsabilidades, defender o corpo técnico da empresa e contextualizar os episódios recentes dentro de um modelo de gestão que, segundo ele, se distancia do interesse público.

Logo no início, o dirigente sindical relatou o impacto dos áudios entre os trabalhadores. “A classe trabalhadora fica muito triste com essa situação, porque a Sanepar é uma empresa construída há mais de 60 anos. Ela nasceu em 1963 e tem um objetivo muito além de levar água tratada e coletar esgoto. A Sanepar leva saúde para o povo paranaense”, afirmou.

Na avaliação dele, o incômodo cresce porque o conteúdo dos áudios aponta para práticas concentradas no alto escalão, enquanto o desgaste recai sobre toda a empresa. “A grande cúpula da Sanepar, na maioria das vezes, não é formada por funcionários de carreira. Eles são equipe do governo do Estado”, disse.

 

Base concursada rejeita associação com escândalos

Ao longo da entrevista, Picinin insistiu em afastar qualquer tentativa de generalização. Para ele, associar os trabalhadores às denúncias é injusto e desonesto. “95% dos trabalhadores que desenvolvem o seu trabalho aqui dentro da companhia são concursados. São trabalhadores com 30, 40 anos de casa. Tenho certeza de que nenhum deles está envolvido nesses escândalos”, afirmou.

Segundo o dirigente, o sentimento predominante entre os empregados é de indignação. “Nós que levamos a companhia de saneamento nas costas, que construímos os índices de rentabilidade da empresa, somos colocados no mesmo pacote dessa laia que vem para dilapidar o patrimônio público. Isso ofende e chateia profundamente o trabalhador”.

Mesmo diante da crise, ele destacou que o funcionamento da empresa segue garantido pela base. “O trabalhador que está no tratamento de água, na manutenção, no atendimento ao público, não tem nada a ver com esse envolvimento. Ele preza pela saúde pública e pelo serviço prestado à população”.

 

Gestão política e interesses desalinhados

A crítica do presidente do Saemac avançou, então, para o modelo de gestão adotado na companhia. Para Picinin, a centralização de decisões em cargos indicados politicamente compromete o interesse público. “Quando presidente, diretor, gerente geral, coordenador, tudo é indicado pelo governo do Estado, muitas vezes os interesses não são compatíveis com os interesses da população”, afirmou.

Ele defendeu que o conhecimento técnico acumulado ao longo de décadas dentro da empresa é sistematicamente desprezado. “Nós temos funcionários com mais de 40 anos de casa, com um acervo técnico de conhecimento inesgotável. Esses trabalhadores deveriam ter acesso aos cargos de mando, porque aí sim haveria compromisso com o saneamento público”.


Lucros elevados e empobrecimento da base

Na sequência, Picinin destacou a contradição entre os resultados financeiros da Sanepar e a realidade dos trabalhadores. “Existe a Sanepar vendida para a população e para os acionistas, que deu mais de 1,2 bilhão de lucro, e existe a Sanepar que senta na mesa para negociar acordo coletivo, que sempre diz que está em dificuldade”, afirmou.

Segundo ele, a defasagem salarial acumulada ultrapassa 100%. “O sanepariano não acompanha nem o que a empresa cobra na fatura dos clientes. Tem trabalhador com dificuldade de pagar a própria conta de água”.

A consequência direta, segundo Picinin, é o empobrecimento da base da empresa. “Tem sanepariano com mais de 20 anos de empresa que precisa de outro emprego para complementar renda, porque não consegue sobreviver pagando aluguel e criando filhos com o salário que recebe”.


Terceirização, desabastecimento e perda de qualidade

Ao abordar episódios recentes de falta de água em cidades como Guaratuba e Ponta Grossa, Picinin estabeleceu uma relação direta com a precarização do trabalho. “A consequência é direta. Não é reflexo, é direta. Quando você substitui trabalhador qualificado por mão de obra precarizada, o serviço cai”, afirmou. Rodrigo destacou que os baixos salários pagos aos profissionais terceirizados resultam em uma grande rotatividade, mas defendeu a atuação destes trabalhadores. Para ele, estes profissionais deveriam ter a oportunidade de adentrar a equipe de funcionários concursados da companhia, para que tivessem condições de trabalho e qualificação profissional.

Ele relatou situações extremas enfrentadas por trabalhadores da companhia. “Em Ponta Grossa, tivemos trabalhador ficando mais de 24 horas em serviço, por vontade própria, preocupado com a população. Porque ficar uma ou duas horas sem água já é difícil, imagina dias”.

Mesmo com o avanço da terceirização, segundo ele, o peso das crises operacionais recai sobre os empregados de carreira. “Tem uma família sanepariana por trás de cada torneira que se abre”.


Sanepar à beira da privatização 

O debate avançou para as parcerias público-privadas, apontadas por Picinin como eixo central do atual modelo de gestão. “Parceria público-privada nada mais é do que privatização camuflada”, afirmou.

Ele explicou que, nesse formato, empresas privadas assumem sistemas já estruturados por contratos de até 30 anos. “Essas empresas pegam a estação de tratamento pronta, fazem a gestão e recebem da Sanepar. O investimento pesado já foi feito pelo Estado”.

Para Picinin, o argumento de que as PPPs seriam indispensáveis para cumprir o marco regulatório do saneamento não se sustenta. “A Sanepar conseguiria cumprir a universalização até 2033 sem PPPs. Dizer que a PPP é a salvação é mentira”.

Na leitura do dirigente sindical, a precarização não ocorre por acaso. “Programas de demissão voluntária, aposentadorias incentivadas, terceirização… tudo isso é construído para que a população diga que a empresa pública não funciona e que a solução é privatizar”, afirmou.

É nesse contexto que, segundo ele, os áudios devem ser compreendidos. “Esses áudios não surgem por acaso. Eles são um sinal claro da precarização da empresa pública e do fortalecimento do projeto de privatização do governo do Estado”.

Ao final da entrevista, Picinin recorreu a exemplos externos para ilustrar os riscos do processo. Segundo ele, os efeitos da privatização já são visíveis em outros estados. Ao citar o caso de São Paulo, após a privatização da Sabesp, afirmou que os problemas começaram a se tornar recorrentes. “Hoje já temos problemas. Em São Paulo, já tem falta de água, água suja, famílias ficando mais de uma semana sem abastecimento. E sem energia não tem água. É um absurdo colocar energia e saneamento nas mãos da iniciativa privada”.

 

“É muito difícil quando a gente acredita em mentiroso”

Picinin também relembrou promessas feitas em períodos eleitorais para reforçar sua crítica. “É muito difícil quando a gente acredita em mentiroso. Um pouco antes da eleição, tem vídeo do governador dizendo que a Copel era do povo, que não estava no escopo de venda. Nem um ano depois, a Copel foi vendida”.

Para ele, a repetição desse modelo aprofunda os riscos. “Saneamento é saúde. Energia é essencial. Privatizar isso é transferir decisões fundamentais para interesses que não são os do povo”.

 

Serviço essencial sob disputa

Encerrando a entrevista, Picinin sintetizou sua visão sobre o papel do Estado. “A iniciativa pública é eficiente, sim. Ela só não funciona quando o governo do Estado não quer que funcione”.

Créditos: Redação Acesse nosso canal no WhatsApp