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Banestado e Master repetem roteiro de créditos podres e intervenção pública

Banestado e Banco Master: duas crises separadas por 25 anos revelam o mesmo problema com “títulos podres” e carteiras de crédito de difícil recuperação

Por Gazeta do Paraná

Banestado e Master repetem roteiro de créditos podres e intervenção pública Créditos: Reprodução

No início dos anos 2000, o Paraná acompanhou a saída do Banestado do controle estatal em meio a um processo de saneamento financeiro que incluiu a retirada de créditos considerados de baixa liquidez do balanço da instituição. Em 2025, a intervenção do Banco Central do Brasil no Banco Master trouxe de volta ao debate nacional um tema semelhante: a presença de carteiras de crédito de recuperação incerta sustentando parte relevante do patrimônio contábil de um banco. Embora os episódios tenham naturezas jurídicas diferentes — privatização em um caso, intervenção regulatória no outro —, a trajetória dos dois processos revela mecanismos parecidos de tratamento de ativos problemáticos e transferência de risco após a constatação de dificuldades de liquidez.

A privatização do Banestado foi concluída em outubro de 2000. O banco estadual, criado para atuar no financiamento regional e no atendimento de servidores públicos, vinha acumulando, ao longo da década de 1990, uma carteira com volume expressivo de precatórios judiciais, créditos de longa disputa judicial e títulos emitidos por estados e municípios com histórico de inadimplência. Esses papéis permaneciam registrados contabilmente como ativos, mas apresentavam baixa capacidade de conversão imediata em caixa. Na preparação para o leilão, o governo do Paraná promoveu um saneamento patrimonial. Parte desses créditos foi retirada do balanço que seria transferido ao comprador, permanecendo sob responsabilidade do Estado. O controle acionário acabou arrematado pelo Itaú por R$ 1,6 bilhão.

Relatos oficiais e registros legislativos mostram que, após a venda, o passivo relacionado a esses títulos continuou a ser discutido por anos. Estados emissores contestaram valores, pediram renegociações e parcelamentos. Houve acordos com descontos relevantes e disputas judiciais prolongadas. A arrecadação efetiva ficou abaixo do valor nominal registrado originalmente. Parte dos recursos recuperados foi destinada ao abatimento de compromissos financeiros assumidos no processo de privatização. As discussões passaram repetidamente pela Assembleia Legislativa do Paraná, onde parlamentares debateram alternativas para acelerar acordos, aceitar deságios ou manter cobranças judiciais. Paralelamente, a reestruturação do banco após a aquisição pelo setor privado resultou em fechamento de agências e redução do quadro de funcionários, mudanças que marcaram o fim do modelo de banco estadual.

A discussão sobre qualidade de ativos voltou ao noticiário nacional duas décadas depois, em outro contexto. O Banco Master, instituição privada de médio porte, apresentou crescimento acelerado por meio de captação de recursos a taxas elevadas e aquisição de carteiras de crédito estruturadas. Parte relevante dessas operações envolvia cessões de recebíveis e negociação de créditos com outras instituições. Em 2025, o Banco Central identificou problemas de liquidez e determinou a intervenção. Investigações posteriores passaram a examinar a composição dessas carteiras, questionando a origem, o lastro e a capacidade real de recuperação dos créditos registrados no balanço.

Uma das operações sob análise envolveu a venda de carteiras bilionárias ao Banco de Brasília. Após a crise, executivos das duas instituições apresentaram versões divergentes sobre as informações disponíveis à época das negociações. A divergência diz respeito ao grau de transparência sobre a natureza dos ativos e ao risco associado à sua recuperação. O Banco Central abriu procedimentos administrativos para apurar eventual superavaliação contábil, falhas de governança e responsabilidade de gestores. Também foram adotadas medidas para proteger depositantes e evitar impactos sistêmicos.

A comparação entre os dois episódios parte de um elemento técnico comum: a manutenção, nos balanços, de créditos cujo valor nominal não corresponde necessariamente à liquidez real. No Banestado, esses ativos foram segregados antes da transferência do controle, permanecendo sob responsabilidade do poder público. No Master, a revisão ocorreu após a intervenção regulatória, quando a necessidade de caixa tornou mais visível a dificuldade de precificar as carteiras. Nos dois casos, o ponto central foi a distância entre o valor registrado contabilmente e o montante efetivamente recuperável.

Os contextos institucionais, contudo, diferem. O Banestado era um banco estatal submetido a um programa de privatização e reestruturação fiscal. O Master operava como banco privado sob supervisão federal. No primeiro caso, o saneamento foi condição para a venda; no segundo, a intervenção foi consequência da deterioração financeira. Ainda assim, ambos os episódios colocaram o poder público na posição de administrar ativos problemáticos ou mitigar efeitos da perda de valor desses créditos.

Mais de vinte anos após a privatização do banco paranaense, parte das negociações envolvendo os antigos títulos ainda aparece em registros administrativos e históricos orçamentários. No caso do Master, as apurações seguem em andamento.

Créditos: Redação Acesse nosso canal no WhatsApp