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Atrasos, contratos inflados e alerta médico: hospital de Assis Chateaubriand opera no limite

Documentos internos, ofícios do corpo clínico e contratos de terceirização revelam atrasos nos repasses, aumento expressivo de custos e risco concreto à continuidade do atendimento pelo SUS

Por Gazeta do Paraná

Atrasos, contratos inflados e alerta médico: hospital de Assis Chateaubriand opera no limite Créditos: Reprodução/Google Street View

O Hospital Beneficente Moacir Micheletto, em Assis Chateaubriand, vive uma crise que deixou de ser apenas administrativa e passou a representar um risco concreto à continuidade do atendimento pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Documentos internos, ofícios assinados pelo corpo médico e levantamentos sobre contratos de terceirização revelam um cenário marcado por atrasos nos repasses, aumento abrupto de custos e instabilidade na gestão.

Nos últimos anos, o hospital passou a operar sob um modelo ampliado de terceirização dos serviços médicos, inserido em uma estrutura mais ampla de gestão conduzida pelo Instituto IDEAS, organização social responsável por unidades de saúde em diferentes estados. Dentro desse modelo, empresas médicas terceirizadas assumiram especialidades essenciais, como anestesiologia, ginecologia, obstetrícia, ortopedia e plantões de urgência.

Levantamentos sobre esses contratos indicam um padrão que se repete em diversas cidades: as mesmas empresas aparecem atuando em hospitais sob gestão do IDEAS em estados distintos, sempre responsáveis por serviços considerados estratégicos para o funcionamento das unidades. Embora a terceirização não seja ilegal, a concentração recorrente de prestadores, associada à falta de detalhamento técnico em alguns contratos, passou a levantar questionamentos internos sobre “a ausência de critérios objetivos de execução, fiscalização e mensuração dos serviços prestados”.

Essas inquietações ganharam forma em uma carta encaminhada ao presidente do Conselho de Administração da Associação Hospitalar Beneficente Moacir Micheletto, assinada por colaboradores que pediram anonimato por medo de represálias. O documento descreve um ambiente de trabalho marcado por decisões centralizadas, pouca transparência e crescimento expressivo dos custos médicos. “Muito se fala em melhorias, mas quais foram essas melhorias?”, questionam os autores, ao apontar que contratos médicos tiveram aumentos considerados desproporcionais. Segundo o relato, serviços que antes custavam cerca de R$ 46 mil por mês passaram a ultrapassar R$ 140 mil, enquanto outros saltaram de pouco mais de R$ 60 mil para quase R$ 150 mil mensais.

Ao mesmo tempo, a carta expõe dificuldades financeiras persistentes. “Estamos usando 100% do rotativo disponível”, registra o texto, que menciona gastos mensais com juros e IOF apenas para manter as contas em funcionamento. Há ainda relatos de atrasos a fornecedores, prestadores de serviços e equipe médica, além de um ambiente interno descrito como desmotivador, marcado por “falta de transparência, favorecimentos pessoais e alta rotatividade”. Entre junho de 2023 e março de 2024, segundo o documento, 58 colaboradores pediram desligamento, número considerado alarmante pelos próprios funcionários.

O ponto de inflexão da crise veio quando o próprio corpo médico decidiu formalizar o alerta. Em ofício encaminhado ao prefeito de Assis Chateaubriand, os médicos relatam que os atrasos nos repasses públicos passaram a comprometer diretamente a continuidade dos serviços. “Os valores não vêm sendo repassados em dia, o que impacta o pagamento das empresas médicas terceirizadas”, diz o documento, que alerta para o fato de que essas empresas estariam recorrendo a recursos próprios ou empréstimos para manter plantões e atendimentos.

O ofício é direto ao apontar o risco assistencial. “A situação se tornou insustentável”, afirmam os médicos, ao relatar prejuízos às cirurgias eletivas, escalas de UTI e ao pronto-socorro. Segundo o texto, a instabilidade financeira “afeta não apenas a segurança econômica dos profissionais, mas coloca em risco a população que depende exclusivamente do SUS para atendimento hospitalar”.

Denúncias semelhantes também chegaram ao Ministério Público envolvendo unidades hospitalares geridas pelo IDEAS em outras cidades, como Santa Helena. Nessas comunicações, profissionais relatam atrasos salariais “desde setembro ou outubro”, falta de insumos básicos e risco de paralisação de equipes inteiras. Em um dos relatos, há o alerta de que “apenas médicos recém-formados ou desinformados têm aceitado os plantões”, o que ampliaria o risco à qualidade do atendimento.

O histórico do Instituto IDEAS em outros estados adiciona um elemento de atenção ao caso. A organização já foi alvo de apontamentos de tribunais de contas, denúncias sindicais e investigações administrativas relacionadas a contratos e subcontratações. Não há, até o momento, condenações criminais definitivas, mas os registros reforçam a necessidade de acompanhamento rigoroso. Em análises técnicas, aparecem referências a “despesas sem justificativa adequada” e a contratações que “favoreceram fornecedores habituais”, contrariando princípios de economicidade.

O que emerge desse conjunto de documentos não é uma acusação isolada, mas o retrato de um modelo de gestão que opera sob tensão permanente. Em um hospital público ou filantrópico, a instabilidade financeira não se limita às planilhas. Ela se traduz em cirurgias adiadas, equipes sobrecarregadas e insegurança cotidiana para profissionais e pacientes.

Enquanto o poder público avalia responsabilidades e possíveis medidas, o Hospital Beneficente Moacir Micheletto segue funcionando no limite. A crise exposta pelos próprios documentos internos e pelo corpo médico da unidade deixa uma pergunta inevitável: até quando será possível sustentar o atendimento à população sem que o sistema entre em colapso definitivo.

 

O que diz o hospital?

Nossa equipe de reportagem enviou por e-mail perguntas com relação ao caso, mas até o fechamento da edição não obtivemos qualquer retorno.

Créditos: Redação Acesse nosso canal no WhatsApp