Brasil mantém pior posição em ranking global de corrupção e segue abaixo da média internacional
Apesar de ter registrado um ponto a mais que no ano anterior, a própria entidade classifica a variação como estatisticamente irrelevante
Por Gazeta do Paraná
Créditos: Marcello Casal JrAgência Brasil
O Brasil manteve em 2025 sua pior colocação histórica no Índice de Percepção da Corrupção (IPC), divulgado nesta terça-feira (10) pela organização Transparência Internacional. O país obteve 35 pontos em uma escala de 0 a 100, em que notas menores indicam maior percepção de corrupção, e ficou na 107ª posição entre 182 países e territórios avaliados.
Apesar de ter registrado um ponto a mais que no ano anterior, a própria entidade classifica a variação como estatisticamente irrelevante, caracterizando um cenário de estagnação. Com isso, o Brasil permanece abaixo tanto da média global quanto da média das Américas, ambas de 42 pontos.
O IPC é considerado o principal indicador mundial sobre corrupção no setor público. O levantamento reúne dados de diferentes fontes independentes que captam a percepção de especialistas, pesquisadores, executivos e instituições que monitoram governança e integridade pública. Ele não contabiliza casos específicos nem investigações em curso, mas avalia a confiança institucional.
Na comparação internacional, o país permanece distante dos líderes do ranking. Dinamarca (89 pontos), Finlândia (88) e Cingapura (84) ocuparam as primeiras posições. Na outra ponta aparecem Somália e Sudão do Sul, com 9 pontos, e Venezuela, com 10. O desempenho brasileiro ficou próximo ao de países como Sri Lanka, Argentina e Ucrânia.
Segundo o diretor executivo da Transparência Internacional – Brasil, Bruno Brandão, o ano apresentou sinais contraditórios. De um lado, o país ganhou repercussão internacional por decisões judiciais envolvendo responsabilização política; de outro, enfrentou casos classificados pela entidade como de “macrocorrupção em escala inédita”.
Relatório aponta infiltração do crime organizado
Além do índice, a organização divulgou o documento “Retrospectiva 2025”, que analisa qualitativamente avanços e retrocessos no combate à corrupção. O texto afirma ter havido agravamento da infiltração do crime organizado no Estado, principalmente por meio do sistema financeiro e da advocacia, considerados setores estratégicos para práticas ilícitas.
Entre os episódios citados estão investigações envolvendo o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) e o caso Banco Master, descrito como a maior fraude bancária já registrada no país. O relatório também menciona suspeitas de comércio de decisões judiciais, fraudes em licitações, lavagem de dinheiro e sonegação fiscal identificadas em operações da Polícia Federal.
A entidade destaca ainda o crescimento das emendas parlamentares, que ultrapassaram R$ 60 bilhões no orçamento de 2026. Para a organização, o fenômeno representa uma “captura orçamentária” que se estende a estados e municípios, ampliando a influência política sobre recursos públicos.
Como recomendações, a Transparência Internacional defende a criação de código de conduta no Judiciário, fortalecimento de mecanismos de integridade nos três Poderes e investigações independentes em casos de alto impacto.
Avanços também são apontados
O relatório registra, porém, medidas consideradas positivas. Entre elas, operações baseadas em inteligência financeira, como a Carbono Oculto, que utilizou cruzamento de dados para combater lavagem de dinheiro e evasão de divisas. A organização também menciona a rejeição da chamada “PEC da Blindagem” e maior controle sobre emendas parlamentares.
Governo questiona metodologia
Em nota, a Controladoria-Geral da União (CGU) ponderou que o índice não mede a ocorrência real de corrupção nem avalia políticas públicas ou resultados institucionais. O órgão afirma que o indicador se baseia em percepções de grupos específicos e pode variar sem mudança concreta na atuação do Estado.
Segundo a CGU, há um efeito paradoxal: países que investigam mais irregularidades e ampliam a transparência podem ser pior avaliados porque tornam os problemas mais visíveis. O governo também citou dados próprios, como 76 operações especiais realizadas em 2025 e identificação de R$ 13,6 bilhões em prejuízos potenciais, além de R$ 40,6 bilhões em benefícios financeiros gerados por auditorias.
Para o órgão, indicadores baseados apenas em percepção oferecem visão incompleta e não devem ser utilizados isoladamente como diagnóstico institucional.
Série histórica
Desde 2015 o Brasil permanece abaixo da média mundial do índice. A manutenção da nota em 2025 reforça, segundo a Transparência Internacional, a ausência de avanços estruturais consistentes. Já o governo sustenta que o aumento de investigações e transparência pode impactar negativamente a percepção sem representar maior corrupção efetiva.
O resultado mantém o país entre as nações com desempenho intermediário-baixo no cenário global e evidencia divergências entre organizações da sociedade civil e autoridades públicas sobre a leitura dos dados e a evolução do combate à corrupção.
