Cascavel e Foz do Iguaçu realizam aplicação inédita de polilaminina em pacientes com lesão medular
HUOP e hospital particular de Foz utilizam terapia experimental autorizada pela Anvisa por uso compassivo; procedimentos marcam avanço científico no Paraná
Créditos: Assessoria
Cascavel e Foz do Iguaçu protagonizaram, no último fim de semana, um momento histórico na medicina paranaense com a aplicação inédita de polilaminina em pacientes com lesão medular. O procedimento foi realizado no Hospital Universitário do Oeste do Paraná (HUOP), em Cascavel, e em um hospital particular de Foz do Iguaçu.
No HUOP, o paciente é Wagner Felipe de Lima, de 23 anos, vítima de acidente recente que resultou em trauma raquimedular grave. Ele passou por cirurgia de descompressão das vértebras T3 e T4 e tratamento de ruptura da T3. Após estabilização clínica, a equipe médica avaliou que o jovem preenchia os critérios para receber a polilaminina.
A aplicação foi autorizada por meio de uso compassivo, mecanismo regulamentado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que permite o acesso a terapias experimentais em casos específicos, quando não há alternativas eficazes disponíveis. O medicamento é desenvolvido pelo Laboratório Cristália, com pesquisa liderada pela médica Tatiana Sampaio, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
O neurocirurgião e professor da Unioeste, Lázaro de Lima, explicou que a indicação foi cuidadosamente analisada e que toda a documentação necessária foi encaminhada à Anvisa para liberação. Segundo ele, o fator tempo foi determinante, já que lesões agudas apresentam menor formação de fibrose, o que pode favorecer a intervenção precoce.
A polilaminina é uma proteína com potencial de atuar como matriz biológica, criando um ambiente mais propício à reconexão das fibras nervosas lesionadas. Trata-se de uma alternativa ainda em fase experimental, baseada em anos de pesquisa científica.
O procedimento consiste na aplicação do produto em dois pontos específicos da medula, um acima e outro abaixo da lesão. De acordo com o neurocirurgião Bruno Cortez, que participou da padronização da técnica, a intervenção exige precisão milimétrica.
Após a aplicação, o paciente seguirá com acompanhamento clínico rigoroso, exames periódicos e reabilitação multiprofissional, com fisioterapia intensiva e avaliações neurológicas constantes.
O diretor-geral do HUOP, Rafael Muniz de Oliveira, destacou o protagonismo da instituição, ressaltando que o hospital universitário une assistência, ensino e pesquisa. O reitor da Unioeste, Alexandre Almeida Webber, afirmou que a participação em estudos clínicos dessa natureza fortalece a formação acadêmica e coloca a universidade na linha de frente da inovação científica.
Foz do Iguaçu
Em Foz do Iguaçu, o procedimento foi realizado pela equipe da médica Tatiana Sampaio, com os neurocirurgiões João Elias El Sarraf, Bruno Cortez e o médico pesquisador Arthur Luiz. A aplicação também ocorreu em dose única, em áreas próximas à lesão, com o objetivo de estimular a regeneração neural.
O paciente em Foz é William Kerber Carboni, ex-atleta do Suzano Vôlei, que sofreu acidente automobilístico e evoluiu para tetraplegia por lesão medular em C3. Segundo a equipe médica, até o momento não foram registrados óbitos ou complicações relacionadas à aplicação, embora sejam adotadas medidas preventivas para evitar intercorrências respiratórias e cardíacas.
William afirmou que via a possibilidade de acesso à medicação como algo distante, mas que agora se tornou realidade. A família acompanha com expectativa a evolução clínica, enquanto o tratamento segue com monitoramento rigoroso e reabilitação especializada.
As aplicações em Cascavel e Foz do Iguaçu marcam um avanço relevante na assistência a pacientes com lesão medular no Paraná, aliando pesquisa científica, inovação e acompanhamento clínico especializado.
Sobre a polilaminina
A polilaminina é um composto recriado em laboratório a partir da laminina, proteína produzida pelo corpo humano, especialmente durante o desenvolvimento embrionário, quando exerce papel fundamental na organização dos tecidos e no crescimento celular.
A pesquisa teve início há quase 30 anos com a bióloga Tatiana Sampaio, na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Em laboratório, ela desenvolveu uma rede de proteínas chamadas lamininas. O conjunto dessas proteínas forma a polilaminina, substância que atua na regeneração dos axônios, prolongamentos dos neurônios responsáveis pela transmissão de impulsos nervosos.
Nos estudos, Tatiana Sampaio utilizou a substância no tratamento de lesões medulares agudas, ou seja, ocorridas recentemente e que provocaram perda de movimentos. Os resultados foram positivos em testes com animais e, posteriormente, em um pequeno grupo de pessoas.
Os avanços levaram à parceria com um laboratório nacional e à autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para o início de estudos clínicos, que buscam responder se a polilaminina é, de fato, eficaz no tratamento de lesões medulares agudas.
Em entrevista ao portal G1, a pesquisadora afirmou que a substância ainda é uma promessa de tratamento e que há um longo caminho até sua aprovação definitiva. “Ainda não é um feito, é uma promessa de tratamento. No dia em que estiver registrada, as pessoas usarem e todas recuperarem a função, se todos voltarem a andar, aí sim fizemos uma revolução”, declarou.
A cautela se deve à necessidade de cumprir todas as etapas exigidas para comprovar a segurança e a eficácia do medicamento.
Foto: Assessoria Huop
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