Copel Agro busca responder à crescente demanda por energia no campo
programa ultrapassa 100 mil atendimentos; expansão da rede trifásica e incentivo à conexão das propriedades integram estratégia
Por Gazeta do Paraná
Créditos: Reprodução Copel
Aos 18 anos, Felipe Skura já administra uma rotina que ajuda a dimensionar o quanto a produção rural mudou nas últimas décadas. Na propriedade da família, em Cafelândia, são 18 aviários e seis tanques de tilápia. A atividade começou com o avô, passou pela geração do pai e agora vive um processo de sucessão. Felipe trabalha no campo desde os 14 anos e hoje participa do gerenciamento da operação.
Entre uma geração e outra, no entanto, não mudou apenas a escala da produção. Automação, motores, sistemas de ventilação, alimentação e monitoramento fizeram da energia elétrica uma infraestrutura essencial para manter a atividade funcionando.
“Hoje em dia é 100%. Se a gente não tem energia, não trabalha”, resume Felipe ao falar da dependência elétrica da avicultura e da piscicultura. A família mantém geradores para situações de emergência, mas interrupções provocadas por temporais, quedas de árvores e outros problemas na rede continuam exigindo atenção constante.
É diante dessa transformação que a Copel tenta reorganizar parte de sua estrutura voltada ao meio rural. Criado neste ano, o Copel Agro busca oferecer atendimento específico a cadeias produtivas nas quais uma interrupção de energia pode provocar impactos imediatos.
Desde o início oficial do programa, em 6 de abril, o serviço já ultrapassou a marca de 100 mil atendimentos, segundo o gerente executivo do Copel Agro, Marcelo Gonçalves. A maior parte envolve demandas comerciais, mas o modelo também prevê uma estrutura diferenciada para ocorrências relacionadas ao fornecimento de energia.
Campo eletrointensivo
A criação do programa foi precedida por conversas com cooperativas e entidades ligadas ao setor produtivo. O diagnóstico apontou uma realidade particularmente sensível entre produtores de leite, suínos, aves e peixes, além dos fumicultores.
Marcelo define parte dessas atividades como “eletrointensivas”. Em um aviário moderno, por exemplo, equipamentos responsáveis por ventilação, climatização, alimentação e outras funções não podem simplesmente permanecer desligados por períodos prolongados.
O atendimento do Copel Agro procura levar essa particularidade em consideração. Os produtores são identificados a partir da classificação da unidade consumidora e direcionados ao atendimento específico. A ligação é feita com atendentes humanos, treinados para lidar com as demandas do setor rural e instalados próximos ao Centro de Operação da companhia.
A opção pelo atendimento humano é um dos pontos centrais do modelo. Segundo Marcelo, o produtor não é direcionado a um robô quando procura o canal específico do Copel Agro. A proposta é que a ocorrência seja recebida por alguém capaz de compreender as particularidades da atividade e, quando necessário, buscar informações diretamente com a operação.
Na avaliação de Felipe Skura, essa diferença é percebida justamente quando surge um problema que exige mais do que uma resposta padronizada. “Quando a gente está conversando com um ser humano, principalmente um eletricista que já trabalha nessa área do agro, a gente percebe que ele sabe o que a gente precisa”, afirma.
Ele relata que algumas situações chegaram a ser solucionadas durante o próprio contato telefônico. Segundo Felipe, problemas que anteriormente poderiam percorrer diferentes etapas de atendimento passaram a encontrar uma resposta mais direta quando o profissional consegue compreender o que está acontecendo na propriedade. “Muitas vezes, a gente já resolveu problemas pelo telefone, muito por estar conversando com um ser humano”, conta.
Outra diferença é o retorno ao cliente durante uma ocorrência. O atendente pode consultar a operação, verificar o que está acontecendo e informar uma previsão ao produtor. Se o cenário mudar, um novo contato pode ser feito.
A informação tem efeito prático. Saber se o fornecimento deverá ser restabelecido rapidamente ou levar algumas horas, por exemplo, ajuda o produtor a decidir se será necessário acionar um gerador por mais tempo ou providenciar combustível adicional.

95% de aprovação
Segundo a Copel, o atendimento específico registra atualmente 95% de aprovação. O número é obtido por meio de uma pesquisa opcional oferecida ao final das ligações.
Os usuários podem atribuir notas de 1 a 5 ao serviço, sendo consideradas satisfatórias as avaliações 4 e 5. De acordo com Marcelo, 95% dos participantes estão nessas duas faixas. A adesão à pesquisa supera 33% dos atendimentos.
Na propriedade da família Skura, Felipe afirma ter percebido mudança principalmente na especialização do contato. Segundo ele, anteriormente havia atendimento, mas o processo podia ser mais demorado e nem sempre quem recebia a demanda conhecia as particularidades da atividade rural.
“Hoje, com o Copel Agro, a gente percebe muito mais um atendimento principalmente personalizado para o produtor. O pessoal que trabalha na área sabe do que a gente precisa”, relata.
