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Brasil transforma imposto em parte pesada da conta: roupas, cosméticos e eletrônicos custam muito mais ao consumidor

Comparação apresentada em levantamento coloca a tributação brasileira muito acima das taxas dos Estados Unidos e do Paraguai em produtos do cotidiano; em alguns casos, a carga chega a 130%, enquanto nos países vizinhos fica em 10%

Por Repórter Gazeta do Paraná

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Brasil transforma imposto em parte pesada da conta: roupas, cosméticos e eletrônicos custam muito mais ao consumidor Créditos: Divulgação

O brasileiro já se acostumou com a ideia de que comprar um produto significa, antes de tudo, pagar imposto. O problema é quando a comparação com outros países mostra o tamanho da diferença — e revela que boa parte do preço final de itens básicos de consumo pode estar ligada justamente à pesada estrutura tributária brasileira.

Uma comparação que circula nas redes sociais coloca lado a lado Brasil, Estados Unidos e Paraguai e apresenta números bastante expressivos para produtos como notebooks, roupas, cosméticos, energia elétrica e smartphones. Pelos dados da imagem, enquanto Estados Unidos e Paraguai aparecem com taxas de 7% e 10%, respectivamente, o Brasil chega a 60% sobre notebooks, 92% sobre roupas, 130% sobre cosméticos, 45% sobre energia elétrica e 68% sobre smartphones.

É importante fazer uma ressalva: esses percentuais não devem ser tratados automaticamente como se fossem uma única alíquota de imposto cobrada diretamente no caixa. A tributação brasileira envolve diferentes impostos e pode variar conforme produto, origem, estado, regime tributário e metodologia utilizada para calcular o peso dos tributos na cadeia. Ainda assim, a comparação expõe uma discussão que o consumidor brasileiro conhece muito bem: por que determinados produtos custam tanto mais aqui?

No caso das roupas, por exemplo, a imagem aponta 92% no Brasil, contra 7% nos Estados Unidos e 10% no Paraguai. O número brasileiro é compatível com estimativas já divulgadas pelo Instituto para o Desenvolvimento do Varejo, que apontou carga tributária de até 92% para vestuário e calçados, considerando a cadeia produtiva. Para itens de beleza, o mesmo estudo chegou a 130%.

E é justamente aí que a comparação deixa de ser apenas uma discussão sobre números e passa a atingir diretamente o bolso.

Um perfume, um cosmético, uma roupa, um celular ou um computador não são artigos de luxo para grande parte da população. São produtos presentes na rotina, no trabalho, nos estudos e no consumo das famílias. Quando a tributação pesa excessivamente sobre eles, o consumidor paga mais, o comércio enfrenta dificuldade para competir e o mercado informal ganha espaço.

Nos eletrônicos, a diferença também chama atenção. O levantamento apresentado na imagem indica 60% de tributação sobre notebooks no Brasil, contra 7% nos Estados Unidos e 10% no Paraguai. Em 2026, uma comparação de preços feita pelo Poder360 mostrou que diversos eletrônicos são significativamente mais baratos no Paraguai. Um iPhone 17 de 256 GB, por exemplo, foi encontrado por cerca de R$ 4.250 no país vizinho, enquanto custava R$ 7.999 na loja brasileira. O MacBook Air M5 aparecia por aproximadamente R$ 5.600 no Paraguai, contra R$ 13.999 no Brasil. Segundo o levantamento, os impostos sobre eletrônicos ajudam a explicar boa parte dessa diferença.

Não é por acaso que Ciudad del Este continua sendo um destino tão procurado por brasileiros. O consumidor não atravessa a fronteira apenas em busca de uma pechincha. Muitas vezes, ele está simplesmente tentando comprar o mesmo produto por um preço que caiba no orçamento.

A própria realidade recente das compras internacionais reforça esse contraste. Desde agosto, lojas paraguaias passaram a enviar determinados produtos diretamente ao Brasil por meio dos Correios, dentro do programa Remessa Conforme. Mesmo nessas operações, entretanto, continuam existindo impostos: compras de até US$ 50 em empresas habilitadas não pagam Imposto de Importação, mas continuam sujeitas ao ICMS, que varia entre 17% e 20%. Acima desse valor, aplica-se a regra de 60% de Imposto de Importação, com desconto previsto na legislação, além do ICMS.

Na energia elétrica, a situação é ainda mais sensível porque não existe consumidor que possa simplesmente decidir não pagar a conta. A imagem aponta uma carga de 45% no Brasil, contra 10% nos Estados Unidos e no Paraguai. Estudos do setor mostram que tributos e encargos representam uma parcela muito elevada da receita das empresas de energia. Em 2023, levantamento da PwC apontou carga conjunta de tributos e encargos setoriais equivalente a 46,2% da receita operacional bruta das empresas analisadas.

Ou seja: quando chega a conta de luz, não está sendo cobrada apenas a energia consumida. Há uma extensa estrutura tributária e de encargos embutida no preço.

O Brasil, evidentemente, precisa arrecadar para financiar saúde, educação, segurança, infraestrutura e serviços públicos. A questão não é simplesmente defender imposto zero. A pergunta é outra: até que ponto o cidadão pode continuar sendo chamado a pagar mais sem receber, na mesma proporção, serviços públicos eficientes e um ambiente econômico competitivo?

A própria Receita Federal reconhece que a reforma tributária do consumo foi desenhada com a promessa de simplificar e modernizar o sistema, substituindo gradualmente tributos como PIS, Cofins, ICMS e ISS por CBS e IBS, além do Imposto Seletivo.

Mas simplificar não necessariamente significa reduzir a conta.

E esse é o ponto que precisa ser acompanhado de perto pelo consumidor. Não adianta trocar cinco nomes por dois se, no final, o brasileiro continuar pagando uma das contas mais pesadas para comprar, morar, trabalhar e produzir.

Enquanto nos Estados Unidos a comparação da imagem apresenta 7% para vários produtos e no Paraguai 10%, o Brasil aparece com números muito superiores. Pode haver diferenças de metodologia, estrutura econômica e composição dos tributos entre os países, mas a distância é grande demais para ser ignorada.

No fim das contas, quem sente a diferença não é uma planilha. É o trabalhador que precisa trocar o celular, o estudante que precisa de um notebook, a família que compra roupas, a mulher que compra cosméticos ou o pequeno empresário que paga uma conta de energia cada vez mais pesada.

O brasileiro trabalha para ganhar dinheiro. Depois, trabalha novamente para pagar os impostos embutidos no que compra. E, quando compara preços com países vizinhos, descobre que parte importante da diferença está justamente no tamanho da mordida tributária.

A discussão, portanto, deveria ir além de simplesmente arrecadar mais. Deveria envolver eficiência, transparência, competitividade e, principalmente, quanto o cidadão recebe de volta por tudo aquilo que paga.

Porque imposto pode ser necessário. O que não pode ser normal é transformar o consumidor brasileiro em financiador permanente de um sistema caro, complexo e difícil de entender.

No fim, a pergunta é simples: se outros países conseguem cobrar menos sobre produtos que fazem parte da vida cotidiana, por que o brasileiro precisa pagar tanto?

Foto: Divulgação 

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