Cinco autorizações concentram 95% das áreas liberadas pelo IAT para supressão de vegetação em 2026
Levantamento da Gazeta identificou 13 Autorizações de Supressão de Vegetação entre janeiro e julho, somando 207,45 hectares; Votorantim, nova pista do Aeroporto Afonso Pena, urbanismo e energia aparecem entre as maiores áreas
Por Gazeta do Paraná
Créditos: AEN
Treze autorizações emitidas pelo Instituto Água e Terra (IAT) entre janeiro e julho de 2026 liberaram a supressão de 207,45 hectares de vegetação no Paraná. O levantamento feito pela Gazeta do Paraná nos extratos oficiais revela uma concentração expressiva: apenas cinco Autorizações de Supressão de Vegetação, as chamadas ASVs, respondem por 197,27 hectares, pouco mais de 95% de toda a área identificada.
A maior autorização do período foi concedida à Votorantim Cimentos, em Rio Branco do Sul, na Região Metropolitana de Curitiba. São 89,04 hectares, cerca de 43% do total. Na sequência aparecem a Concessionária do Bloco Sul, com 41,52 hectares em São José dos Pinhais; Geraldo Moreli, com 27 hectares em Sabáudia; A. Yoshii Urbanismo, com 25,33 hectares em Londrina; e Copel Geração e Transmissão, com 14,38 hectares em Reserva do Iguaçu.
Os dados não representam desmatamento ilegal. Pelo contrário, as ASVs são documentos emitidos pelo órgão ambiental permitindo a retirada de vegetação dentro das condições estabelecidas no processo de licenciamento. Os números também não significam que os 207,45 hectares já tenham sido efetivamente suprimidos. Eles representam a área cuja supressão foi autorizada nos documentos analisados.
Cinco autorizações dominam o levantamento
A concentração é um dos principais achados da análise. As cinco maiores ASVs representam aproximadamente 95% da área total identificada. Os outros oito documentos, juntos, correspondem a pouco mais de 10 hectares.
Além das cinco maiores, aparecem SLI Imóveis, com 5,9 hectares em Corumbataí do Sul; Companhia Paranaense de Gás, com 1,84 hectare na Lapa; Warmling Energia, com 1,42 hectare em Salto do Lontra; Município de Guaraci, com 0,8 hectare; Prefeitura de São José da Boa Vista, com 0,15 hectare; Consórcio Construtor Logístico Araucária, com 0,0435 hectare; Prefeitura de Toledo, com 0,0224 hectare; e uma autorização de 0,0036 hectare para particular em Sabáudia.
A diferença entre os extremos mostra por que apenas contar autorizações oferece uma fotografia incompleta. Enquanto um documento pode envolver poucos metros quadrados, outro pode liberar intervenção em dezenas de hectares.
Votorantim tem a maior área
A maior autorização localizada pela Gazeta foi emitida em 15 de julho para a Votorantim Cimentos, em Rio Branco do Sul. A ASV nº 2041.8.2026.25589 compreende 89,04 hectares.
O município abriga importantes operações minerárias da companhia e processos ambientais relacionados à extração de matérias-primas utilizadas na fabricação de cimento e outros produtos. Entre os licenciamentos existentes estão projetos de ampliação de atividades de extração de calcário, diabásio, filito e argila.
Documentos ambientais de projetos da empresa no município preveem supressão de vegetação nativa e medidas de compensação ambiental. Parte das atividades minerárias da região está próxima ou inserida na zona de amortecimento do Monumento Natural Gruta da Lancinha.
O extrato da ASV, porém, não traz informação suficiente para vincular os 89,04 hectares a uma mina específica. Por isso, o levantamento não atribui a autorização individualmente a um dos projetos em andamento.
Nova pista do Afonso Pena responde por 41,5 hectares
A segunda maior autorização está relacionada à expansão do Aeroporto Internacional Afonso Pena, em São José dos Pinhais.
Em 31 de julho, o IAT emitiu uma ASV de 41,52 hectares para a Concessionária do Bloco Sul. O empreendimento passa pelo processo ambiental para implantação da terceira pista do aeroporto, prevista para ter 3 mil metros de extensão, além de novas pistas de taxiamento, áreas de segurança e intervenções associadas.
Os estudos ambientais identificaram na área diretamente afetada remanescentes de Floresta Ombrófila Mista, formação característica da floresta com araucárias, em estágios inicial e médio de regeneração. Também foram encontradas áreas úmidas, espécies nativas isoladas, pinus, eucaliptos e pastagens. O levantamento de flora registrou 154 espécies na área diretamente afetada e no entorno.
Entre os impactos previstos pelo próprio estudo estão perda de cobertura vegetal e intervenções em Áreas de Preservação Permanente. O projeto prevê acompanhamento da supressão, resgate de flora e compensação ambiental.
O Ministério Público Federal chegou a acompanhar o licenciamento da terceira pista e posteriormente arquivou o procedimento após não identificar irregularidade na condução administrativa do processo. O licenciamento também reúne dezenas de condicionantes ambientais.
Sabáudia aparece com 27 hectares
A terceira maior ASV encontrada no levantamento foi emitida em junho para Geraldo Moreli, em Sabáudia, no Norte do Paraná. São 27 hectares.
O extrato público consultado informa o requerente, município e dimensão da área, mas não fornece elementos suficientes para estabelecer com segurança a finalidade específica da intervenção. Por isso, a Gazeta mantém no levantamento apenas as informações confirmadas pelo documento.
