Áudio revela orientação para piloto omitir falha em avião da Voepass para evitar retirada da aeronave de operação
Gravação obtida pela EPTV reforça conclusões do Cenipa sobre falhas na cultura de segurança da companhia; empresa afirma seguir protocolos formais para registro de panes
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Um áudio obtido pela EPTV, afiliada da TV Globo, revela que um funcionário da manutenção da Voepass orientou um piloto a não registrar uma falha identificada em uma aeronave para evitar que o avião fosse retirado de operação. A gravação reforça as conclusões do relatório final do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), que apontou a existência de uma "cultura de normalização de desvios" na empresa.
Na mensagem, o funcionário pede que o piloto converse com outro comandante que assumiria a aeronave e deixe de registrar o problema.
"Precisava que você entrasse em contato com o [nome omitido], é ele que vai assumir o seu avião aí, para não reportar a PACK, porque ele vai assumir a aeronave aí e vai conversar contigo. Só para não reportar, para não ficar AOG aí", diz o áudio.
A expressão AOG (Aircraft on Ground) é utilizada na aviação para indicar que uma aeronave deve permanecer em solo em razão de uma pane ou necessidade de manutenção. Já o PACK é um componente responsável pelo sistema de ar-condicionado e pressurização da aeronave.
Ex-piloto relata prática recorrente
O piloto que recebeu a mensagem, e que pediu para não ser identificado, afirmou que o episódio ocorreu poucos meses após a queda do voo 2283, em Vinhedo (SP), e que situações semelhantes faziam parte da rotina operacional da companhia.
Segundo ele, havia pressão para que determinados problemas mecânicos deixassem de ser registrados oficialmente, principalmente quando a aeronave já havia passado recentemente por manutenção.
"Era comum eles pedirem, principalmente quando era um item que já tinha saído da manutenção. Eles tinham um grande problema de parar a aviação, não queriam que parasse de forma nenhuma", afirmou.
O ex-funcionário disse que nunca deixou de registrar falhas que considerava relevantes para a segurança do voo. Ainda assim, relatou que profissionais que insistiam em registrar panes poderiam enfrentar resistência dentro da empresa.
Áudio reforça conclusão do Cenipa
As declarações vão ao encontro do relatório final divulgado pelo Cenipa sobre o acidente com o ATR 72-500 da Voepass, que caiu em Vinhedo, no interior de São Paulo, em 9 de agosto de 2024.
Durante a apresentação do documento, o investigador do Cenipa, tenente-coronel Paulo Mendes Fróes, afirmou que a empresa apresentava uma cultura de "normalização de desvios", caracterizada pela aceitação de práticas operacionais inadequadas e pelo registro incompleto de falhas mecânicas.
Segundo o órgão, foram identificadas dificuldades no fluxo de comunicação entre manutenção e operações, além de registros insuficientes sobre problemas apresentados pelas aeronaves.
Relato semelhante já havia sido feito
As novas informações também reforçam um depoimento apresentado anteriormente no documentário "81 Segundos", produzido pelo g1 em parceria com a EPTV.
Na ocasião, um ex-funcionário da Voepass afirmou que uma falha no sistema de degelo da aeronave acidentada teria deixado de ser registrada no diário de bordo poucas horas antes da decolagem.
Segundo o trabalhador, ele acompanhou a última manutenção realizada no ATR envolvido no acidente e sustentou que o problema foi omitido dos registros oficiais.
Acidente matou 62 pessoas
O voo 2283 da Voepass decolou de Cascavel, no oeste do Paraná, com destino ao Aeroporto Internacional de Guarulhos (SP).
A aeronave ATR 72-500, de matrícula PS-VPB, caiu no quintal de uma residência em um condomínio de Vinhedo, no dia 9 de agosto de 2024.
As 62 pessoas a bordo - sendo 58 passageiros e quatro tripulantes - morreram. Nenhum morador da casa atingida ficou ferido.
O desastre foi o mais grave da aviação civil brasileira desde o acidente com o voo 3054 da TAM, ocorrido em 2007.
Voepass diz desconhecer gravação
Em nota, a Voepass informou que não teve acesso ao áudio divulgado pela EPTV e afirmou desconhecer a gravação.
A empresa ressaltou que mantinha um sistema formal para comunicação de falhas em equipamentos e que suas equipes eram orientadas a seguir rigorosamente esse procedimento.
A companhia também afirmou que, ao longo de mais de 30 anos de operação, sempre adotou padrões de segurança reconhecidos internacionalmente, incluindo a certificação IOSA, emitida pela Associação Internacional de Transporte Aéreo (IATA).
Segundo a Voepass, a tripulação do voo 2283 era experiente, devidamente certificada e acumulava mais de 5 mil horas de voo, além de estar com treinamentos e avaliações médicas em dia.
A empresa acrescentou que continua colaborando com o Cenipa e demais autoridades responsáveis pela investigação desde o início das apurações sobre o acidente.
