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Brasil pode ampliar biocombustíveis sem comprometer produção de alimentos

Especialista aponta recuperação de pastagens degradadas, aumento da produtividade e uso de resíduos agrícolas como alternativas para expandir a bioenergia sem pressionar áreas destinadas à produção de alimentos

Brasil pode ampliar biocombustíveis sem comprometer produção de alimentos Créditos: Reprodução Redes Sociais

Os biocombustíveis são considerados uma alternativa estratégica para reduzir a dependência mundial dos combustíveis fósseis e diminuir as emissões de gases de efeito estufa. Ao mesmo tempo, a necessidade de grandes áreas para o cultivo de matérias-primas como cana-de-açúcar, soja e milho levanta uma preocupação: a possível disputa por terras com a produção de alimentos.

Para David Tsai, engenheiro químico e gerente de projetos do Instituto de Energia e Meio Ambiente (IEMA), o Brasil tem condições de ampliar a produção de biocombustíveis sem comprometer a segurança alimentar.

Um dos caminhos está no aproveitamento de áreas que já foram abertas para atividades agropecuárias. Segundo Tsai, o país possui cerca de 100 milhões de hectares de pastagens degradadas. Parte dessas áreas poderia ser recuperada e utilizada para atividades agrícolas e bioenergéticas, sem a necessidade de avanço sobre florestas ou terrenos atualmente destinados à produção de alimentos.

A disputa por terras, portanto, não seria uma consequência inevitável da expansão dos biocombustíveis no Brasil, na avaliação do especialista.

“Ganhos de produtividade na agropecuária permitem produzir mais em menos área”, afirma Tsai.

Segundo ele, o risco aumenta quando a expansão ocorre sem planejamento, com monoculturas extensivas ou pressão indireta por desmatamento. Por isso, a discussão não deveria ser tratada apenas como uma escolha entre produzir alimentos ou combustíveis.

“A discussão não é apenas alimento versus combustível, mas como organizar o uso da terra com planejamento, conservação ambiental e aumento de eficiência produtiva”, declara.

Tecnologia pode reduzir pressão por novas áreas

Uma das alternativas para evitar a competição com a produção de alimentos é concentrar a expansão dos biocombustíveis em áreas que já foram abertas.

Entre as possibilidades estão sistemas integrados de produção, como a Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF), além do plantio direto e do manejo agroflorestal. Essas técnicas permitem aumentar a eficiência do uso da terra e podem contribuir para a recuperação de áreas degradadas.

A tecnologia também abre espaço para ampliar a produção de combustíveis sem depender exclusivamente de novas plantações.

Os chamados biocombustíveis de segunda geração são produzidos a partir de materiais como palha, bagaço, resíduos agrícolas e resíduos urbanos. O aproveitamento dessas matérias-primas pode reduzir a necessidade de incorporar novas áreas agrícolas à produção energética.

Para Tsai, porém, o avanço tecnológico precisa ser acompanhado por políticas públicas e mecanismos de controle.

“Também são importantes critérios socioambientais rígidos, rastreabilidade das cadeias produtivas e políticas públicas que conciliem segurança alimentar, conservação ambiental e transição energética. Assim, o Brasil pode expandir a bioenergia sem comprometer a produção de alimentos”, afirma.

Nesse cenário, a expansão dos biocombustíveis depende não apenas do aumento da produção, mas também da forma como o território brasileiro será utilizado, com recuperação de áreas degradadas, ganhos de produtividade e adoção de novas tecnologias.

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