Caso Sanepar: ex-funcionário diz ter sido sacrificado após cobranças e pressões por dinheiro nos bastidores da estatal
“Cláudio executava, Priscila dava as ordens”: áudios atribuídos a Wellington Bedeu descrevem cobranças de dinheiro, ameaças de demissão e punições internas na Sanepar, indicando um esquema de pressão que terminou com sua exoneração
Por Gazeta do Paraná
Créditos: Reprodução AEN
A divulgação, nesta sexta-feira, de áudios atribuídos a Wellington Bedeu acrescenta uma nova camada ao escândalo que envolve a Sanepar. Diferentemente de outras gravações já tornadas públicas, o material traz o relato de alguém que afirma ter participado da engrenagem interna de cobranças, mas que, ao final, teria sido afastado e responsabilizado, enquanto instâncias superiores permaneceram preservadas.
Nos áudios, Bedeu descreve uma trajetória marcada por pressões recorrentes por dinheiro, ameaças de demissão, pagamentos elevados e, por fim, sua exoneração, em um desfecho que ele próprio resume com perplexidade: “Se contar, ninguém acredita”.
Cobranças contínuas e sensação de cerco
Segundo Bedeu, a cobrança de recursos não ocorreria de forma pontual, mas como parte de um processo contínuo, intensificado em momentos específicos. “Cada evento que tinha na região aqui… quando teve a exposição em Santo Antônio da Platina, quando teve a exposição em Londrina, os caras viravam um inferno na vida nossa”, afirma. A exigência, segundo ele, era tratada como permanente: “A dívida existiu, existiu e existiu”.
O relato ajuda a compreender o mecanismo descrito nos áudios: uma arrecadação pulverizada, muitas vezes associada à compra de ingressos para eventos. “Era só comprar o ingresso e não ir na festa”, diz Bedeu, ao relatar que adquiriu diversos bilhetes e precisou recorrer a empréstimos para cumprir as exigências.
Pressão psicológica e ameaça de demissão
Nos trechos divulgados, o ex-dirigente afirma que a cobrança vinha acompanhada de ameaças diretas, explorando o medo da perda do emprego e dos direitos acumulados ao longo de décadas. “Quase 30 anos de Sanepar e ser demitido por justa causa, sair sem nada… só por causa de dois mil reais”, relata, ao reproduzir a forma como os trabalhadores eram abordados.
A ordem, segundo ele, era objetiva e intimidatória. “Se vira aí… estão precisando pagar a dívida”, afirma. Os áudios descrevem um ambiente em que a permanência funcional estaria condicionada à capacidade de atender às cobranças.
Valores elevados e endividamento
Bedeu cita cifras que ajudam a dimensionar o impacto financeiro do esquema narrado. “O Pazotto deu mais de cem mil reais em um ano”, afirma. Sobre sua própria situação, relata: “Eu bati mais de sessenta mil, fiquei devendo na fundação, fiquei devendo no sindicato, devo até hoje”.
Segundo o relato, parte desses valores teria sido levantada por meio de empréstimos, aprofundando o comprometimento financeiro pessoal. “Como é que eu ia pagar de empréstimo?”, questiona.
Hierarquia e cadeia de comando
Nos áudios, Bedeu descreve uma divisão clara de papéis dentro da estrutura. Segundo ele, Cláudio Stabile, então presidente da companhia, seria responsável por executar determinações. “Esse Stable aí… ele executava as ordens”, afirma.
Em seguida, atribui a origem das decisões a Priscila Marchini Brunetta, que à época ocupava o cargo de diretora administrativa da Sanepar. “Quem dava as ordens era a Priscila, ele só executava”, diz Bedeu, sempre no campo do relato pessoal.
Priscila Marchini Brunetta participou da estruturação das parcerias público-privadas (PPPs) da Sanepar ao lado de Cláudio Stabile. Atualmente, é diretora-presidente da Aegea, empresa que mantém contratos de PPP com a estatal paranaense.
Intermediação e recolhimento de valores
Outro elemento citado nos áudios é a existência de intermediários encarregados do recolhimento dos valores. “Se vira com um tal Jamal lá do Palácio… esse cara que passava pra recolher”, afirma Bedeu, indicando que o dinheiro seguiria um fluxo organizado, para além das unidades locais.
O desfecho: punição de quem pagou
O ponto mais dramático do relato está no desfecho. Segundo Bedeu, após atender às cobranças, os trabalhadores teriam sido alvos de comissões internas e desligamentos. “O cara pediu dinheiro pra nós, nós demos. Depois abriram uma comissão pra mandar nós embora”, afirma.
Em outro trecho, reage à inversão de responsabilidades: “Os caras pediram o dinheiro nosso e depois falaram que nós tínhamos roubado”.
Bedeu foi exonerado da Sanepar no contexto da Operação Ductos, que apurou irregularidades na companhia. Atualmente, fora do setor público, trabalha com serviço de delivery de comida, atuando na venda de marmitas.
O relato de quem ficou para trás
Ao longo das gravações, Wellington Bedeu constrói a imagem de alguém que teria integrado um sistema de cobranças e pressões, mas que, ao final, acabou isolado, punido e afastado, enquanto figuras centrais do processo seguiram em posições de poder ou migraram para o setor privado.
“Se contar, ninguém acredita”, resume. O conjunto dos áudios, atribuídos a Bedeu, não apenas reforça denúncias já publicadas, como adiciona um elemento humano ao escândalo: o de um personagem que se vê como o sacrificado de um esquema maior, deixado à margem quando a crise veio à tona.
A Gazeta do Paraná mantém aberto o espaço para manifestação dos citados.
Créditos: Redação