Sabáudia aparece duas vezes nos registros daquele mês. No mesmo dia foi emitida outra ASV, para Edinair Angelo Chagas de Aguiar Luz, envolvendo apenas 0,0036 hectare. A diferença entre as duas autorizações ilustra a enorme variação de escala existente dentro da mesma modalidade de licenciamento.
Urbanização aparece entre as maiores áreas
A quarta maior autorização foi concedida à A. Yoshii Urbanismo, com 25,33 hectares em Londrina, em janeiro.
Registros ambientais da empresa no município incluem processos relacionados a parcelamento do solo e pedidos de licenciamento para implantação de empreendimento urbanístico. A documentação consultada permite situar a autorização no contexto da atividade imobiliária da empresa em Londrina, mas não estabelece de maneira inequívoca qual empreendimento específico corresponde à área dos 25,33 hectares.
A presença de uma empresa de urbanismo entre as maiores autorizações também mostra que a supressão de vegetação não está concentrada em um único setor econômico. O levantamento reúne atividades de mineração, infraestrutura aeroportuária, urbanização, energia e gás, além de autorizações concedidas a municípios e particulares.
Copel tem autorização para 14,38 hectares
A quinta maior ASV foi concedida à Copel Geração e Transmissão, para 14,38 hectares em Reserva do Iguaçu.
O extrato oficial confirma a companhia, o município e a extensão da área autorizada, mas não permite relacionar com segurança a ASV a uma obra específica. Por isso, o levantamento não atribui a autorização a determinado empreendimento da companhia.
Intervenções em projetos de geração e transmissão que demandam retirada de vegetação passam por licenciamento ambiental e podem envolver, conforme as características de cada empreendimento, medidas como resgate de flora, compensação florestal e monitoramento ambiental.
Julho concentrou quase dois terços da área
A distribuição mensal também chama atenção. Janeiro começou com 39,71 hectares em ASVs. Fevereiro e março não apresentaram autorizações dessa modalidade nos extratos analisados. Abril registrou 7,74 hectares; maio, 0,8 hectare; e junho, aproximadamente 27,05 hectares.
Em julho houve um salto para 132,15 hectares, quase 64% de toda a área identificada nos sete primeiros meses do ano.
O resultado foi puxado principalmente pelas autorizações da Votorantim e da Concessionária do Bloco Sul. Somadas, as duas representam 130,56 hectares.
Os 207 hectares não são toda a intervenção autorizada
Há uma ressalva importante para compreender o levantamento. Os 207,45 hectares correspondem exclusivamente aos documentos classificados pelo IAT como Autorizações de Supressão de Vegetação nos extratos analisados entre janeiro e julho.
As bases ambientais possuem outras modalidades que também podem envolver alteração da cobertura vegetal. Uma delas é o Uso Alternativo do Solo, registrado separadamente.
Só em janeiro, por exemplo, aparece uma autorização nessa modalidade para 247 hectares da Catuana Agropecuária, em São Pedro do Paraná, além de outra de 51,647 hectares relacionada à Florespar Florestal, em Itaperuçu.
Essas áreas não foram adicionadas aos 207,45 hectares porque pertencem a outra categoria. Também não é possível presumir, apenas pelo tamanho registrado, que toda a extensão corresponda à retirada de vegetação nativa. Isso exigiria análise individual dos respectivos processos.
Portanto, os 207,45 hectares não representam toda e qualquer intervenção em vegetação autorizada pelo IAT no Paraná. O número é específico das ASVs encontradas no período.
Regras foram atualizadas em 2026
O levantamento ocorre justamente no ano em que o Paraná atualizou as normas para esse tipo de intervenção. A Instrução Normativa nº 5/2026 estabeleceu novos critérios e procedimentos para autorização de supressão de vegetação nativa no Estado.
Outra norma publicada neste ano, a Instrução Normativa nº 19/2026, regulamentou aspectos da compensação ambiental relacionada à supressão de vegetação nativa da Mata Atlântica e seus ecossistemas associados.
Dependendo das características da vegetação e do enquadramento legal, a autorização pode envolver compensações e outras medidas ambientais. A intervenção também deve permanecer dentro dos limites definidos pelo órgão licenciador.
Desmatamento caiu, mas indicadores são diferentes
O levantamento das autorizações ocorre em um momento em que o Paraná registra redução do desmatamento da Mata Atlântica. Dados divulgados pelo Estado apontam queda de 87,5% em cinco períodos de monitoramento, passando de 3.298 hectares em 2020/2021 para 411 hectares em 2024/2025.
Os números medem fenômenos diferentes e não são contraditórios. O indicador de desmatamento procura medir a perda de vegetação efetivamente detectada. A ASV, por sua vez, registra uma autorização administrativa para determinada intervenção dentro das condições estabelecidas no licenciamento. Uma área autorizada pode, inclusive, não ser integralmente suprimida.
Um mapa da supressão autorizada
A análise dos documentos revela algo que o número bruto de autorizações esconderia. A área liberada por meio de ASVs está fortemente concentrada em poucos casos.
Dos 207,45 hectares identificados entre janeiro e julho, mais de 197 hectares estão em apenas cinco documentos. A maior autorização, da Votorantim, representa sozinha aproximadamente 43% do total. A segunda, relacionada à expansão do Aeroporto Afonso Pena, responde por cerca de 20%.
Não se trata de um levantamento de irregularidades, mas de uma fotografia de quanto, onde e para quem o órgão ambiental autorizou a supressão de vegetação dentro dos procedimentos previstos na legislação.
E a fotografia dos sete primeiros meses de 2026 é bastante concentrada: de 13 autorizações identificadas pela Gazeta, apenas cinco respondem por 95% de toda a área liberada pelo IAT para supressão de vegetação no período.
