Corbelia  Agosto

Canetas emagrecedoras mudam hábitos e desafiam bares e restaurantes

Presidente da Abrabar afirma que redução do apetite se soma à busca por uma vida mais saudável, menor consumo de álcool e mudanças na vida noturna; setor é pressionado a rever porções, preços, cardápios e horários

Por Gazeta do Paraná

🎧 Ouça esta matéria — narrado por IA
Canetas emagrecedoras mudam hábitos e desafiam bares e restaurantes Créditos: Agência Brasil


A popularização das chamadas canetas emagrecedoras começa a produzir efeitos que ultrapassam os consultórios médicos e chegam às mesas de bares e restaurantes. Com consumidores que sentem menos fome, demonstram maior preocupação com a alimentação e, em muitos casos, reduzem também o consumo de bebidas alcoólicas, empresários do setor são pressionados a repensar porções, preços, cardápios e até os horários de funcionamento.

O alerta é do presidente da Associação Brasileira de Bares e Casas Noturnas (Abrabar), Fábio Bento Aguayo. Segundo ele, relatos recebidos de empresários mostram uma mudança que nem sempre significa o desaparecimento completo do cliente. Parte do público continua frequentando os mesmos lugares, mas passou a pedir menos comida e bebida. “Eu já recebi vários relatos de empresários que fecharam porque a sua clientela mudou, sumiu, e aqueles que eram fiéis continuam indo, mas consumindo menos”, afirma.

Fábio Aguayo, em entrevista à Gazeta do Paraná

Aguayo conhece a mudança também pela própria experiência. Diagnosticado com pré-diabetes, ele conta que precisou utilizar uma caneta emagrecedora e percebeu rapidamente alterações no apetite e no comportamento. “Perdi a vontade de comer, perdi a vontade de beber, e isso impactou no meu dia a dia, no meu consumo, nos meus hábitos”, relata. Na avaliação do dirigente, milhares de consumidores passam hoje por mudanças semelhantes, criando uma nova realidade para estabelecimentos acostumados a outro padrão de consumo.

Para o presidente da Abrabar, entretanto, as canetas não explicam sozinhas o fenômeno. Elas se inserem em uma transformação mais ampla, marcada pela valorização do bem-estar, da alimentação saudável e da prática de exercícios físicos. Aguayo considera que os estabelecimentos precisam compreender esse movimento como uma tendência duradoura, e não como uma moda passageira. “Muita gente não entendeu. Acha que é uma coisa passageira. Eu não acho, é uma coisa para ficar”, diz.


Novos cardápios

Uma das consequências mais imediatas está no tamanho dos pratos. Consumidores que antes pediam refeições ou lanches completos passaram a procurar porções menores. Ao mesmo tempo, cresce, segundo Aguayo, a procura por opções mais leves em estabelecimentos tradicionalmente associados a frituras, alimentos gordurosos e grandes quantidades de comida.

O dirigente afirma que a própria Abrabar recebe manifestações de consumidores cobrando mudanças. São clientes que gostariam de continuar frequentando determinados estabelecimentos, mas dizem não encontrar opções compatíveis com seus novos hábitos. Para Aguayo, insistir em um cardápio que desconsidere essa transformação pode significar perder justamente uma clientela que ainda deseja sair de casa e consumir.

A meia porção é um dos exemplos citados por ele. Durante muito tempo, alguns estabelecimentos resistiram a oferecê-la ou cobravam valores próximos aos de uma porção inteira. No novo cenário, essa lógica precisa ser revista. “Não adianta reduzir a porção e manter um preço alto”, afirma Aguayo. Segundo ele, a redução também diminui o uso de insumos e pode permitir que o empresário preserve a rentabilidade, desde que faça uma precificação adequada.

A mudança, portanto, não precisa ser encarada exclusivamente como perda. Ao adaptar quantidade e preço, o estabelecimento pode manter consumidores que deixariam de frequentá-lo por saber que não conseguiriam comer tudo o que seria servido. Para Aguayo, trata-se de encontrar uma nova equação entre custo, desperdício, preço e fidelização.

 

Menos álcool

A transformação também chega aos copos. O presidente da Abrabar observa uma redução no interesse por bebidas alcoólicas entre parcelas do público e avalia que a indústria já percebeu o movimento ao ampliar a oferta de produtos sem álcool. “A minha geração, que é da década de 70, era natural fumar e beber. Hoje não. Hoje não é mais isso”, compara.