Felipe conta que a família utiliza o serviço com frequência. Em uma ocorrência recente, duas propriedades em Nova Aurora ficaram sem energia. Um funcionário identificou um galho próximo a um poste e repassou a informação durante o atendimento. Segundo ele, a ocorrência foi solucionada em menos de uma hora e meia.
Rede trifásica
O atendimento, entretanto, é apenas uma parte da discussão. O aumento da dependência energética também exige uma rede capaz de suportar equipamentos mais potentes e uma produção cada vez mais automatizada.
Nos últimos anos, foram investidos R$ 3 bilhões na construção de 25 mil quilômetros de redes trifásicas. Segundo o gerente executivo de Projetos da Copel, Rafael Radaskievicz, o projeto priorizou regiões com forte vocação para o agronegócio e teve o Oeste entre os principais territórios atendidos.
A diferença não se resume à disponibilidade de energia. A rede trifásica amplia as possibilidades de utilização de equipamentos mais potentes e eficientes e oferece uma estrutura mais robusta diante das condições climáticas enfrentadas principalmente no meio rural.
“Sem dúvidas, a modernidade do agronegócio requer tanto um perfil eletrointensivo como também eletrodependente da energia elétrica”, afirma Rafael.
Na prática, porém, ter uma rede trifásica próxima não significa que a propriedade esteja automaticamente conectada a ela. O produtor interessado precisa solicitar aumento de carga. A Copel avalia as condições técnicas e a distância da rede, prepara um projeto e apresenta um orçamento indicando os custos da obra e as parcelas atribuídas à distribuidora e ao consumidor.
A mudança também pode exigir adaptações dentro da propriedade, como alteração do padrão de entrada, quadros, fiação e motores.
Na família Skura, praticamente todas as unidades já contam com trifásico. Na data da entrevista, a última propriedade ainda atendida por rede monofásica, em Nova Aurora, estava justamente passando pela conversão.
Felipe aponta a redução dos problemas com motores como uma das diferenças percebidas. Um único aviário pode utilizar mais de dez motores e, segundo ele, as ocorrências de queima e os gastos com manutenção elétrica diminuíram com a estrutura trifásica.
Crédito para conexão
O custo para levar a rede até a propriedade e fazer as adaptações internas, porém, pode representar uma barreira. É nesse ponto que entra o Se Liga Aí, Paraná, iniciativa que utiliza mecanismos do crédito rural para incentivar a migração ao sistema trifásico.
Segundo Herlon Almeida, do IDR-Paraná, o programa é aberto a produtores rurais pessoas físicas ou jurídicas, independentemente do porte da propriedade, embora haja prioridade para cadeias de proteína animal, agroindústrias e fumicultura, devido à maior demanda por energia.
O mecanismo prevê que o programa assuma cinco pontos percentuais da taxa de juros contratada quando o investimento é financiado pelo crédito rural. Há ainda desconto no orçamento da obra. A subvenção dos juros depende da contratação de financiamento, enquanto o desconto pode alcançar também produtores que realizem o investimento com recursos próprios.
Podem ser financiadas tanto a extensão externa da rede trifásica até a entrada da propriedade quanto adaptações internas, como fiação, quadros de comando e troca de motores.
As condições de crédito variam conforme o enquadramento de cada produtor. Agricultores familiares podem utilizar linhas do Pronaf, médios produtores, do Pronamp, e os demais podem recorrer às linhas destinadas à agricultura empresarial.
Para participar, o produtor deve inicialmente obter o orçamento da parte externa com a Copel ou uma empresa homologada e levantar os custos das adequações internas. Depois, procura uma instituição que opere crédito rural para definir seu enquadramento e, com essas informações, busca uma unidade do IDR-Paraná para encaminhar a adesão ao programa e o benefício da subvenção.
A meta é chegar a 2,5 mil produtores até junho de 2027. De acordo com Herlon, 110 produtores foram alcançados no primeiro mês de funcionamento.
Tecnologia e sucessão
Na família Skura, a mudança na infraestrutura elétrica também se mistura a outra transformação vivida pelo campo: a chegada de uma nova geração à gestão das propriedades.
Felipe conta que, quando começou a trabalhar mais diretamente na atividade, havia três unidades atendidas por rede monofásica. Problemas com motores, contatores, disjuntores e instalações exigiam tempo e manutenção frequente.
“Me desanimava, porque era um trabalho absurdo e ia continuar rodando igual”, lembra. Hoje, ele associa a melhora da infraestrutura à redução de custos e, principalmente, do tempo gasto com manutenção.
A próxima etapa, para ele, é ampliar o uso de tecnologia. Entre os equipamentos que pretende incorporar estão filtros de água mais modernos, balanças digitais e sistemas de monitoramento das aves. São ferramentas que exigem não apenas acesso à eletricidade, mas estabilidade suficiente para operar equipamentos eletrônicos mais sensíveis.
A experiência ajuda a mostrar por que a discussão sobre energia no campo mudou de dimensão. Em propriedades cada vez mais automatizadas, fornecimento, infraestrutura e capacidade de resposta às interrupções deixaram de ser apenas questões operacionais. Passaram a interferir diretamente no custo, na produtividade e até nas condições para que uma nova geração enxergue futuro na atividade rural.
Créditos: Redação