Segundo Aguayo, a tendência não pode ser atribuída apenas aos medicamentos para emagrecimento. Há consumidores que simplesmente passaram a rejeitar ou reduzir o álcool como parte de uma rotina voltada ao bem-estar. Para ele, bares e casas noturnas precisarão acompanhar essa transformação da mesma forma que grandes fabricantes vêm diversificando seus portfólios.

A mudança geracional aparece de maneira ainda mais evidente na vida noturna. A rotina de chegar a uma festa perto da meia-noite e permanecer até o amanhecer perde espaço para programas que começam e terminam mais cedo. Corrida, ciclismo, natação, academia e crossfit passaram a disputar diretamente o tempo antes reservado à madrugada.

Aguayo afirma ter percebido essa transformação com maior intensidade a partir do fim de 2025. Ao circular pelo Paraná, passou a encontrar comportamentos semelhantes em diferentes cidades e até eventos realizados durante o dia, acompanhados por chás e bebidas sem álcool. “Não existe mais balada de 11 horas, que começa 11 horas. Começa bem mais cedo”, afirma. Segundo ele, a mudança pode ser percebida também nos shows, que começam mais cedo para terminar por volta da meia-noite.

O contraste com a antiga cultura da noite é tamanho que Aguayo brinca ao chamar os frequentadores tradicionais de “os últimos moicanos do nosso segmento”. A frase resume uma percepção que vai além dos bares: uma parcela do público mais jovem parece disposta a trocar horas de festa por uma rotina que permita acordar cedo para praticar atividades físicas.

 

Outros fatores

As canetas emagrecedoras e a cultura do bem-estar, contudo, são apenas parte das pressões enfrentadas pelo setor. Juros elevados, endividamento das famílias e o próprio custo de sair de casa também interferem na decisão do consumidor. Transporte por aplicativo, combustível, estacionamento, alimentação e bebidas fazem com que uma noite fora represente uma despesa significativa.

Ao mesmo tempo, o delivery consolidou hábitos fortalecidos durante a pandemia. A facilidade de pedir comida e permanecer em casa ampliou a concorrência enfrentada pelo estabelecimento físico. “Tirar essa pessoa de casa é um desafio do estabelecimento”, resume Aguayo.

Há ainda mudanças na própria rotina de alimentação. Empresas passaram a disponibilizar espaços para funcionários que levam comida de casa, enquanto o aumento do número de pessoas que vivem sozinhas cria outra demanda por quantidades menores e formatos diferentes de consumo. Para o presidente da Abrabar, todas essas transformações precisam ser observadas conjuntamente porque alteram o perfil do público que bares, restaurantes e lanchonetes tentam atrair.

A adaptação também passa pelo atendimento. Aguayo considera que funcionários precisam estar preparados para compreender por que um cliente pede meia porção, uma quantidade menor de bebida ou uma opção diferente daquela tradicionalmente oferecida. Tratar essas escolhas como inconvenientes, segundo ele, significa não compreender o novo consumidor.

 

Nova realidade

A preocupação do setor tem também uma dimensão econômica. Se o consumo cai e o estabelecimento não consegue se adaptar, a consequência pode aparecer no faturamento e, posteriormente, no emprego. Aguayo lembra que bares e restaurantes já atravessam simultaneamente outro processo de transformação, com a expansão da automação, dos cardápios digitais e dos pedidos feitos por QR Code.

Apesar do impacto sobre os negócios, o presidente da Abrabar vê aspectos positivos na mudança de comportamento. Na avaliação dele, uma população que bebe menos, pratica mais exercícios e procura uma rotina saudável pode contribuir para reduzir problemas relacionados ao alcoolismo, aos acidentes de trânsito e às doenças associadas a hábitos pouco saudáveis.

Para os empresários, porém, a transformação impõe uma escolha. Esperar que o consumidor retome os antigos hábitos pode significar perder espaço para quem compreender primeiro a nova realidade. “É uma tendência que nós temos que adaptar”, afirma Aguayo. “Tem que reciclar o ambiente, o comportamento, todos nós temos que estar nessa nova adaptação.”

Créditos: Redação Acesse nosso canal no WhatsApp